A perversidade dos rankings

futebol-infantil.jpgFinanciamentos públicos para escolas privadas, cheque-ensino, rankings de escolas, segregação e segmentação dos públicos escolares: o programa educativo das direitas ataca em força na vizinha Espanha, tendo em conta o próximo embate eleitoral num país que, politicamente, se encontra profundamente dividido.

Mas há também vozes de colegas nossos que contestam uma instrumentalização da educação ao serviço dos lucros privados e do aprofundamento das desigualdades. E que pedagogicamente, numa linguagem clara e acessível, explicam as consequências destas políticas. É o caso desta inspirada sequência de tweets de @CarlosGaMart, que traduzi e adaptei.

Imaginemos que um município organiza uma série de competições desportivas por bairros para os jovens da cidade. O distrito vencedor receberá uma dotação económica que deve ser investida em serviços para seus habitantes.

O bairro A, deprimido e trabalhador, contrata técnicos especializados em educação física para treinar a equipa concorrente. O bairro B, de pessoas sócio-economicamente bem acomodadas, faz o mesmo.

Os treinadores da equipa A têm problemas desde o início: por causa da falta de instalações desportivas no bairro, os jovens não têm hábitos saudáveis. Há que motivá-los, fazê-los entender que, ao contrário do que parece, a prática e o esforço lhes trarão muitos benefícios. A estes miúdos custa-lhes ter uma certa perspectiva: elas não vêem além do imediato.

As infraestruturas desportivas do bairro A, como dizia, são precárias. É preciso partilhar o material de treino, as pistas, etc. Nem sempre é possível substituir o que se estraga e, com frequência, muitos miúdos faltam às sessões programadas. Eles estão habituados a outro tipo de lazer: àquele que proporciona satisfação imediata. Contudo, apesar das muitas pedras que vão surgindo pelo caminho, a equipa prepara-se apresenta-se em competição.

No bairro B, as coisas foram diferentes. Acostumados a praticar desporto desde sempre, os seus jovens começam com uma disposição natural favorável: são disciplinados, pontuais, entendem os benefícios da actividade física face a outro tipo de hábitos desaconselháveis ​​e têm boas infraestruturas à sua disposição. Pois bem, a competição é realizada e, como era de esperar, a equipa B vence todas as provas. Os resultados do evento são publicados. Nos jornais locais, os cidadãos lêem, sem mais delongas, a classificação.

Tempos e posições, isso é tudo. Conclusões precipitadas: a equipa A foi a pior. Talvez não tenham treinado o suficiente ou simplesmente sejam fisicamente incapazes. Não se empenharam com a seriedade que o evento exigia.

Obviamente, um forasteiro que chegasse à cidade, à vista dos resultados, escolheria o bairro B para criar os seus filhos. A partida foi justa: ambos competiram em igualdade de condições, o juiz foi imparcial e as condições das provas foram as mesmas.

No entanto, quem realmente ganhou? O que queremos dizer com ganhar? É correcto estabelecer uma classificação como a publicada nos jornais? O que pensarão os atletas que, partindo de uma condição física e mental muito inferior, foram capazes de competir com dignidade?

Não nos esqueçamos que o prémio é recebido pelo bairro B. Apesar de já ter umas boas infraestruturas desportivas, esse dinheiro servirá para melhorá-las ainda mais. Uma pescadinha de rabo na boca.

Se substituirmos “bairro” por “escola” e “desporto” por “desempenho académico”, talvez possamos compreender a perversidade que é estabelecer e publicar rankings de escolas. Para alguns partidos, é uma medida emblemática nestas próximas eleições.

Fico estupefacto. Se algo está claro para mim, é que o que está acontecendo com a educação neste país recairá sobre todos nós, em toda a sociedade. Como um plástico no mar que acaba por se integrar na cadeia trófica.

Quando chegar a hora de pedir responsabilidades, muito receio que os olhares se dirijam, como sempre, para os treinadores.

3 thoughts on “A perversidade dos rankings

  1. Esperemos que a publicação de rankings leve a população do bairro A a tomar consciência da realidade e começar a exigir a si propria, à sua descendência e ao governo, medidas que corrijam a situação. Não me parece que o não estabelecimento e a não publicaçãode rankings traga alguma coisa de bom, apenas mais opacidade. Quanto ao aproveitamento politico, com o fim de abocanhar recursos para negócios privados, aí, cabe a todos os intervenientes denunciar a situação.

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    • Em teoria, mais e melhor informação é a base de melhores políticas e de melhores escolhas por parte dos cidadãos.

      Na prática, nem sempre funciona assim. No caso dos rankings, o que se tem constatado, em Portugal e noutros países, é que em vez do esperado nivelamento – os “maus” copiariam o exemplo dos “bons” e a competitividade entre escolas faria com que todas melhorassem – o que temos é um aumento das desigualdades e a acentuação dos guetos educativos e da segmentação de públicos escolares.

      Parece que a informação só por si não é suficiente – é necessário intervir em força, e em várias frentes para que, gradualmente, as coisas mudem.

      Contudo, também não sou defensor de que se esconda informação pública ou se promova a opacidade do sistema educativo. Julgo que seria possível encontrar, como alguns países tentam fazer, um meio termo: divulgar informação concreta sobre o desempenho das escolas, que lhes permita identificar êxitos e fracassos da sua acção educativa, mas sem a perversidade dos rankings – a de comparar o que não é comparável…

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  2. Sou contra a publicação de rankings das escolas.

    Deviam servir apenas (e já não é pouco) para análise e para se delinearem estratégias de actuação.

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