O que fazer para não “levar no focinho”

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Volto ao caso do professor agredido a soco e pontapé por um aluno de 12 anos para destacar alguns desenvolvimentos.

O director do agrupamento decidiu, bem, suspender preventivamente o aluno. Nem outra atitude seria de esperar quando se afirma que a escola em causa é “tranquila” e este foi um “caso isolado”. Perante casos de gravidade excepcional tomem-se, então, as medidas excepcionais previstas na lei.

Contudo, afastar temporariamente da escola o aluno agressor não é em si mesmo uma punição disciplinar, nem encerra o caso. Perante a gravidade do que se passou, e independentemente de todas as condicionantes que possam ter levado o aluno a agir como agiu, só há uma coisa a fazer. Não vale a pena estarmos com rodriguinhos burocráticos e judiciais: este aluno deixou de ter condições de frequentar aquela escola e de se cruzar com o professor que agrediu. Pelo que esteve bem o director ao responsabilizar desde já o Ministério da Educação pela transferência de escola deste aluno, que é a medida que se impõe e que só o ME pode decidir.

O diretor do agrupamento Garcia de Orta […] admite que a escola está de “mãos atadas” para expulsar ou transferir o aluno. “A direção vai ter de recorrer ao Ministério da Educação para que se encontre uma solução para este caso”, explicou Ernesto Pereira ao JN.

Entretanto, João André Costa, um colega nosso que trabalha em Inglaterra mas escreve regularmente na imprensa portuguesa, onde se tem vindo a assumir como um digno representante da “pedagogia do coitadinho”, veio já publicar o que, vaticinava eu anteontem, não demoraria a aparecer. Em post publicado no blogue DeAr Lindo, o João André, ele próprio vítima de agressão, aqui há uns tempos, tenta explicar ao colega do Porto o que deveria ter feito para evitar “levar no focinho”.

Percebe-se pelos comentários que alguns colegas tentaram ver ironia no texto publicado. Mas não, João André Costa não está a ser irónico. Ele fala a sério. E acha mesmo que se apanhamos dos alunos é porque alguma coisa fizemos que conduziu à agressão. Daqui a culpar o professor por não ter agido como deveria e a desculpabilizar o aluno, vítima também das suas circunstâncias, vai um passo muito curto que muitos dão sem hesitar…

Nunca, desde que o aluno entrou na sala aos pontapés à bola até ser entregue à Directora de Turma, nunca ninguém perguntou ao aluno o que se estava a passar. Aconteceu alguma coisa? Queres falar? Estou aqui para te ouvir. Não me ouves? Vou pedir ajuda, espera um pouco, já volto, estou aqui para ti. Queres jogar à bola? Vamos lá para fora, eu jogo à bola contigo, estou aqui para ti. Sou teu professor, mas também me preocupo contigo.

Nunca. Em vez disso, o castigo, a admoestação, o confronto, a falta de empatia, a agressão física. Não toquem num aluno, nunca toquem num aluno, quando tocamos num aluno, tudo pode acontecer. E aconteceu. Neste caso, aconteceu.

O trecho que transcrevi não resume por inteiro o texto publicado, que tenta enquadrar o caso na problemática mais vasta da integração escolar de menores em risco, fazendo algumas reflexões pertinentes. No entanto, parece-me que o colega olha mais para a realidade que conhece no país onde trabalha, esquecendo que em Portugal a actuação da maioria das CPCJ é pouco eficaz, há crianças em risco que ficam meses à espera de uma simples consulta psiquiátrica ou de uma intervenção da segurança social. E sobre o funcionamento dos tribunais de menores e a sensibilidade e as decisões de alguns juízes, nem valerá a pena falar…

No meio disto tudo, só as escolas assumem por inteiro a sua responsabilidade perante estes menores, recebendo-os diariamente e tentando dar-lhes tudo o que têm para lhes oferecer. Claro que para os professores este é quase sempre um trabalho sem rede, difícil e arriscado. Quando alguma coisa falha, há pouquíssima margem de manobra para controlar o que possa acontecer a seguir. Como é óbvio, a solução destes problemas não é capacitar super-professores para se transformarem em psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais ou mediadores culturais dos alunos problemáticos. Passa, se queremos uma escola inclusiva à qual estes alunos também pertencem, por integrar todas essas valências no ambiente escolar.

Entre as dezenas de reacções que o post de João André Costa suscitou, também se encontra a resposta do professor agredido. Por ela se percebe uma coisa muito simples de entender quando se é um professor no terreno: por vezes, e embora apliquemos toda a experiência, sensatez e profissionalismo de um professor, há situações que escapam mesmo ao nosso controle. Finalizo, então, com o testemunho de Aurélio Terra:

Como Professor que levou no focinho só espero que o texto de João André Costa seja um exercício de pura ironia, embora me pareça mal conseguido aqui e acolá. Se pelo contrário, de modo sério, quer insinuar inabilidade minha para lidar com aquela situação então gostaria que tivesses estado no meu lugar para que eu pudesse ver como é que devia ter agido. Acredito, prefiro assim, que está do meu lado e que manifestou essa solidariedade através daquele texto. Se é é assim o meu muito obrigado.
Apesar dos meus 63 anos, não sou um “velhinho” que se arrasta pela escola. Tinha capacidade física para resolver a situação de outra forma. Aí ninguém me valia e a minha carreira que conta já com 43 anos de serviço terminaria de forma inglória.
Que este episódio, do qual não avanço pormenores por estar entregue aos tribunais, sirva para todos nós Professores nos indignarmos com a insegurança com que desempenhamos a nossa missão com a melhor de todas as intenções. Obrigado a todos, os colegas que que se solidarizaram comigo.

