Uma geração superficial?

estudo-e-telemovelBom dia ou boa noite, professora. Nas próximas duzentas a trezentas palavras lerá aquela que foi provavelmente a composição que mais me custou escrever. Por isso mesmo, sente-se, coma qualquer coisa e tenha misericórdia de mim.

A professora Carmo Machado usa esta advertência do seu aluno como ponto de partida para uma interessante reflexão sobre os efeitos que a falta de hábitos de leitura e a omnipresença dos jovens na internet e nas redes sociais está a ter na capacidade de concentração, na compreensão do pouco que lêem e, também, nas competências de escrita dos actuais estudantes. Estaremos, com a ajuda do dr. Google, do Youtube e das redes sociais, a formar uma geração superficial?

Sim, a maior parte dos alunos tem aversão à escrita porque não lê, sentindo uma enorme dificuldade em escrever, problema que aumenta de ano para ano. Ler estimula o raciocínio, desenvolve o vocabulário, aumenta a capacidade de interpretação, diminui os erros ortográficos, ajuda a produzir textos coesos, desenvolve a capacidade argumentativa, só para referir algumas vantagens. De facto, se vocês não lerem, como irão conseguir escrever? A esta pergunta, alguns alunos respondem-me de imediato: Ó stora, mas a gente lê. Todos os dias lemos imensas coisas na Internet… Bingo!

[…] A geração com que trabalho é uma geração alienada e cada vez mais superficial. A internet, sabemo-lo, veio mudar o mundo. Está a mudar as nossas vidas e começou já a transformar os nossos cérebros.

A dependência do computador e da ligação à rede começa a interferir na forma como percecionamos o mundo, provocando danos irreparáveis na maneira como utilizamos a linguagem. Penso que reside aqui, neste uso e abuso que fazemos das tecnologias, uma das principais causas das dificuldades crescentes dos alunos no uso da escrita. O que pode então a Ciência dizer-nos sobre as consequências do uso da internet nos nossos cérebros e nos cérebros dos nossos alunos? Muito mesmo. Vários estudos realizados por educadores, investigadores de diferentes áreas como psicólogos e neurobiólogos mostram que quando os alunos estão em rede (o que acontece a maior parte do tempos nos dias que correm), o ambiente em que se encontram promove uma leitura negligente e rápida. Ora, neste contexto, o pensamento torna-se também ele apressado sendo a aprendizagem que fazemos das coisas cada vez mais superficial.

O que fazemos quando estamos em rede acarreta consequências neurológicas impercetíveis no imediato mas cujo efeito é preocupante. Não é preciso ser-se professor para se constatar que a capacidade de concentração dos jovens e adolescentes é cada vez menor. Na verdade, tal como o tempo gasto a explorar páginas web (na maior parte das vezes sem qualquer conteúdo de interesse) suplanta o tempo que passamos a ler noutros registos e formatos (já nem me atrevo a referir-me aos livros), também o tempo que se consome a redigir mensagens curtas de texto (vulgo sms) suplanta o tempo que se utiliza a escrever um parágrafo, vários parágrafos, um texto… Deste modo, enquanto saltitamos entre hiperligações que nos levam a nenhures perdemos a oportunidade de refletir silenciosamente. Eis o ponto seguinte desta rede de vazios. O silêncio é praticamente inexistente na vida dos nossos alunos. Dentro ou fora da aula, os alunos não o conhecem. Logo, os antigos processos e funções intelectuais que permitiam o raciocínio aprofundado e a reflexão começaram a destruir-se e a desaparecer. O cérebro recicla os neurónios e as sinapses não utilizadas, dando-lhe outras tarefas mais urgentes. É certo que os alunos possuem e/ou ganharam outras competências que nós não possuímos mas perderam capacidade de foco e de concentração. Segundo Nicholas Carr, o nosso cérebro está a regredir ao cérebro primitivo ou reptiliano, em alerta e distração permanente.

Há muito que se notava que as novas tecnologias de informação estão a mudar o modo como aprendemos e como nos relacionamos com as outras pessoas – sobretudo os mais novos, cujas mentes são mais influenciáveis e moldáveis. Mas hoje, os professores e os pais mais atentos vão-se apercebendo de que, apesar de podermos ter “o conhecimento na palma da mão”, nem todas as mudanças não positivas.

