Bullying, a última fronteira

Girl-Bullying.jpgUma aluna do quinto ano da Escola Básica (EB) de Vila Verde teve de receber tratamento hospitalar depois de, segundo a mãe, ter sido vítima “mais do que uma vez” de bullying por parte de outros alunos.

Tudo começou porque, explicou a mãe, a criança usa mochila com rodinhas. Foi apresentada queixa na GNR de Vila Verde e a direção da escola iniciou um processo de averiguações.

A menina, de constituição física muito frágil, foi empurrada, quando se encontrava sentada, e agredida por outros jovens no recreio. Aliás, por diversas vezes que já se terá queixado de atos de violência e “gozo” por colegas de turma e alunos de outros anos. […]

Na passada quarta-feira, a menina estaria sentada num banco do recreio e terá sido empurrada por duas colegas, tendo, no final, ficado com a cara inchada e o sobrolho teve de ser suturado.

O caso surpreende sobretudo pela idade da vítima e das suas agressoras. Pois estamos habituados a associar o bullying a adolescentes e os bullies ao sexo masculino. Mas a verdade é que este tipo de comportamentos podem surgir em todas as idades. E continuam a ser uma realidade preocupante nas escolas portuguesas.

Não que seja mais frequente hoje do que há umas décadas atrás. Como sucede com outros fenómenos que antigamente eram ignorados, escondidos e desvalorizados, o que existe actualmente é uma maior consciência da gravidade do bullying e das marcas indeléveis que ele pode deixar nas vítimas, causando-lhes profundo sofrimento e comprometendo o seu desenvolvimento pessoal e social.

Contudo, se temos feito progressos na identificação e na denúncia dos casos se que vão sucedendo, continuamos a falhar num ponto fulcral: o bullying precisa de ser prevenido nos ambientes escolares e, quando se manifesta, detectado precocemente e combatido logo aos primeiros sinais.

Já há muitos anos que deixou de aceitar os castigos corporais nas escolas. Hoje não se admite, e muito bem, que um professor levante a mão a um aluno ou que o uso da violência seja uma forma de educar, ou sequer de controlar comportamentos disruptivos.

No ambiente familiar a evolução foi mais recente, mas também já não se reconhece, hoje, a legitimidade da “palmada pedagógica” dos pais como método educativo.

Pelo que cumpre perguntar porque é que, se não apanham dos pais, professores ou educadores, algumas crianças têm de se sujeitar a ser agredidas pelos seus companheiros de escola. Quando seremos capazes de banir esta última fronteira do abuso e da violência? E até, indo um pouco mais longe, o que é que leva crianças que não são tratadas dessa forma a desenvolver comportamentos intolerantes e violentos com outros miúdos?…

Claro que a reflexão nos poderia levar a uma interminável discussão sobre a natureza humana, o que não é o objectivo deste post. Será o “homem lobo do homem”, como vaticinava Hobbes, precisando, desde tenra idade, de ser refreado nos seus impulsos agressivos e dominadores? Ou existirá em cada criança o “bom selvagem” descrito por Rousseau?

Qualquer que seja a resposta a estas perguntas ou o posicionamento filosófico de cada um, há um factor que será sempre fundamental: é pela educação que se pode aprender, desde criança, a refrear os comportamentos impulsivos e prejudiciais aos outros e a nós próprios. E é também educando-nos que potenciamos as nossas boas qualidades.

Assim sendo, parece-me que atitudes, valores e cidadanias se devem aprender no concreto, no contexto das relações interpessoais e das diversas actividades escolares. Mais importante do que a “estratégia” ou a “planificação”, é estarmos atentos aos sinais que os miúdos nos dão e entendermos claramente quando e como devemos actuar.

Zelando pelo bem-estar e pela educação das crianças e jovens, não pelo sucesso dos burocratas da OCDE.

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