Um sindicato-bebé para os professores?

bebe-chefe.jpgAprecio e acompanho, há mais de uma década, a intervenção regular de Paulo Guinote na blogosfera e nos media. Subscrevo muitas das suas análises e observações sobre educação e os professores. Mas discordo quase sempre das opiniões do Paulo em matéria político-sindical…

“Sindicatos-bebé” ou “sindicatos-surpresa” desalinhados dos grandes entendimentos do regime. Já repararam a velocidade com que fazem doer e provocam reacções rápidas sem necessitarem de plataformas que ocupam a largura de uma avenida para conseguirem ficar todos na foto com o cartaz? Alguém está a ver prolongarem as coisas por anos e anos ou todo um mandato? […]

Antes de mais, parece-me que há aqui um equívoco de base: a capacidade de “fazer doer” tem a ver, acima de tudo, com a natureza de determinadas profissões: abastecimento de combustíveis, serviços de saúde ou actividade portuária são exemplos de sectores onde bastam poucos dias de paralisação para que o caos se instale e se propague a toda a actividade económica e vida social. Isto não é replicável em sectores como a Educação, onde os prejuízos, ainda que graves, não são visíveis ou sentidos de forma aguda e premente no imediato.

Outro equívoco reside em esquecer que quem faz as greves são os trabalhadores. É necessário que pelo menos um sindicato a convoque, mas a partir daí o sucesso ou o fracasso de qualquer greve depende da adesão que venha a ter. Claro que no inconsciente de muitos professores poderá pairar um mundo imaginário onde uns quantos sindicalistas definem uns objectivos da classe, “vão lá” falar com os do governo, se for preciso dão “uns murros na mesa” e regressam com as conquistas com que todos anseiam. Ora isto não existe. Nada se recebe de mão beijada, a luta sindical é uma luta colectiva e os sindicatos são tanto mais fortes quanto maior for a força que lhes for conferida por aqueles que representam.

Com isto não pretendo negar a importância da iniciativa e da acção sindical. Nem sugerir que os trabalhadores não devam ser exigentes com os seus representantes. A verdade é que os sindicatos não são todos iguais, nem valem todos o mesmo. Os melhores são, geralmente, aqueles que conseguem conjugar duas coisas: representar a classe e não apenas quem os dirige – isso vê-se, desde logo, pelo número de associados – e serem capazes de interpretar correctamente a vontade e o sentir colectivo dos representados – propondo e mobilizando para as acções de luta que se identificam como importantes e necessárias.

No caso dos professores, nas primeiras duas décadas de democracia surgiram sindicatos para todos os gostos, alguns com óbvio alinhamento político, uns à esquerda e outros à direita, outros ainda tendencialmente independentes. Esta multiplicação foi activamente promovida por sucessivos governos, que queriam limitar a força crescente da Fenprof recorrendo à táctica antiga mas sempre eficaz de dividir para reinar.

Mais recentemente, o STOP pretendeu lançar uma lufada de ar fresco sobre um sindicalismo que muitos professores sentem estar demasiado burocratizado e acomodado. Mas mesmo este novo sindicato parece estar com dificuldade em afirmar-se no contexto do sindicalismo docente. Pelo que há sempre uma suspeita incómoda a que não se pode fugir: é mesmo de sindicatos novos, ou profundamente renovados, de que temos falta? Ou o problema está na forma como a maioria dos professores, descrentes, desgastados e desiludidos, olham para as lutas sindicais? Será que queremos sindicalistas com mais “garra” porque ela nos vai já, justamente, faltando?…

Voltando ao trecho inicial, se de “velocidade” já falámos, quando ao “fazer doer” das lutas laborais ele passa por, convencidos da justeza e da oportunidade da luta, sermos capazes de avançar sem medo. Mais do que tentar comparações forçadas e falaciosas, essa é a grande lição que os professores podem retirar das greves de outros trabalhadores, aparentemente mais bem sucedidas. Se encetamos uma acção dura, temos de estar preparados para uma reacção à altura. Se perante a primeira ameaça, que até pode provir de uma “nota informativa” não assinada, recuamos temerosos e divididos, como podemos comparar a nossa luta com a de grupos profissionais que, conscientes dos seus direitos e da sua razão, persistem sem medo?

Será mesmo um “sindicato-bebé” do que necessitamos para desequilibrar a balança e obter vitórias sem esforço, de um modo quase automático, ou algo terá de mudar, na postura e na determinação dos professores, para conseguirem alcançar os seus objectivos?

