O status do professor na aldeia global

Além de se dedicar a escolher, anualmente, o professor do ano – ou seja, aquele que melhor corresponde às expectativas que as organizações internacionais têm sobre a profissão docente – a Fundação Varkey também investiga, de tempos a tempos, o status dos professores no mundo globalizado.

O índice Global Teacher Status, elaborado com recurso a técnicas estatísticas complexas, compara a valorização social dos professores do ensino básico e secundário de 35 países relativamente a outras profissões, tendo também em conta o “respeito” que os alunos sentem pelos seus professores.

Claro que os resultados deste tipo de estudos estarão sempre imersos numa elevada dose de subjectividade, como será inevitável quando se que tenta quantificar sentimentos, convicções ou estados de alma relativamente ao “respeito” ou ao “status” que é socialmente atribuído aos professores.

Ainda assim, os dados apresentados no relatório deste ano têm o seu interesse. Ao confirmarem, por exemplo, que continuam a ser as culturas orientais as que mais valorizam os professores. Entre os dez primeiros lugares do ranking não há um único país europeu ou americano. A China, com o índice 100, está no topo do ranking e serve de referência à classificação dos restantes países.

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Quanto a Portugal, o 23º lugar coloca-nos na metade inferior da tabela, embora o status dos professores portugueses tenha evoluído positivamente – de 26 para 32,9 – em relação ao estudo anterior, feito em 2013. Já o Brasil situa-se, sem apelo nem agravo, na última posição do ranking. Juntamente com Israel, o penúltimo da lista, continua a ser um dos países do mundo onde é mais difícil e ingrato ser professor…

Menos de 1 em cada 10 brasileiros (9%) acha que os alunos respeitam seus professores em sala de aula – também o último lugar do ranking. Para efeito de comparação, a China é país com a melhor avaliação: lá, 81% das pessoas acreditam que os docentes são respeitados pelos alunos. […]

A pesquisa também mostra que há pouca compreensão do trabalho e da remuneração dos professores. Enquanto os entrevistados acreditam que os docentes trabalham, em média, 39,2 horas por semana, os profissionais relatam 47,7 horas dedicadas semanalmente ao ofício de ensinar – quase 20% a mais. […]

O levantamento mostra ainda que 88% dos brasileiros consideram a profissão de professor como sendo de “baixo status” – o segundo pior lugar do ranking mundial, perdendo apenas para Israel, onde 90% dos cidadãos pensam da mesma forma. Talvez por isso, apenas 1 em cada cinco brasileiros incentivariam o filho a ser professor, a sétima pior posição global. Em comparação, na Índia, 54% dos pais dizem que encorajariam o filho a ensinar.

Diante do cenário caótico, é natural que os brasileiros classifiquem seu sistema de ensino como ruim – melhor apenas que o egípcio: enquanto o Brasil leva nota 4,2, o país africano é avaliado em 3,8 por seus cidadãos.

Voltando a Portugal, gostaria de deixar uma última nota: embora não seja dos países que mais desconsideram os seus professores, há uma realidade, reportada por este estudo, que é reveladora: quase todos os inquiridos afirmaram que desencorajariam um filho que quisesse enveredar pela profissão de professor. Pior do que nós, nem mesmo o Brasil. Apenas, mas eventualmente por razões diferentes das nossas, a Rússia, Israel e o Japão. Dá que pensar…

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O estudo completo pode ser descarregado daqui.

 

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4 thoughts on “O status do professor na aldeia global

  1. Coincidência ou não, alguns desses países asiáticos ocupam os primeiros lugares no ranking PISA. E tudo aponta que se preparam para dominar a economia mundial. Há múltiplos fatores a ter em conta, todos o sabemos, mas dá que pensar.

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    • Curiosamente, os autores do estudo fizeram essa comparação. Nota-se efectivamente alguma correlação, entre os resultados do PISA e o estatuto que é conferido ao professor. Mas há excepções. Por exemplo, a Turquia ou a Indonésia têm resultados modestos mas parecem estimar mais do que nós os respectivos professores…

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  2. Se o baixo nível do estatuto do professor no Brasil não me surpreende, já tinha uma noção do problema, os casos de Itália, e, em particular, de Israel, causam-me muita perplexidade. Que explicação haverá para tal situação?

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  3. Permito-me introduzir aqui uma nota polémica, quiçá “politicamente incorrecta” .Sabemos que é uma classe extremamente heterogénea no que respeita, designadamente : i) às habilitações académicas; ii) ao tipo de disciplina leccionada – fáceis ou difíceis, digamos assim; iii) ao nível de ensino onde se encontram adstritos. Assim sendo, o reconhecimento ou prestígio percepcionado pela sociedade não deixa de ter em conta as 3 “variáveis” que enumerei .Sabe distinguir . Não é como o ECD que tudo nivela.

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