A despedida do Harrison

harrison.jpgForam mais de 2700 os jovens que fizeram o último Harrison de sempre: o temido e polémico exame que dá acesso à especialidade que deverão seguir. Há 40 anos que a prova tem vindo a gerar controvérsia na área da saúde. Na generalidade, a comunidade médica e os estudantes concordam com a sua substituição por um novo modelo fortemente baseado em casos clínicos, como está previsto que seja o exame do próximo ano – a Prova Nacional de Acesso à Formação Especializada.

Em contraste com o Harrison — muito baseado na memorização de cerca de três mil páginas —, o novo exame vai basear-se mais no raciocínio e avaliar o conhecimento clínico dos candidatos, abarcando novas áreas que o Harrison não incluía, como a psiquiatria, a ginecologia ou a pediatria.

Não sendo um fundamentalista nesta matéria, reconheço que há situações em que a realização de um exame é a forma mais célere, justa e eficaz de comprovar a aptidão dos candidatos – por exemplo, na atribuição da carta de condução – ou de seleccionar e seriar os candidatos a um curso superior ou formação especializada – é o caso do ingresso na especialidade por parte dos médicos recém-formados.

O problema é o tipo de exame que se faz. Podemos, ficando parados no tempo, continuar a insistir no apelo à memorização. Ou apostar numa avaliação mais abrangente, mais focada nas capacidades e competências que os futuros especialistas terão de desenvolver na prática clínica. O Harrison assenta numa concepção completamente ultrapassada e a sua substituição era inevitável. Já tem sucessor anunciado e, se tudo correr bem, desaparecerá no próximo ano sem deixar saudades.

Ainda assim, o mediatismo deste exame chama a atenção para outras realidades que lhe estão associadas. Desde logo, a verdadeira indústria que se formou em torno da “preparação” dos candidatos. E os “efeitos secundários” de uma prova demasiado competitiva e assente exclusivamente na capacidade de memorização…

Inscreveu-se na Academia porque sentiu que precisava de orientação no estudo. “Fiz os cinco cursos e o intensivo. Paguei cerca de mil euros, mas sinto que foi bom investimento. Estou bem preparada”, diz. A este valor somam-se 120 euros de fotocópias do livro no qual se baseia a prova (que custa 250 nas livrarias), cem de material e um valor de fotocópias que não sabe precisar. Contas rápidas, chegamos à conclusão de que há colegas que gastam mais de 1500 euros para preparar o exame. Sabe-se que também há quem recorra a Ritalina ou a antidepressivos para aguentar o ritmo. “Só bebo café”, assegura a jovem médica.

Pedro Martins, de 24 anos, também tirou 77% na prova de simulação, mas concorda que os resultados destes exames devem ser “relativizados”. Considera-se calmo e bem preparado. “No verão não ultrapassava as 12 horas de estudo por dia, mas a partir de setembro comecei a chegar às 15.” Dormia sete horas por noite, mas começou “a ter sintomas de cansaço, depressivos”. Foi então que decidiu “cometer a loucura de passar a dormir oito horas”. Para descansar bem, precisa de não pensar no exame pelo menos meia hora antes de ir para a cama. “É como uma maratona. Precisamos de ser regrados”, diz o médico recém-graduado, que espera uma vaga em Medicina Desportiva. Há muita pressão: no ano passado abriu apenas uma, e entra quem tiver a melhor nota. “Para o nível de estudo que tive, espero acima de 80%.”

Subjacente a todo este stress, está uma realidade incontornável: de há alguns anos a esta parte, estão a abrir nas faculdades de Medicina muito mais vagas do que as que são disponibilizadas para a especialidade. O que significa que, de ano para ano, há um número crescente de jovens médicos sem acesso ao internato e à formação especializada. Dentro de dois anos, prevê-se que sejam já mais de quatro mil. Sabendo-se que os médicos indiferenciados não poderão trabalhar de forma independente, faz sentido perguntar a quem interessa o aparecimento deste proletariado médico. Ou ainda: o que ganhamos em forçar estes profissionais, em cuja formação o país tanto investiu, a emigrar para conseguirem obter a especialidade?

O problema não é de resolução fácil. Aumentar as vagas para as especialidades, que já estarão no limite, iria comprometer a qualidade da formação. Reduzir as vagas dos cursos de Medicina aumentaria ainda mais a pressão sobre cursos que continuam a ser dos mais procurados. E apesar de formarmos mais médicos, continua a haver falta recorrente de clínicos especializados em muitos lados, sobretudo no interior do país. Talvez uma solução equilibrada necessite de conjugar estas três vertentes: a formação académica, a especialização e a colocação dos médicos onde eles são necessários.

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