O sucesso das escolas militares

Escola-Militar-Tiradentes-16.jpgAs escolas militares não são propriamente uma novidade no Brasil. O modelo, decalcado dos tradicionais colégios militares, enfatiza a ordem e a disciplina na organização escolar e tem sido adoptado por diversas escolas públicas colocadas sob a tutela da Polícia Militar. E parece destinado a desenvolver-se nos próximos tempos, depois de o presidente Bolsonaro ter manifestado a intenção de apostar neste modelo de ensino.

Contudo, a atenção mediática também se justifica pela a crescente procura que estas escolas estão a ter por parte dos alunos e das famílias e até mesmo dos professores, que parecem atraídos por uma ideia tão simples quanto eficaz: numa escola onde há regras disciplinares rigorosas, só têm lugar os que querem aprender. E sem indisciplina as aulas rendem muito mais. Uma realidade que os resultados dos exames parecem confirmar.

Exemplo de disciplina e bons resultados quando se fala em instituições públicas de ensino, as escolas militares de Mato Grosso têm sido palco de disputas por vagas não apenas entre alunos do ensino fundamental. Profissionais da educação também têm preferido trabalhar nessas unidades e, quase sempre, a oferta é superior às necessidades da instituição.

A diretora da Escola Militar Tiradentes de Cuiabá, major da Polícia Militar Evandra Caroline Taques Senderski afirma que, neste ano, recebeu seis candidatos a professor só para a disciplina de língua portuguesa. O dobro do necessário. Para o setor de apoio às atividades escolares – o que inclui merendeiros, vigias e zeladores – a procura foi ainda maior: nove servidores públicos disputaram duas vagas.

Professora de História, Filosofia e Sociologia na Tiradentes de Cuiabá, Wadia Apaula confirma: “agora mesmo acabei de receber um pedido de uma pessoa, um professor que queria muito vir para cá”, disse, logo no início da conversa com a reportagem do LIVRE. E o motivo, segundo ela, é simples: “aqui a gente consegue trabalhar”.

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Há 20 anos trabalhando na Escola Tiradentes de Cuiabá, a professora Wadia Apaula afirma que já lecionou em escolas públicas “civis” e que a própria postura dos alunos das unidades de ensino militar – e até a dos pais deles – é diferente. “O aluno tem que fazer. Se não tem retorno, a gente chama o pai, chama a mãe e eles têm que vir. A parceria funciona melhor, da escola com a família. Quando o pai coloca o filho aqui, ele já sabe disso”, afirma.

Sobre como as coisas funcionam, Wadia explica que militares e professores fazem um trabalho em conjunto e sem interferências nas questões que não lhe dizem respeito. Enquanto a parte pedagógica – o que vai ser ensinado aos alunos – é definido pelos profissionais da educação, a organização do espaço e oferta de condições de trabalho fica a cargo dos militares.

Mas esta é apenas uma parte da realidade. Na prática, as escolas militares seleccionam os seus alunos, e quantos mais houver à espera de vaga, mais podem escolher. No limite, podem igualmente expulsar aqueles que não se adaptarem às suas regras. Neste aspecto, não se distinguem muito dos colégios privados que servem os alunos oriundos de meios mais favorecidos. E quando assim é, já se sabe, temos meio caminho andado para a melhoria dos resultados e o sucesso do projecto educativo.

Contudo, se melhorar as aprendizagens e os resultados escolares de alunos motivados para estudar e aprender pode ser um bom ponto de partida, está longe de ser o suficiente para um sistema educativo que continua a comparar desfavoravelmente com o de outros países com níveis semelhantes de desenvolvimento. Quando se seleccionam alunos, não é difícil apresentar resultados. Pelo que o grande desafio, num país com as gigantescas assimetrias sociais do Brasil passa, isso sim, por construir uma escola pública de qualidade que possa servir a todos.

Wadia afirma que quem quer trabalhar ou estudar em uma Escola Tiradentes precisa entender que existem regras, uma hierarquia e situações que precisam ser respeitadas. “O professor chega em sala e o aluno sabe como receber. Nas outras escolas a gente não tem isso”, exemplifica, garantindo, contudo, que trata-se de uma escola como outra qualquer e que há liberdade pedagógica aos educadores.

Para Valdeir, o fato de haver policiais dentro da escola não é a razão pela qual há mais disciplina nas unidades de ensino militares. “Se isso fizesse diferença, as bases militares nos bairros com altos índices de criminalidade deveriam zerar esses índices. Se só o fato de ter uma presença militar significasse segurança, nós teríamos uma sociedade perfeita”, avalia.

Para o presidente do Sintep, o que separa as escolas militares das demais escolas estaduais é a seleção dos alunos. Segundo ele, além de ali estarem apenas os melhores, há um interesse em comum pelo aprendizado e isso reduz os conflitos.

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