9,5 milhões para licenças digitais

tablets.pngO Governo que faz cativações a torto e a direito, que não arranja dinheiro para despesas sociais que deveriam ser prioritárias, que não honra os compromissos com as escolas e os alunos dos cursos profissionais, esse mesmo Governo destinou recentemente cerca de 9,5 milhões de euros ao pagamento de licenças digitais dos manuais que este ano foram oferecidos aos alunos.

Trata-se, segundo me parece, de uma despesa supérflua: se os alunos já têm os manuais em papel, para quê a versão electrónica dos mesmos? Serão assim tão necessários e relevantes os recursos suplementares que vêm associados ao livro digital? Independentemente da resposta, o que se percebe, lendo a Resolução do Conselho de Ministros, é que há um claro programa de defesa dos “recursos educativos digitais”, da “desmaterialização” dos manuais. E uma crença, muito discutível, de que é indo por este caminho que se responde aos “desafios” da “sociedade do conhecimento” e se produzem auxiliares da aprendizagem “cada vez mais completos e motivadores”.

Tenho eu, e muita gente, fundadas dúvidas de que o futuro da Educação passe mesmo por aqui. Mas uma certeza prevalece: quase dez milhões de euros passarão, por conta desta brincadeira, para as mãos de um pequeno grupo de empresas que irá vender as tais “licenças digitais” que, na prática, poucos alunos e professores irão usar.

Quanto às vantagens educativas dos manuais electrónicos, acedidos pelos alunos através de tablets, e à sustentabilidade de um modelo de ensino assente no seu uso sistemático, o professor Santana Castilho apresenta, na sua crónica semanal no Público, um conjunto de argumentos demolidores. E não é preciso ser um “velho do Restelo” para reconhecer a realidade dos factos nem a pertinência das críticas…

– Estudos sérios submetidos a revisão por pares (peer-reviewed studies) referem que quem lê textos impressos compreende, fixa e apreende mais que aqueles que recorrem aos mesmos textos em versão digital. Com efeito, o cérebro interpreta e processa diferentemente textos impressos e textos digitalizados (Carr, Nicholas. Author Nicholas Carr: The Web Shatters Focus, Rewires Brains. wired.com, 24.5.2010).

– Para a medida ser consequente, parece óbvio que cada aluno precisará de um equipamento individual de leitura, um tablet, e as escolas precisarão de ver substituído um parque informático depauperado. Quanto custa isto para um milhão e 200 mil alunos e cerca de seis mil escolas? Terão os arautos da medida reflectido sobre a desastrada experiência do e-escolas e do e-escolinhas?

– A adopção dos manuais digitais nos EUA revelou-se cinco vezes e meia mais cara que o uso dos livros impressos, considerado o preço dos tablets, o custo das infra-estruturas wi-fi, o preço anual das necessárias licenças digitais e o custo da formação dos professores (Wilson, Lee. Apple’s iPad Textbooks Cost 5x More Than Print. educationbusinessblog.com, 23.2.2012).

– Os tablets são caros, partem-se facilmente, são difíceis de reparar, ficam rapidamente obsoletos e requerem redes wi-fi nem sempre disponíveis.

– Os tablets não permitem apenas o acesso aos manuais digitais. Fazem apelos constantes à distracção: apps para todos os fins e preferências; jogos de todos os tipos; websites bem mais apelativos que as matérias de ensino; e-mail, Messenger e chats a perder de vista; Facebook, Instagram e demais parafernália que vêm ajudando a criar uma geração de concentração difícil, incapaz de ler um texto que demore mais de dois minutos ou prestar atenção seja ao que for para além de outros cinco (chamam-lhe hiperactividade e resolve-se de modo cómodo com Ritalina). 

– O manuseamento dos tablets está associado a várias perturbações de visão (New York Daily News. iStrain: Tablets and iPads Can Cause Eye Problems. articles.nydailynews.com, 14.3.2012) e a problemas músculo-esqueléticos (Fishman, Dean. Neck Pain from Texting. The Text Neck Institute website, 2.11.2010).

– O fabrico dos tablets é altamente agressivo para o ambiente. Com efeito, cada tablet supõe a extracção de 14,96 quilos de minerais, 299,04 litros de água e uma quantidade de energia de que resulta a produção de 29,93 quilos de dióxido de carbono (Goleman, Daniel & Norris, Gregory. How Green Is My iPad? nytimes.com, 4.4.2010).

