Da falta de noção

a-rolo-duarteDiscutiu-se, no último Prós e Prós, a herança da Revolução de Abril. Frente a frente, estiveram os revolucionários já idosos e representantes da nova geração. E se a liberdade, que deu o mote à discussão, é hoje um valor consensual, o mesmo não se pode dizer da forma como ela foi sentida pelas gerações que viveram a revolução – uma conquista colectiva – e como é vivida pelos mais novos, que a olham como um dado adquirido e, acima de tudo, como um meio para a concretização do seu sucesso individual.

A determinada altura, o debate focou-se na Educação. E um dos jovens participantes, António Rolo Duarte, puxando dos seus pergaminhos de estudante da Universidade de Cambridge, criticou a fraca qualidade das universidades portuguesas. As afirmações polémicas mereceram discussão nas redes sociais e entretanto, tentando explicar melhor as suas ideias, Rolo Duarte saiu-se com esta:

“Regra geral, a qualidade de ensino e baixa. Passa pela cabeça de alguém ir aprender para a Universidade de Évora? Ou para a da Beira Interior? Ou para a do Algarve? Não brinquem comigo. Em Inglaterra, pelo contrário, encontramos dezenas de universidades fabulosas pelo País inteiro. Eu estudo em Cambridge. Mas qualquer jovem que estude em Southampton, em Exeter, em Cardiff, em Aberdeen terá uma educação espetacular. O mesmo não se passa em Portugal”, defende. 

Claro que não é preciso ir muito longe para rebater estes pseudo-argumentos. Basta recordar que o sistema educativo inglês é dos mais elitistas da Europa e que as excelentes universidades inglesas não se mostram capazes sequer de formar profissionais, na quantidade e qualidade necessárias, para diversas áreas. Por exemplo, milhares de médicos e enfermeiros habilitados pelo ensino superior português trabalham actualmente no Reino Unido, havendo mesmo hospitais que, se tivessem de dispensar os profissionais de saúde estrangeiros que têm ao seu serviço, fechariam as portas no mesmo instante.

Focado em si mesmo e nos seus êxitos pessoais – foi viver sozinho para o estrangeiro aos 16 anos, acabou o secundário como o melhor aluno da sua escola, apesar de trabalhar em part-time, conseguiu uma bolsa para entrar em Cambridge e sonha certamente com uma auspiciosa carreira académica e profissional à medida das suas enormes capacidades e ambições – percebe-se que há, no discurso deste jovem, alguma falta de noção. O que, paradoxalmente, no mundo dos nossos dias, estará longe de ser um defeito.

E até nisto os cientistas da educação andam desfasados. Querem agora convencer-nos da importância de desenvolver o pensamento reflexivo e crítico nas novas gerações. Mas o que o neoliberalismo financeiro, globalizado e competitivo valoriza é esta gente sem noção, rápida a sentenciar sobre o que desconhece, a dar ordens sem reflectir e a conseguir que os outros vão atrás deles. Como explica, nas redes sociais, o sempre sarcástico e acutilante Jovem Conservador de Direita

Muita gente tem acusado este jovem de ser um privilegiado sem noção, por ter tido oportunidades que poucos jovens da mesma idade tiveram ou por falar sobre assuntos que desconhece. Como se isso fosse negativo. O que importa é que ele tem sucesso e não é suposto as pessoas de sucesso terem noção. Ter noção é horrível. Porque força as pessoas a terem vergonha do seu sucesso. E se uma pessoa não se pode ir vangloriar para o prós e contras do seu sucesso, de que lhe serve ter trabalhado tanto para atingir o que atingiu?

Na Goldman Sachs existe um programa de formação de quadros para nos ensinar a perder a noção. Temos de estimular o nosso efeito Dunning-Kruger. Para quem não conhece, o efeito Dunning-Kruger é um fenómeno pelo qual pessoas que, apesar de saberem pouco sobre um assunto, têm muita confiança nas suas capacidades e tomam decisões em função da confiança e não do conhecimento. Esta confiança é imprescindível para que sejamos competentes na área financeira, porque se duvidarmos dos nossos instintos ou perdermos demasiado tempo a analisar informação não somos tão produtivos. É por isso que a falta de noção é incentivada, para que sejamos confiantes e não duvidemos de que somos os melhores, mesmo que não sejamos. Nunca um estudante da Universidade de Évora seria convidado para o Prós e Contras, porque tem a noção típica das pessoas que têm pouco sucesso e sabe que não iria acrescentar nada ao debate. É essa a vantagem de Cambridge: ensinou o jovem a perder a noção e a ir a um programa de debate mesmo não tendo nada para dizer.

4 thoughts on “Da falta de noção

  1. Este rapaz pode ter saído de casa aos 16 anos , mas não tem vida nenhuma . É um rapaz imaturo e mimado , ainda com o egocentrismo próprio de uma adolescência que tarda em partir , para dar lugar a uma maior capacidade reflexiva , a uma descentracao do eu , a uma visão de perspectiva sobre os problemas. Parece – me também estar deslumbrado por um ” estrangeirismo ” de que falava o Eça , muito característico de um certo “novoriquismo” . Porém, não merece que se lhe dê mais importância do que aquela que complacentemente dispensamos a miúdos tontos .

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  2. .
    António Rolo Duarte tem toda a razão no que disse. Eu iria mais longe e afirmaria que o ensino em Portugal está ao nível do 3º Mundo.

    Não!… Não é só a mediocridade das Universidades em Portugal, é também o das escolas básicas e secundárias públicas. São na sua esmagadora maioria uma choldra.

    Em Portugal não se promove o mérito, o trabalho, o esforço, o empenhamento, o sucesso….

    Em Portugal forja-se artificialmente sucesso no sistema de ensino e os resultados são bem visíveis. É uma Vergonha. Um nojo, com tendência para piorar.
    .

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    • Não é exactamente essa a nossa realidade, embora haja quem trabalhe activamente nesse sentido: um ensino facilitista para entreter a malta até aos 18 anos, com algumas escolas e universidades de qualidade de permeio para formar a “elite” dos gestores, médicos, informáticos e mais umas quantas profissões em alta. Para o resto, destinado aos serviços de baixo valor acrescentado na hotelaria e no comércio, qualquer coisa serve.

      Mas a verdade é que, com todos os seus defeitos, o ensino português continua muitos pontos acima da economia: a prova evidente são os muitos milhares de jovens qualificados que continuam a emigrar porque o país não lhes consegue proporcionar trabalho à altura das suas habilitações. E que são, sem dificuldades, reconhecidos internacionalmente.

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