A desvalorização do canudo

canudos.jpgEntre 2006 e 2016, o impacto no salário de ter uma licenciatura sofreu uma queda abrupta, de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Portugal foi o país em que a importância de um grau académico no salário mais diminuiu, na União Europeia.

De acordo com o relatório da OCDE divulgado esta sexta-feira, o prémio salarial de quem concluiu uma licenciatura face a um jovem com o ensino secundário caiu 22,8 pontos percentuais, a maior entre os 32 países que constituem a OCDE, de acordo com o relatório Outlook Employment 2019.

Os trabalhadores com formação superior ganham mais do que os que têm apenas o básico ou o secundário; logo, quantos mais licenciados, mestres e doutores formarmos, melhor será o nível de vida das futuras gerações: eis um raciocínio que, por demasiado simplista, nunca me convenceu.

Ganhar mais porque se tem melhores habilitações académicas nem sempre é um dado adquirido. Só funciona enquanto a criação de empregos especializados ocorre a um ritmo igual ou superior ao aumento das qualificações académicas da população activa.

Não faz sentido olhar para um passado recente em que apenas uma pequena minoria da população tinha acesso aos estudos superiores e querer projectar a realidade salarial desses tempos numa época em que o acesso à universidade se massificou. Mas, para aqueles que só crêem nas evidências quando elas são reconhecidas pelos especialistas, aí está o relatório com selo de qualidade OCDE para o confirmar.

Como é evidente, um veterinário a trabalhar numa loja de animais ou um licenciado em Direito a servir à mesa ganham o salário correspondente, não ao curso que têm, mas à profissão que exercem. Da mesma forma que um técnico especializado, sem formação superior, mas competente no trabalho que faz, poderá conseguir rendimentos muito superiores aos de pessoas com estudos universitários.

Em Portugal, este fenómeno tem sido duplamente acentuado: quer pelo impacto da prolongada estagnação económica no aumento do desemprego, quer devido à estrutura do nosso mercado laboral, onde o sector dos serviços pouco diferenciados e mal pagos continua a ter um peso excessivo.

Ora isto não se compagina com um sistema educativo onde se instituiu o 12.º ano como escolaridade mínima obrigatória e se continuam a traçar metas cada vez mais ambiciosas em relação ao acesso à formação superior. 

A verdade é que, com todos os seus defeitos e problemas, o sistema educativo tem-se desenvolvido mais do que a economia, que não aproveita devidamente o potencial humano gerado nas escolas e universidades. Em consequência, muitas pessoas acabam a realizar tarefas para as quais têm excesso de habilitações. Não sendo, dessa forma, devidamente valorizadas, nem do ponto de vista salarial nem das suas expectativas profissionais.

Para quem não se conforma com esta situação, a alternativa tem sido, como sabemos, a emigração. Mas esta, se a prazo até pode ser individualmente compensadora, revela-se ruinosa para o país: estamos a investir na formação de profissionais que não aproveitamos e de cujas competências outros países irão beneficiar a custo zero.

2 thoughts on “A desvalorização do canudo

  1. Lembram-se da longínqua “geração mil euros”, que foi motivo para descontentamento no seio daqueles que investiram na formação superior?
    Estamos hoje na “geração 600 euros a recibo verde” chamam-lhes também “millennials”… O capitalismo progrediu convencendo os cépticos de que era o único sistema que garantiria a melhoria progressiva das condições de vida de geração em geração, tornou-se selvagem e, por ventura, incontrolável.
    Quando a educação se tornou ela própria num negócio, com exigência de resultados de tipo empresarial, ao invés de um serviço exigente, meritocrático e sério, os mais avisados alertaram para as consequências, mas logo foram apelidados de corporativistas. Os capitalistas não são corporativistas?

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  2. Não sei por onde começar, mas vou sinalizar alguns pontos tentando escapar a ideias muito assertivas que não tenho:

    – fala-se muito do ensino básico e secundário – nos perfis, aprendizagens essenciais e flexibilidades; No entanto, a nível do ensino superior, gostava de saber mais sobre o que se passa, ou seja, o que é que se pode concluir sobre a concretização do processo de Bolonha no ensino superior? Contribuiu esta modificação para um ensino menos teórico do qual já se queixavam os jovens universitários da minha geração?

    – falando com jovens licenciados a fazerem estágios profissionais em empresas portuguesas, vou sabendo que, em muitos casos, esperam deles algo de muito diferente do que o curso superior lhes ensinou, não lhes dando orientações sérias sobre o que têm a fazer e apostando nas suas capacidades com vista à integração futura nas empresas. Ganham 700 euros e é esperado que façam com competência quase que por geração espontânea o trabalho de um profissional experiente, ao qual teriam de pagar muito, mas muito mais.

    E as perguntas surgem:” Mas vocês não aprenderam isto nas universidades?”

    E eu fico a pensar….mas que raio, será um problema mesmo do ensino superior que não se tem vindo a adaptar? Serão as empresas portuguesas que não sabem aproveitar o potencial humano criado pelas escolas e universidades?

    Não tenho certezas.
    A única certeza que tenho é que muitos destes jovens emigram, são apoiados, desenvolvem aí as capacidades e não voltam tão cedo.
    E isto não é lá muito razoável sabendo nós que precisamos de um desenvolvimento económico que não passe só pelo investimento no sector dos serviços pouco diferenciados e mal pagos.

    Confuso?
    É como me sinto.

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