Mexer com a dignidade dos professores

alex-parafita.jpgLemos e ouvimos, num tom geralmente provocatório, acusar os professores de serem uma classe privilegiada, que ganha muito e trabalha pouco.

São, claramente, comentários e críticas de quem nada sabe sobre a rotina e o desgaste dos professores. De quem desconhece a práxis estranguladora de um professor que concentra em si um rosário infindável de funções e tarefas, trabalhando de dia e de noite, a lecionar turmas numerosas, a elaborar planos de aula, planos de recuperação de alunos e de registos regulares de evolução, a elaborar materiais pedagógicos, projetos de turma, testes de diagnóstico, informação para encarregados de educação, relatórios de tutorias, de projetos, clubes, aulas de apoio, reuniões e elaboração das respetivas atas com encarregados de educação, conselhos de turma, de diretores de turma, de departamento, conselhos pedagógicos… e por aí adiante.

E que dizer de um professor a ter ainda de gerir a terrível realidade de alunos que levam para a escola toda a espécie de dramas, uns mal nutridos, outros violentos, a Polícia a ser chamada a todo o momento, alunos que agridem a torto e a direito, mães que entram pela escola dentro e esbofeteiam professores…?

A escola é o berço da educação. Ver os professores a terem de vir para a praça pública gritar por dignidade é vergonhoso num país que se quer civilizado.

Por entre o coro de desmerecimentos, críticas e enxovalhos que comentadores com acesso privilegiado às televisões e aos jornais lançam contra os professores, lá se vai encontrando também, embora com alguma dificuldade, quem entenda a dura realidade que é o quotidiano docente. É o caso de Alexandre Parafita, hoje no JN.

Pois uma coisa é a argumentação no plano da falta de dinheiro, da sustentabilidade orçamental, do não dar agora para ter de retirar logo a seguir. Bem diferente é, com motivações de baixa política, orquestrar uma campanha indigna destinada a inferiorizar e denegrir uma classe profissional que é crucial para o desenvolvimento do país. Sem avaliar devidamente as consequências, não só para os visados, mas para o nosso futuro colectivo.

Não deveria ser difícil perceber que, com professores desmotivados e desmoralizados, dificilmente continuaremos na senda do sucesso educativo e da melhoria contínua de resultados dos nossos alunos, que tem sido destacada nos relatórios internacionais.

Nem é com uma carreira pouco ou nada atractiva que se atrairão os melhores profissionais que, num futuro próximo, terão de ser recrutados para a docência, à medida que a actual geração de professores se começar a aposentar em massa.

2 thoughts on “Mexer com a dignidade dos professores

  1. Mexer com a dignidade dos professores é algo que alguns professores fazem a si próprios, sem ajuda.

    Basta seguir alguns comentários na blogosfera docente.

    Esta necessidade infanto-pueril em se explicitar o voto de cada um, apelando ao voto nos partidos “pequenos” (?!), quaisquer que eles sejam.

    Porque sim. Porque é de protesto, ao que dizem.

    E, por falar em protesto(?!), o também recorrente apelo ao nulo e ao branco (nunca ao tinto, sei lá porquê).

    Entretanto, chovem sondagens todos os dias e os alinhamentos dos noticiários são por demais manipuladores e “biased”. Será que não conseguem ver?

    Manipuladora é ainda esta ideia que veio para ficar (não é só de agora) de que não se fala sobre a Europa.

    Uma enorme generalização falaciosa com intuitos óbvios e que colhe muitos apoios. Os comentadores começam sempre por esta ideia, talvez porque não tenham mais a comentar e/ou não o queiram fazer.

    Falemos pois de dignidade…….

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    • Há de facto muita reacção à flor da pele e pouco discernimento.
      Então essa do voto branco, nulo ou “nos pequenos” deixa-me perplexo. Ando para escrever sobre isso mas nem sei por onde começar…

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