Sinais…

Sejam sinais de aviso ou de perigo, a onda inusitada de greves mostra que o governo sustentado na geringonça não está a saber gerir expectativas criadas ao longo da legislatura. Esta aproxima-se a passos largos do seu termo e, se a situação económica do país melhorou significativamente, os cidadãos sentem ainda muito poucos efeitos concretos dessa melhoria.

A sensação que se tem é que tudo o que tem sido conseguido está ainda muito preso por arames: o défice reduziu-se à custa dessa austeridade encapotada que são as cativações, a dívida continua entre as maiores da Europa, a economia continua dominada pelo capital estrangeiro e, apesar da elevada carga fiscal, sobra muito pouco dinheiro para as despesas públicas essenciais, pois a dívida, a corrupção, as fraudes bancárias e as parcerias ruinosas com os privados deixaram uma pesada herança que continua a condicionar o presente e a hipotecar o futuro.

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© Henricartoon

3 thoughts on “Sinais…

  1. Um muito bom resumo da coisa, A. Duarte.

    Apesar de, e esta é a minha leitura, terem estrangulado o país e a maioria enorme dos portugueses ao longo dos anos e anos, com fundos europeus mal parados, estoirarem-se recursos essenciais na indústria e agricultura, com a banca a sacar dinheiro e a ir à falência, com a corrupção, a venda a retalho do país . Mais recentemente, com esta carga literal e psicológica dos portugueses terem vivido acima das suas possibilidades, do empobrecimento como solução num país com tantas dificuldades, dos baixos salários, do desemprego, da emigração de gerações qualificadas, do avanço para as privatizações, do precário e dos recibos verdes e do Estado Gordo ou das gorduras do Estado, atingiu-se quase o fundo.

    A solução governativa começou bem na reversão de algumas medidas e cortes. Respirou-se mais confiança.

    Até que chegaram as “linhas vermelhas”. Internas e externas.

    Como se em cada rua se tivesse colocado um sinal de STOP.

    Aqui chegados, a recuperação do depauperado estado social e de um nível de vida adequado esbarrou no sinal e a confiança está a esmorecer, ao mesmo tempo que os dinheiros públicos vão para sítios pouco saudáveis. A arrogância na liderança política apareceu de novo. E às negociações foram dizendo Nada.

    A economia está presa por fios e o emprego também. Basta um Atchim qualquer e a gente fica doente logo a seguir.

    Não se aprende nada com o que se passou e se está a passar.

    As greves aparecem em força potenciadas por ano eleitoral à vista e por esta sede humana de uma vida melhor e mais justa.

    No meio disto, junte-se a apropriação do descontentamento. A História, afinal, repete-se, tomando algumas novas formas mas sempre com o mesmo objectivo final.

    Não se aprende nada com o que se passou e se está a passar.

    E, com estes “descuidos”, ainda nos aparece essa extrema direita tão desejada por uns quantos.

    E,eis senão quando, ainda nos sai um Jair Bolsonaro luso de dentro do toucado.

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  2. Isto que escrevi está assim a modos que mal escritinho e nem sei se se percebe.

    Por isso, vou buscar o poeta Nicolau Tolentino a propósito do “toucado”, a ver se isto fica mais composto e mais metafórico. Um poema de que gosto muiiitooooo:

    Sátira aos Penteados Altos
    Chaves na mão, melena desgrenhada,
    Batendo o pé na casa, a mãe ordena
    Que o furtado colchão, fofo e de pena,
    A filha o ponha ali ou a criada.

    A filha, moça esbelta e aperaltada,
    Lhe diz coa doce voz que o ar serena:
    – «Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena;
    Olhe não fique a casa arruinada…»

    – «Tu respondes assim? Tu zombas disto?
    Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
    Já a mãe não tem mãos?» E, dizendo isto,

    Arremete-lhe à cara e ao penteado.
    Eis senão quando (caso nunca visto!)
    Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!…

    Nicolau Tolentino, in ‘Antologia Poética’

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