Uma Educação Sexual “mais interessante”

ed-sexual.jpgRenato tem 18 anos, está no ensino secundário e diz que durante todos os anos que já passou na escola só teve uma aula de educação sexual. “Foi com uma enfermeira”, especifica. É por estas e por outras que ele e outros colegas seus da Escola Secundária de Albufeira chegam a esta proposta após uma troca de opiniões na redacção do PÚBLICO: criar uma disciplina de Educação Sexual, com um estatuto igual ao das outras e com presença semanal no horário dos alunos.

Dizem que seria uma forma de se tentar pôr fim ao “faz-de-conta” que ainda muitas vezes marca a abordagem à sexualidade promovida pelas escolas, apesar de a educação sexual ser uma área obrigatória em todos os estabelecimentos escolares desde 2009. O médico de Psiquiatria da Infância e da Adolescência Rui Carvalho, 26 anos, aponta uma razão para que tal aconteça: “Temos uma tradição de punição e repressão da abordagem à sexualidade, que ainda tem grande peso, e que pode estar na base da opção de apresentar os tópicos que devem ser abordados de uma forma muito vaga”.

Apesar de ser parte integrante do currículo escolar há já uma década, a Educação Sexual continua a ser um tema polémico. Na maioria das escolas, os temas directa ou indirectamente relacionados com a sexualidade humana, incluindo a componente afectiva, têm geralmente uma abordagem multidisciplinar.

Ao contrário do que por vezes se defende, não me parece que exista a necessidade de uma disciplina própria para a abordagem destas matérias. Os currículos já são extensos e estão sobrecarregados de disciplinas. E a própria Educação Sexual, como sucede com muitas outras áreas relevantes para a formação integral dos alunos, ganha em ter uma abordagem integrada com outras matérias escolares.

Ainda outras boas razões para recusar o formato disciplinar. Desde logo, pode ser um pomo de discórdia entre a escola e as famílias mais conservadoras, que não gostam de ver a escola a imiscuir-se no que consideram ser um reduto da educação familiar. Mas mesmo sendo tratada na escola, não é raro os professores perceberem que não há uma receita única para a abordagem de determinadas temáticas. Mesmo entre alunos da mesma faixa etária, o conhecimento, as dúvidas, o interesse variam muito. Daí que as abordagens mais proveitosas a temas da sexualidade sejam muitas vezes as que partem das questões colocadas pelos alunos e não as que se fazem em cumprimento de um guião predeterminado.

O que eventualmente falha nas nossas escolas, e penso que é nesse ponto que afluem a maior parte das críticas, é a ausência ou o funcionamento muito limitado do Gabinete de Apoio ao Aluno previsto na lei. Na verdade, a abordagem “menos vaga e mais interessante” que alguns alunos reivindicam dificilmente pode ter lugar em contexto de sala de aula. Pois muitas vezes o que eles pretendem é colocar questões de cunho pessoal, expor dúvidas, anseios, vivências e obter um aconselhamento que nem sempre o professor estará em condições de proporcionar. Daí que seja fundamental a presença regular de profissionais de saúde nas escolas, uma realidade que nalguns lados tem dado excelentes resultados, mas que noutros locais esbarra com a incapacidade de resposta das unidades de saúde locais.

“Os alunos sentem-se mais à vontade para falar connosco do que com os professores e estes também muito frequentemente não se sentem bem a abordar estas temáticas da sexualidade com os seus estudantes e inconscientemente acabam por as enquadrar nas suas próprias ideias de como se deve pensar ou agir”, testemunha Rosa Franco, enfermeira, que há uma década trabalha na área da Saúde Escolar no Centro de Cuidados na Comunidade do Agrupamento de Centros de Saúde de Oeiras. Ela e outra colega sua “respondem” por cerca de dois mil alunos.

Rosa Franco defende que é, por isso, tão importante que os chamados Gabinetes de Informação ao Aluno, previstos na lei de 2009, estejam a funcionar nas escolas, para que os estudantes saibam que estão ali técnicos que os podem ouvir e ajudar: “A nossa função não é estarmos ali para criticar comportamentos, mas sim para apoiar os jovens que muitas vezes precisam de respostas rápidas para resolver situações complicadas em que se encontram”. Que podem passar por serem confrontados com uma gravidez ou por terem contraído infecções sexualmente transmissíveis. Neste tempo todo, tem tentado não falhar quando lhe perguntam: “E agora, Rosa?”. O problema, mais um, é que em muitas escolas estes gabinetes não estão em funcionamento ou se estão os alunos não sabem da sua existência, como se alertou numa outra avaliação feita à aplicação da Educação Sexual.

Anúncios

4 thoughts on “Uma Educação Sexual “mais interessante”

  1. Sou de opinião que qualquer forma de “Educação Sexual” nas escolas que não valorize e respeite, digamos, o direito natural e social dos pais a educarem os seus filhos é errada. Mesmo com os mais pintados dos “especialistas” – sejam professores, médicos, psicólogos, enfermeiros, etc.
    Ponham-se os “especialistas” a falar com os pais – talvez os “especialistas” recuem na sua disponibilidade para irem às escolas…

    Gostar

    • É complicado.

      Se há pais que educam exemplarmente os seus filhos, não faltam também, infelizmente, os casos de famílias negligentes.

      E também sabemos, de um passado recente, que os países que mais confiaram no “direito natural” dos pais a educarem sexualmente os filhos são também aqueles onde as gravidezes na adolescência atingiam tendencialmente números mais elevados.

