O poema censurado

21317039_JA9Tg.jpgO caso, algo caricato, da censura de um poema de Álvaro de Campos num manual da Porto Editora, vai dando que falar. Obviamente, a atitude censória não faz qualquer sentido. Se os autores do manual acharam que o poema não era, pela linguagem obscena ou pelas alusões à pedofilia, apropriado para os alunos do 12º ano, só teriam de o substituir por outro texto mais adequado.

O que me causa maior perplexidade é haver ainda quem pareça pensar, nos dias de hoje, que é com poemas de Fernando Pessoa que os nossos jovens se iniciam nos mistérios da prostituição, da masturbação ou da pedofilia. Que se apagarem um ou outro palavrão atrevido que se intromete até na melhor literatura, ajudarão a que os jovens não se familiarizem com o seu uso. Que as práticas censórias ao melhor estilo do Estado Novo, com as linhas ponteadas a substituir os versos atrevidos, fazem algum sentido nos nossos dias.

Paradoxalmente, a Porto Editora é dos grupos empresariais que mais tem investido nas novas tecnologias no ensino, abraçando as teorias do “conhecimento na palma da mão” num mundo em que quase tudo o que se queira saber está disponível na internet. Ignorarão eles que crianças com metade da idade que têm os alunos do 12º ano acedem livremente a todo o tipo de conteúdos ofensivos, violentos e pornográficos disponíveis online?…

A presidente da Associação Nacional de Professores de Português, Rosário Andorinha, é peremptória na posição que toma quanto ao corte de três versos da Ode Triunfal de Álvaro de Campos, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, efectuado num manual da Porto Editora. “Não consigo aceitar que um poema seja cortado, porque ao fazê-lo já não estamos perante o mesmo texto, nem a respeitar o seu autor”, afirma esta docente de Português do ensino secundário.

No manual Encontros, destinado à disciplina de Português do 12.º ano, o poema com 240 versos é transcrito praticamente na íntegra, à excepção de três versos que foram cortados por opção dos autores deste livro. O primeiro a desaparecer foi este: “Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas (…)”. E depois, num trecho mais à frente, foram cortados mais estes dois: “E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! —/Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.”

Estes versos aparecem substituídos por linhas ponteadas, a mesma opção adoptada pela censura durante o Estado Novo, e sem que haja no manual qualquer menção ao corte efectuado.

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