Entrar na universidade pela porta do cavalo?

porta-traseira.JPGAlunos do profissional vão poder entrar na universidade sem exames

Em vez de terem de fazer exames nacionais como provas de ingresso – que acabam por ser um dos maiores obstáculos por se realizarem, por vezes, em disciplinas que não tiveram – os estudantes apenas terão de cumprir os critérios definidos por cada instituição.

A novidade, adiantada pelo ministro do Ensino Superior, ainda está a ser discutida no seio do Conselho Coordenador do Ensino Superior (CCES). Mas há dois princípios já estabelecidos, diz Manuel Heitor. Em primeiro lugar, esta via de acesso destinada a alunos do profissional será realizada no âmbito dos chamados concursos locais, que são específicos para cada instituição, ao invés do concurso nacional de acesso. E poderão ser realizados tanto pelos politécnicos como pelas universidades, acrescenta. No fundo, trata-se de um regime semelhante ao que já é aplicado para o ingresso de estudantes internacionais ou para os maiores de 23 anos.

A definição deste novo regime deve estar concluída até final de abril. A ideia é alargar a base de acesso ao ensino superior. Sendo que a margem maior de aumento se encontra precisamente entre os jovens que frequentam o ensino profissional.

Ao contrário das reformas eduquesas do básico e do secundário, que vão fazendo ao sabor dos ventos que sopram da OCDE, as mexidas no ensino superior prosseguem objectivos bem definidos, em conjugação com os interesses das instituições e dos que lá trabalham. Entre eles, há um que o declínio demográfico das últimas décadas colocou no topo das prioridades: aumentar a frequência do ensino superior. O que, havendo cada vez menos jovens, só se consegue facilitando o ingresso de uma maior percentagem dos jovens que anualmente concluem o secundário.

A avaliar pelo que agora se anuncia, o novo regime que se encontra em estudo, podendo envolver algum facilitismo, não me escandaliza. Há muito que defendo que deveriam ser as universidades e os politécnicos a seleccionar os seus alunos, em vez de transferirem esse pesado encargo para os professores do secundário. E deve reconhecer-se que é injusto e discriminatório exigir aos alunos dos cursos profissionais a realização de exames  a disciplinas que não tiveram, ou feitos com base em programas diferentes dos que seguiram nos seus estudos.

Acrescente-se ainda mais isto: da forma como é apresentada, esta nova modalidade de acesso não irá concorrer directamente com o concurso nacional. Não seduzirá, certamente, as universidades mais procuradas, nem se aplicará aos cursos com média de entrada mais elevada, que todos os anos deixam alunos de fora. Será sobretudo uma forma de preencher vagas que não serão ocupadas nas sucessivas fases do concurso e que de outra forma acabariam por ficar desertas.

Resta a questão de determinar se os alunos que ingressarem por esta via estarão efectivamente preparados para as exigências do ensino superior. Hão-de estar, presumem governantes, reitores universitários e presidentes dos politécnicos. A verdade é que, quando se procuram alunos a todo o custo, a qualidade deixa de ser problema…

5 thoughts on “Entrar na universidade pela porta do cavalo?

  1. Não consigo comentar por falta de esclarecimentos.

    Assim sendo, gostaria apenas de aqui deixar algo que li para colocar em actas de reuniões de avaliação que ainda me espanta deveras não fosse dar-se o caso de não ligar muito a isto
    Leiam só:

    “alunos com medidas seletivas com adaptações curriculares não significativas ”

    e

    “alunos com medidas adicionais com adaptações curriculares significativas”

    (Parece aquela tautologia para crianças inglesas “the son of Pharaoh’s daughter was the daughter of Pharaoh’s son”)

    Aplique-se.

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  2. ALUNOS fAZEM EXAMES OUTROS NÃO?
    IGUALDADE? INCONSTITUCIONAL?
    OS PAIS DE ALUNOS DO ENSINO REGULAR QUE SE CUIDEM…
    Há alunos do Ensino Profissional que só querem dormir nas aulas, fumarem… utilizarem os telemóveis, etc.
    Os professores do Ensino Superior irão ver, agora, o que lhes espera (em termos de indisciplina).
    Deviam era terem, imediatamente, o Diploma e integrarem o Governo…
    Realmente…

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  3. Ó António, não o choca que os alunos de científicos possam ir fazer exame a História, porque decidiram ir para Direito?
    Mais: quando optaram pelo profissional, não sabiam o que os esperava em termos de percurso escolar?

    Eu vou ser muito claro: sou frontalmente contra deixar ao ensino superior a responsabilidade de selecionar os seus alunos. Desde logo, porque a cunha iria ser o critério número 1. E depois lá se ia a igualdade e o diabo. Por outro lado, quando acabarem com os exames nacionais, as CIF irão disparar por aí acima, passando as médias a todas as disciplinas para os 17 e 18 valores.

    No entanto, eu até concordo: em vez de gastar horas infinitas a corrigir testes de Português (cada teste demora um tempo absurdo a corrigir), passo a fazer umas coisas com 10 ou 15 perguntas de escolha múltipla e assim resolvo dois problemas: o sucesso dos alunos dispara e eu poupo um tempo indefinido com a sua correção.

    O meu vizinho, nos finais da década de 80, inscreveu-se na Católica e foi lá fazer os exames. É claro que, quando entrou na sala de provas, já os paizinhos tinham metido a respetiva cunha.

    Para terminar, andámos tanto tempo a lutar contra o país de doutores com canudo e agora voltamos a querer toda a gente doutora e com canudo. Então o ensino profissional não era uma via alternativa e não sei o quê?

    País de tolos e tolas!

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    • Caro Sísifo, qual é o curso de Direito que exige obrigatoriamente o exame de História para ingresso? Tanto julgo saber, nenhum. Aliás, nem para o curso de História se exige o exame da disciplina. Como acontece aliás em muitos cursos de letras, que em regra pedem apenas o exame de Português, que todos os alunos têm.

      Isto demonstra duas coisas. Primeiro, que o declínio das humanidades já começou há muito. Segundo, que coexistem duas realidades muito distintas no sistema de acesso ao ensino superior: os cursos com muita procura, onde se exigem – e irão continuar a exigir – duas ou três provas de ingresso, além das médias elevadas. Estes cursos continuarão vedados aos alunos dos profissionais que não façam os exames, porque não sobrarão vagas para eles entrarem posteriormente. Depois há os cursos com reduzida procura, sobretudo nos politécnicos e nas universidades do interior. Aí o objectivo é que entre o maior número possível de estudantes, independentemente do seu perfil académico, motivação ou capacidades. E é aqui que a tentação para o “vale tudo” no acesso é muito poderosa.

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    • “É claro que, quando entrou na sala de provas, já os paizinhos tinham metido a respetiva cunha.” Para quê?, é uma universidade privada, desde que paguem…
      Aliás, têm de pagar para se inscreverem e esse dinheiro não é devolvido caso decidam depois ir para uma pública… (e é esta universidade que está isenta de impostos!!)

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