Não pretendo branquear as responsabilidades dos sindicatos de professores e de alguns dirigentes que se eternizam nos cargos, dificultando a necessária renovação. Há um afastamento progressivo entre a classe e as organizações que a representam, bem visível até na diminuição do número de associados de praticamente todos os sindicatos. Mas não nos iludamos: defender os direitos de uma classe profissional e organizar a luta colectiva em torno das suas aspirações é algo que só pode ser feito através das organizações sindicais. Quanto mais débeis estas forem, mais desprotegidos estarão também os trabalhadores. Entre os professores, desiludam-se os que pensam que o caminho para a emancipação da classe é deitar abaixo os sindicatos que temos. E que do caos surgirá o novo, imaculado e puro sindicalismo docente do século XXI.

8 thoughts on “Um sindicato-bebé para os professores?

  1. Saudando a sua coerência e linha de pensamento, que pelos vistos, continua igual e inamovível, aconteça o que acontecer, devo voltar a insistir que é muitíssimo complicado, para não dizer impossível, um “amador” arredar da primeira linha um PROFISSIONAL (sem aspas e em maiúsculas para se perceber bem) da luta. Poderia explicar facilmente porquê e com todo o detalhe, mas fico-me só por dois pontinhos pequeninos: Estatutos blindados e falta de limitação de mandatos (se houvesse assim tanta vontade dos profissionais verem emergir os amadores, bastava começarem por aqui!) Para rematar: se fosse possível, realmente possível, talvez o André Pestana, que tudo fez por dentro e nunca deixou de dizer presente, ao longo de tantos anos, não tivesse que ir fundar um sindicato com outros “amadores”. E o exemplo do André é só um exemplo, há certamente mais. O problema é que mesmo assim, esse sindicato após ter reunido uma vez com o MEC, não mais foi aceite à mesa das negociações. Porque será? A quem é que interessa não dar voz e peso negociar aos sindicatos desalinhados? Mesmo que esse sindicato anuncie publicamente que ainda tem poucos sócios (sendo que deve ter mais, creio eu, e se estiver enganado, que publiquem os números de sócios pagantes e ativos, que alguns dos sindicatos da Plataforma) é um sindicato legalmente constituído. Sindicato que convocou uma greve às avaliações que os PROFISSIONAIS se apressaram a reputar de irresponsável e que tudo fizeram para ignorar, desvalorizar e torpedear. Mas tenhamos esperança, este ano em junho os profissionais vão rebentar com isto tudo! Ahhh valentes! Desta é que é!!!….

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    • Concordo com grande parte do que refere, a começar pela constatação de que muitos sindicalistas instalados não querem ceder lugares nem protagonismo a outros colegas. Acham que eles é que sabem, e quando é assim, restam as eleições – como acontecerá em breve no SPGL – para que a renovação dos dirigentes possa ser uma escolha – ou não – dos associados. A alternativa é abrir ao lado – como fizeram André Pestana e os seus companheiros, criando um novo sindicato.

      Acho tudo isto natural, legítimo e desejável, da mesma forma que condeno, sem reservas – e fi-lo na altura – a vergonhosa discriminação do STOP nas negociações aquando da greve às avaliações. Entendo que os professores precisam dos seus sindicatos – e, provavelmente, de melhores sindicatos. Mas isto é algo que só se consegue com maior envolvimento da classe nas suas organizações representativas, algo que, por cansaço, descrença, desconfiança, dificilmente veremos, pelo menos no curto prazo.

      E assim chegamos a uma constatação óbvia: quando os professores sentem que os seus sindicatos não servem para mais nada, usam-nos como bombo da festa, culpando-os de todas as derrotas, frustrações e inconseguimentos sofridos. Percebo esta atitude, mas terei sempre de perguntar: o que é que ganhamos com isto?…

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  2. Olhemos para a greve dos camionistas onde um pequeno e recente sindicato conseguiu colocar de joelhos o patronato e o governo. Parece que o exemplo do STOP está a ser replicado, e bem. Os dinossauros do sindicalismo que se ponham a pau. O sindicalismo burocratizado e dominado por partidos está em recessão por todo o lado. Os tempos mudam e os trabalhadores já estão a abrir a “Pestana”….

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    • Não sei se colocou realmente “de joelhos” e também não sabemos bem o que está por trás da acção do “pequeno sindicato”.

      Claro que é importante tudo o que possa representar uma renovação do sindicalismo, um tema que é seguido por aqui com especial atenção. Mas nem tudo o que luz é ouro…

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  3. A propósito – Informação para eleições para o quadriénio 2019/23 do SPGL, em 16 de maio de 2019:

    – Direção Central /MAG – listas A e S
    – Conselho Geral – listas A, S, C
    – Direção regional de Lisboa- listas A, S, C
    – Conselho Fiscal- Listas A, S, C

    Várias maneiras para se votar, incluindo envio por correio (neste caso, com antecedência de , pelo menos, 10 dias)

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  4. Ora aqui está um debate interessante, desta vez sem ironia.

    “Claro que é importante tudo o que possa representar uma renovação do sindicalismo, um tema que é seguido por aqui com especial atenção”

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