Ler, escrever, contar, respeitar

Jean-Michel-BlanquerA escola francesa – fábrica de cidadãos, motor da meritocracia e pilar histórico da identidade da França republicana – volta ao básico. Ler, escrever, contar, respeitar. Estes são os fundamentos nos quais deverá se concentrar, de acordo com Jean-Michel Blanquer, ministro da Educação Nacional do Governo do presidente Emmanuel Macron. No ano e meio em que está no comando, Blanquer, que deu impulso à proibição de telefones celulares nas classes, também tem promovido o aprendizado de latim e grego.

“A principal questão da nossa época”, diz ele em um encontro com EL PAÍS e outros meios de comunicação europeus, “é como este mundo cada vez mais tecnológico pode ser um mundo cada vez mais humano”.

A França será provavelmente um dos países a merecer ser acompanhado mais atentamente, nos próximos tempos, por quem se interessa pelas realidades e desafios da Educação dita do século XXI. Com um Presidente e um Governo pouco definidos em termos ideológicos, também na Educação se notam os sinais de um casamento difícil e de resultados incertos entre republicanismo laico e conservadorismo social, liberalismo económico e centralismo estatal, retorno ao básico – ler, escrever e contar – e abertura às mais recentes teorias do conhecimento. A versão portuguesa do El País traça o retrato possível de um sistema educativo atravessado por dilemas e contradições.

Por exemplo: numa sociedade cada vez mais dominada pelas tecnologias de comunicação, deve a escola seguir na onda do conhecimento fácil e instantâneo, promovendo a integração dos gadgets electrónicos no quotidiano escolar, ou deve assumir o desafio de oferecer aos alunos aquilo que a sociedade da informação não lhe pode dar – por exemplo, disciplinas opcionais de latim ou grego? Voltar aos clássicos, ao conhecimento das línguas e das culturas antigas, e encontrar neles exemplos e inspiração para encarar os desafios do nosso tempo, pode não ser uma opção fácil. Mas parece ter sido claramente assumida pelo ministro da Educação Nacional.

Recentemente, também foi muito discutida a decisão polémica de proibir o uso de telemóveis nas escolas públicas. Uma medida já em aplicação, mas que consta estar a encontrar resistências, não só entre os alunos, mas também entre as direcções e corpos docentes de algumas escolas.

Contudo, para além das ideias mais emblemáticas, que reformas estruturantes foram encetadas? Os sinais são contraditórios. Positivos, como a redução do número de alunos por turma nas escolas que servem públicos escolares mais carenciados. Mas também há críticas dos sindicatos de professores devido à diminuição de lugares docentes e ao sistema de avaliação dos alunos e das escolas. E, claro, acusações dos mais impacientes adeptos da mudança: o actual ministro tenta usar a Educação para reproduzir um mundo que já pertence ao passado.

Outras questão controversa é o ensino do Árabe nas escolas públicas, que tem sido defendido e promovido pelo actual ministro, contra as correntes mais conservadoras que o associam ao recrudescer do radicalismo islâmico. Mas a ideia de Blanquer é pertinente: o Árabe é uma das grandes línguas da cultura e da civilização. Oferecer o seu estudo nas escolas públicas, num contexto de neutralidade religiosa, é preferível a que os interessados procurem as aulas das escolas corânicas, essas sim, muitas vezes, focos do fundamentalismo religioso.

Finalmente, a presença policial nas escolas, frequentemente requerida devido ao aumento da violência escolar: um polícia armado dentro de uma escola deve ser visto como um elemento intolerável, uma ameaça perturbadora? Ou, pelo contrário, deverão as crianças habituar-se, desde pequenas, a encarar o polícia não como uma ameaça, mas como um elemento útil e necessário da sociedade, construindo dessa forma uma imagem positiva das forças de segurança?…

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5 thoughts on “Ler, escrever, contar, respeitar

  1. Interessante de se ler.

    “como este mundo cada vez mais tecnológico pode ser um mundo cada vez mais humano”.

    Devíamos ir por aí, mas parece que vai depender das opções políticas , sociais e económicas que forem tomadas em relação a esse mundo tecnológico.

    “Ler, escrever e contar” – sempre tem sido essa a função da escola embora as novidades didácticas e pedagógicas tenham , por ciclos rotativos, criado um grande alarido à volta destas 3 questões básicas.

    A proibição do uso do telemóvel, talvez. Não sei. O que parece é que mais cedo do que mais tarde os telemóveis serão substituídos por outras tecnologias e gadgets e voltamos ao mesmo.

    Disciplinas opcionais de latim, grego ou árabe. Parece-me razoável. E outras opções poderiam ser consideradas.

    Polícias armados dentro das escolas, não me parece razoável. E menos razoável é a justificação apresentada.

    A ministra da educação de Trump defende armas nas mãos dos professores (por causa dos ursos que possam entrar nas escolas ; Jair Bolsonaro defende armas para os cidadãos.

    Interessante de se ler. Mas não compro a 100%. Longe disso.

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    • Também tenho as minhas dúvidas e as minhas reservas. Palpita-me que isto vai gerar contestação, como aliás é apanágio da sociedade francesa. E se está a ver por estes dias…

      Mas para mim o mais interessante aqui é a destruição da ideia de consenso educativo. Lendo um relatório da OCDE ou do nosso CNE fica-se com a noção de que tudo na educação é consensual, que todos queremos o mesmo. Ora a verdade é que continua a haver confronto de ideias opostas, discussões a travar e decisões que estão longe de agradar a todos.

      Discutir os temas educativos, rejeitando os falsos consensos e o pensamento único tão caro ao neoliberalismo triunfante: dar o meu modesto contributo a essa discussão será talvez a principal razão que me levou a criar e a manter activo este blogue…

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