2 thoughts on “9,5 milhões para licenças digitais

  1. Caro Dr. António Duarte, li com atenção este seu artigo sobre a despesa pública com a aquisição de manuais escolares. Percebo o seu ponto de vista, que respeito integralmente. Percebe-se, pelo seu zelo em manter este blogue, que a sua motivação é a melhoria da escola e do ensino.
    Discordo do entendimento de que a despesa seja supérflua. Contrariamente, penso antes no peso de 12 quilos transportado pela minha filha, diariamente, para a escola pública que frequenta, fazendo o trajeto casa-escola, frequentemente, a pé. Na questão do uso das tecnologias no ensino-aprendizagem, não me posiciono do lado de quem possa considerar que é panaceia para todos os males (haverá quem verdadeiramente creia nisso?), mas estou firmemente convicta de que alhearmos a escola dos benefícios digitais é mais danoso do que bondoso. Temos, sim, que fazer a adoção digital nas escolas, conscientemente – e de forma consequente. Fico feliz e saúdo a medida inscrita no OE19 para a gratuitidade dos manuais escolares para todo o percurso escolar obrigatório, incluindo a versão digital dos mesmos. No ano letivo 2019/2020, a minha filha seguirá para a escola com um pequeno pc híbrido (convertível em tablet), em cujo armazenamento estarão os manuais digitais. O valor que pouparei com a gratuitidade dos manuais, vou investir num equipamento especificamente orientado para a educação. A oferta dos fabricantes é grande neste segmento apetecível, com equipamentos muito adequados a começar nos 150 euros, ou seja, mais 20 euros apenas em relação ao custo com manuais que tive ainda no ano passado.
    Preparo-me para alguma perplexidade por parte da escola. Não será por maldade ou tacanhez, eu sei, e por isso mesmo preparo-me para explicar, com paciência e boa vontade, que o merecido conforto da minha filha, associado ao não-esquecimento pontual do manual desta ou daquela disciplina, somado ainda aos benefícios genéricos de criarmos nativos digitais sem os constrangimentos e preconceitos que ainda nos prendem, a nós, os emigrantes digitais, são razões válidas e que enformam a minha decisão. Acrescentarei, em havendo necessidade, que nada na lei obriga a que o manual seja apresentado pelo aluno, na sala de aula, num formato predeterminado, obrigando, sim, a que o aluno o tenha disponível, pelo que o manual em formato digital deve ser aceite, tal como o manual em suporte-papel.
    Voltando à despesa: aflige-me e ofende-me muitíssimo mais a despesa estatal derramada para resgatar bancos e banquetas. Ofende-me muito mais pelo volume da despesa, pelos destinatários da despesa e, finalmente, pelos potenciais resultados da despesa.
    Espero que possa um dia aperceber-se das muitas vias através das quais podemos, como sociedade, retirar benefícios da adoção do digital pelas escolas no processo de ensino/aprendizagem, da mesma forma como eu própria cá estarei para acompanhar criticamente esse processo que é inevitável – louvando quando considerar de louvor e alertando sempre que identifique perigos.

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    • Cara leitora, pessoalmente não me oporia a que algum aluno pretendesse usar o manual digital no seu próprio tablet. Ou melhor, permitiria até ao dia em que o encontrasse a usar o aparelho para outras tarefas que não aquela a que estaria destinado.

      Quanto ao resto, lamento desiludir, mas ainda não encontrei evidências que demonstrem a veracidade da famosa teoria dos “nativos digitais”. Trata-se de um mito habilmente explorado por influenciadores e propagandistas, e digo-lhe mais: encontro cada vez mais evidências do oposto. Comparando os adolescentes actuais – jovens entre os 12 e os 15 anos, a faixa etária com que trabalho mais regularmente – com os de há meia dúzia de anos atrás, noto que há, em média, uma ligeira, mas nítida, regressão ao nível das competências digitais. Quanto às causas, poderão ser várias, mas julgo que a principal é esta: os miúdos mais velhos, tal como os impropriamente chamados “emigrantes digitais”, adquiriram as suas competências usando computadores, enquanto a nova geração usa quase exclusivamente o telemóvel, que induz uma utilização muito mais pobre das potencialidades das TIC.

      Em relação ao peso dos manuais, tem toda a razão: é excessivo, sem qualquer necessidade. Poderiam ter metade do peso, sem qualquer problema, se fosse usado outro tipo de papel. Mas, dependendo das disciplinas, dos programas, dos anos de escolaridade e dos métodos pedagógicos usados por cada professor, poderá haver vantagens, ou não, decorrentes da utilização do livro físico.

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