      À escola compete aquele difícil equilíbrio de complementar a educação de casa, quando esta fez um bom trabalho, ou de a substituir, quando mostra fortes carências ou é quase inexistente.

      Gostar

  2. Ainda que não se inscreva na temática concreta do post adapto aqui o que também deixei no “comregras”

    Meus caros alunos:
    A propósito das histórias das sexualidades (mais ou menos interessante), cidadanias e afins – EU, professora, NÃO QUERO nada disso nas minhas “funções” para as quais não tenho as competências cientificas e técnicas e imparcialidade moral (e, que nunca quis ter pois não segui nunhuma desta áreas)
    Da mesma forma que não quero as cidadanias, as interculturalidades, as prevenções rodoviárias, dos comportamentos de risco, da violência doméstica, dos projectos, das …
    Não gosto de conversas de café, de conversas estéreis, de pontos de vista baseados nos comportamentos dos vizinhos do 6º andar ou de recortes de jornal, não gosto de tretas de conversas/projectos/trabalhos colaborativos que mais não passam de artigos retirados daqui, de acolá ou de outros sítio qualquer numa apresentação fantástica sem conteúdo e sem fundamentação científica, não gosto de trocas de opiniões e do “acho que”/ “penso que”/ “acredito que”/”ouvi ou vi que”… detesto perda de tempo que não permite chegar a lugar além do senso comum…

    Triste da escola que deixa de ENSINAR SABER E CONHECIMENTO para passar a ser o prolongamento da sociedade…mas convém-lhes…e, de que maneira… a eles a escola pública do séc. XX serviu-os bem mas já não pretendem que da mesma forma vos possa servir a vós, meus caros alunos,…, observem mais ou menos atentamente como se sucedem as famílias no poder e na decisão e as origens e percursos…

    Há muita gente que gosta especialmente destas coisas, na maioria dos casos que conheço são os que não gostam muito das aulas em que ensinariam as suas disciplinas,… – deem-lhas!!!
    Que sejam as pessoas adequadas???- às vezes serão, em muitos casos como se ensina o que não se pratica?
    Como se ensina cidadania, sem se conhecer a constituição? como se ensina cidadania sem se conhecer os mínimos dos direitos laborais? Como se ensina cidadania quando se é incapaz de formular um documento, fundamentá-lo e preferir ficar a dizer mal nas costas e sentado no sofá?
    Como se ensina Cidadania quando se é incapaz de se preocupar e fundamentar a desigualdade e a exclusão social? Como se ensina cidadania quando se utiliza a porta dos fundos para trepar mais depressa? Como se ensina cidadania quando se interessam mais pelo umbiguinho, pelo fato do ginásio, pelo cabeleireiro e unhas de gel ou pelas novas receitas para cozinhar e nada pelos acontecimentos diários, no país e no mundo?

    Como os políticos: a cidadania é, tão só, uma coisa de muitas palavras,…
    … a sua prática pelos cidadãos é perigosa!

    Eu quero ensinar aquilo em que me licenciei e que considerando, o ministério à época e há muito tempo, que para o ensino (ao contrário do exercício de outras profissões) tal (a licenciatura) não chegaria (veja-se lá ao que chegamos, quando hoje só se quer entreter os jovens) ainda tive que fazer mais 2 anos de pedagógicas para dar aulas e ambicionar integrar os quadros e que durante 30 anos, pratiquei, corrigi, aperfeiçoei… É isto que eu tenho para dar aos meus alunos e é isto que sinto que eles valorizam: a solidez do que dizemos e do que ensinamos, a convicção com que o fazemos, o respeito que sentem ao percepcionar que queremos o melhor para eles e o cumprimento escrupuloso das regras num tratamento justo, mais igual e expectável por qualquer um dentro da sala de aula.
    Ao fim de 30 anos uns imberbes (muitos nunca deram aulas) querem convencer-me que o que fiz, fiz mal??? – vão arregimentar e evangelizar ( os senhores do ministério, das inspecções e demais servos)) quem quiserem mas não a mim, que sempre fui profissional e sempre trabalhei muito e sempre com convicção!

    O que estão a fazer à escola pública, aos alunos e aos seus professores é de uma calhandrice, sacanice e desprestígio sem limite! (Infelizmente e como em todas as profissões há quem o mereça mas não, e nunca, a sua maioria)

    Peço desculpa ao António Duarte pois o comentário não tem exactamente a ver com o assunto do post.

    Gostar

    • Agradeço o comentário, que não me parece nada desadequado.

      E acho que nem estamos a defender coisas opostas.

      Eu também defendo uma escola solidamente ancorada nos saberes disciplinares dos professores. Não compro estas modas educativas baseadas na ideia de que todos podemos ensinar tudo, que aprendemos com os alunos e por aí fora.

      No caso da educação sexual, para exemplificar com o tema do post. Defendo que o tema seja tratado em várias disciplinas, respeitando a especificidade das mesmas e da formação dos seus professores. No meu caso, que sou professor de História: não me sinto à vontade para enveredar por explicações detalhadas sobre a fisiologia do aparelho reprodutor. Mas abordo com os alunos diversos aspectos históricos e culturais da sexualidade humana em várias épocas. Assim como, no caso do Português, o amor e os afectos, ou mesmo uma sexualidade mais física estão presentes em vários textos e obras literárias que fazem parte dos programas e devem ser devidamente abordados.

      Acima de tudo, acho que há um princípio que nos deve nortear: trabalhar em prol do interesse dos alunos e da sua educação, nunca em função de modas ou de agendas que pouco ou nada têm a ver com a escola e a educação.

      Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.