As evidências que se vão somando parecem demonstrar que a exigência de uma escola livre de telemóveis, por exemplo, não é apenas um capricho de professores que querem dar as suas aulas sem distracções. Ela pode vir a ser condição essencial para satisfazer a necessidade de criar, na vida das nossas crianças e adolescentes, espaços e tempos em que permanecem desligados da rede. Para que os jovens cérebros possam processar o excesso de informação que vão recebendo e dar uso às funções que vão atrofiando. Ganhando tempo para falarem e se ouvirem uns aos outros e aos seus professores, e a oportunidade de fazerem coisas como ler um livro ou, simplesmente, ouvir o som do silêncio…

A complexidade do problema e dos efeitos a longo prazo que a alienação digital poderá ter nas gerações ditas do milénio recomenda ainda duas precauções básicas. A primeira, que se continue a investigar e a discutir o tema, pois não se pode agir acertadamente sem conhecimento suficiente. A outra é afastar o mais possível, dos processos de decisão, a influência dos maus conselheiros:  os vendedores de tecnologia, os demagogos da sociedade de informação e todos os influenciadores e empreendedores em busca de dinheiro fácil ou fama imediata.

4 thoughts on “Uma geração superficial?

  1. Sem dúvida, embora haja algumas vantagens na rede: eles , bem ou mal, lêem. Na década de oitenta e noventa, havia alunos que mal sabiam ler no 9º e 10º de escolaridade. A geração milenium saberá ler embora extensivamente, percebe quase nada do que lê, concordo. Serão necessários mais estudos, sem dúvida. Por outro lado , a competência do polegar está a subsituir a competência adquirida em computador de teclar com todos os dedos de forma virtuosa (alunos meus dos anos 2000 em diante teclavam mais rapidamente que qualquer datilógrafo encartado). Isso do polegar …. também não é bom. Como pouco fazem em casa e o futebol joga-se com os pés , é natural que a evolução um dia nos surpreenda , com crianças a nascer só com um polegar em cada mão. Salvo seja

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  2. Esta ideia que as novas gerações são superficiais, não sabem ler e/ou escrever é uma generalização recorrente com a qual não concordo.

    Fartei-me de ler textos escritos em Inglês de vários alunos ou turmas inteiras do secundário. E não me espantei nada com as altas classificações que atribuí.

    Será por ser em Inglês? Não creio.

    O facto é que as generalizações não são rigorosas e é também facto que este assunto tem feito correr muito negócio em livros, com ilações muitas vezes verdadeiras, mas que se pretendem tornadas universais.

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    • Uma característica das novas tecnologias é a facilidade com que elas nos permitem não só aceder à informação mas também criarmos os nossos próprios textos ou outros conteúdos.

      Agora a facilidade tem duas facetas: uma é permitir-nos fazer mais e melhor do que conseguíamos antes. A outra é transformarmos a facilidade em facilitismo e deixarmos que a superficialidade, a preguiça e o copy/paste levem a melhor…

      Acredito que as duas realidades coexistam e espero que, no inevitável confronto, a segunda não leve a melhor…

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  3. O que ouvi numa assembleia de turma de 12º ano, onde os alunos escolheram um tema a tratar, foi uma verdadeira lição de inteligência, preocupação pelo futuro e pelo seu futuro.

    O assunto- o tema proposto a ser tratado (algo a ver com a sustentabilidade em termos do meio ambiente) – afastou-se para outros domínios, nomeadamente dos curricula e da escolaridade obrigatória como ponte para o ensino superior e para a vida activa.

    O que ouvi ali, não teve nada a ver com uma geração superficial. Foi comunicação, ideias e propostas.

    Pode-se dizer que se trata de alunos do 12º ano. Mas podemos dar os mesmos exemplos de alunos de outros níveis de escolaridade.

    Atrevo-me a dizer que estes são a maioria dos nossos alunos. Mas nunca são referidos. Referem-se os casos de indisciplina, má educação, cabulice e adição a gadjets e redes sociais. Destes, uns irão crescer e desenvolver-se harmoniosamente; outros, infelizmente, ficarão por aí.

    Tudo isto para dizer o que sinto e tenho vivido na escola – com pais cooperantes e professores que ouvem e acrescentam, esta não é uma geração superficial. Como nunca o foi. Já nos nossos tempos de adolescentes nos diziam o mesmo e não éramos superficiais.

    Outra coisa é convencerem-nos disso e apontarem para um caminho que pode , efectivamente, infantilizar estas gerações.

    E é aqui que, creio sinceramente, o professor pode fazer toda a diferença – pelos conhecimentos, pelo incentivo a questionar-se, pelo respeito do outro, pela civilidade e humanismo.

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