Um novo livro, cuja leitura promete ser instrutiva e interessante, tenta iluminar um dos temas mais esquecidos da história do continente africano: durante mais de mil anos, traficantes árabes e muçulmanos praticaram um intenso comércio negreiro que ultrapassou, tanto em números absolutos como na crueldade dos actos praticados, o que veio a ser feito, séculos mais tarde, pelos europeus.
Não se trata aqui de encontrar negreiros bons ou maus. Trata-se, isso sim, de estudar e investigar a História na sua globalidade, procurando enquadrar e compreender os acontecimentos passados.
Há muito que se sabe que as práticas esclavagistas existiam na África Negra muito antes da chegada de povos de outros continentes. De facto, a privação da liberdade e o trabalho forçado tendem a aparecer em consequência da guerra, por um lado, e por outro do desenvolvimento da economia produtora, que requer força de trabalho nem sempre abundante. E assim como, no Ocidente, Gregos e Romanos escravizavam metodicamente os vencidos nos combates, também as guerras tribais no continente africano conduziam os prisioneiros à escravidão.
O que árabes muçulmanos, primeiro, e europeus cristãos, mais tarde, trouxeram foram fortes motivações económicas para ampliar a captura de escravos e o seu transporte para outros continentes. Mas, apesar da enorme mortalidade nos barcos negreiros que atravessavam o Atlântico, a verdade é que os descendentes dos escravos africanos constituem uma parte importante das actuais populações americanas. Já no mundo muçulmano que acolheu os escravos africanos, a escassa presença das etnias subsarianas é um sinal revelador daquilo que Tidiane N’Diaye não tem dúvidas em designar como um genocídio…
Como mostra a história, os árabes-muçulmanos estão na origem da calamidade que foi o tráfico e a escravatura, que praticaram do século VII ao século XX. E do sétimo ao décimo sexto século, durante quase mil anos, eles foram os únicos a praticar este comércio miserável, deportando quase 10 milhões de africanos, antes da entrada na cena dos europeus. A penetração árabe no continente negro iniciou a era das devastações permanentes de aldeias e as terríveis guerras santas realizadas pelos convertidos a fim de obter escravos de vizinhos que eram considerados pagãos. Quando isso não era suficiente, invadiram outros alegados “irmãos muçulmanos” e confiscaram os seu bens. Sob este acordo árabe-muçulmano, os povos africanos foram raptados e mantidos reféns permanentemente.
Desde o início do comércio oriental de escravos que os muçulmanos árabes decidiram castrar os negros para evitar que se reproduzissem. Esses infelizes foram submetidos a terríveis situações para evitar que se integrassem e implantassem uma descendência nesta região do mundo. Sobre esse assunto, os comentários de uma rara brutalidade das Mil e Uma Noites testemunham o tratamento terrível que os árabes reservavam aos cativos africanos nas suas sociedades esclavagistas, cruéis e depreciativas particularmente para os negros. A castração total, a dos eunucos, era uma operação extremamente perigosa. Quando realizada em adultos, matou entre 75% e 80% dos que a ela foram sujeitos. A taxa de mortalidade só foi menor nas crianças que eram castradas de forma sistemática. Mas 30% a 40% das crianças não sobreviveram à castração total. Hoje, a grande maioria dos descendentes dos escravos africanos são na verdade mestiços, nascidos de mulheres deportadas para haréns. Apenas 20% são negros. Essa é a diferença com o comércio transatlântico.
Eu só falo de genocídio para descrever o comércio de escravos transaariano e oriental. O comércio transatlântico, praticado por ocidentais, não pode ser comparado ao genocídio. A vontade de exterminar um povo não foi provada. Porque um escravo, mesmo em condições extremamente más, tinha um valor de mercado para o dono que o desejava produtivo e com longevidade. Para 9 a 11 milhões de deportados durante essa época, existem hoje 70 milhões de descendentes. O comércio árabo-muçulmano de escravos deportou 17 milhões de pessoas que tiveram apenas 1 milhão de descendentes por causa da maciça castração praticada durante quase catorze séculos.