9 thoughts on “O que fazer para não “levar no focinho”

  1. Alunos como este, e não são poucos, deveriam de imediato ir para casa até ao final do ano, única responsabilização séria e minimamente eficiente quer dos jovens quer dos pais.
    No ano seguinte poderia ser que regressassem com outra postura ( claro que alguns argumentarão para além do clássico direito à educação – que os próprios rejeitam até à violência – que, coitadinhos, viriam piores do que foram…para estes: ainda assim a análise custo- benefício seria altamente positiva pois os factos comprovam que permanecendo, continuam a fazer do mesmo, a prejudicam os direitos dos outros a aprender, a perturbar a estabilidade e segurança escolar e a canalizar os parcos recursos da escola que deixam de ir para quem precisa e quer!!!

    Todos temos direitos mas também temos deveres e quantas vezes o não cumprimento dos deveres impedem o exercício de direitos… Por que razões a escola não haverá de ensinar algo tão básico???

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  2. Não sei quem é que precisa de ser “sinalizado”, se o aluno em causa, se este “colega” , a braços com um ataque galopante de síndrome de Estocolmo; se não me engano, este é o tal que aconselha a não olhar nos olhos os alunos, para não os provocar – como se estivéssemos a lidar com os gorilas do Ruanda.
    Se é preocupante vermos cada vez mais miúdos com problemas de sociabilização, ainda mais preocupante é começarmos a ver adultos desorientados e a perder as referências, como é nítidamente o caso deste senhor.

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  3. Na tropa não há indisciplina porque existe prisão militar.
    Quando vocês eram crianças existia as 3 faltas a vermelho (chumbo) e existia a expulsão.
    Hoje o que existe é: NUNCA OLHES NOS OLHOS DE UM ALUNO, NAO O AFRONTES.

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  4. É lamentável a todos os níveis o desrespeito a que os professores estão sujeitos por alunos , pais e sociedade em geral. A coação e o bullying contra professores e funcionários são exercidos diariamente por alunos que frequentam a escola sem a mínima intenção de aprender o que quer que seja. Estão em percursos alternativos em que leccionar é um inferno; palavrão, ameaça verbal, muitas vezes gestual e dissimulada, tomam conta das aulas e o professor vai marcando faltas disciplinares sem que nada se altere, temendo todos os dias pela sua integridade psicológica e física, nestas aulas quase nada se aprende, mas o sucesso está garantido por lei, o professor é um bobo de pés e mãos atadas, os alunos não são tolos e sabem que têm os professores na mão…sabem que são impunes e que nada lhes acontece…vão para casa dois ou três dias e voltam, cada vez mais desafiadores.
    Depois vêm estes colegas líricos ajudar à festa, se o aluno agrediu, o professor é o culpado, porque deveria ter feito isto e aquilo, o aluno é uma vítima, dos pais, da sociedade e finalmente da escola, que tem a ousadia de lhe exigir um comportamento minimamente sociável. Esta é uma das principais razões que vai minando a escola pública, fazendo com que pais responsáveis confiem cada vez menos nela e escolham outras alternativas menos igualitárias, inclusivas e flexíveis, três belas palavras para encher a boca, papéis e documentos que hão de tornar os alunos todos iguais, bons e talentosos, mesmo que toda a gente saiba isso é uma utopia e que em nome dela muitos professores hão de continuar a levar no focinho.

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    • Maria Pereira

      Pergunta “ingénua” vinda de quem já está fora destas lides :

      e os directores das escolas – conhecendo bem os intoleráveis atropelos que se verificam dentro dos muros à sua guarda – não pressionam a tutela para, pelo menos , procurar reduzir ao máximo a selvajaria? Devolvendo mais autoridade à escola e ao professor, revendo o protector “estatuto do aluno” , sinónimo (quase) de impunidade, sei lá que mais .
      Se o energúmeno não quer aprender ainda vá -que- não- vá . Agora, danosa e acintosamente impedir que os outros o façam , atentar contra a dignidade do professor, desafiar as regras e a lei ( quase diria o Estado de Direito) – tudo isto na quase completa impunidade – não é da nossa cultura ou civilização.
      Quem o permite não passa de um quase criminoso, perdoem-me.

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      • Neste caso apenas acrescentaria que os criminosos estão confortavelmente sentados e sustentados nas cadeiras dos gabinetes ministeriais, nos governos e no parlamento… As leis, regulamentos e procedimentos é por aí que passam…e desengane-se quem ainda acreditar que o objectivo é o bem estar e a a coesão social!

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  5. .
    O gajo que escreveu o “Texto do coitadinho do aluno” – o João André Costa – é um PARVALHÃO para não lhe chamar um reles Panascão e/ou Comuna.

    Que fique lá na Inglaterra a limpar o cu aos meninos ingleses.

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