Formatação e propaganda

tenor

Com a nova situação política, anunciada como de reversão e repetindo o refrão da “valorização” da classe docente, seria de esperar uma inflexão. Que aconteceu, é verdade, mas no sentido de transformar quase toda a formação em momentos de propaganda em torno das crenças pessoais de uma clique político-académica. E passou a existir uma vaga de “formações” (ou algo apresentado como tal) em que avulta a presença de um governante ou de um dos seus emissários mais próximos em digressão pelo país a espalhar a palavra dos novos decretos (mesmo antes da sua aprovação). Sendo que nem existe a liberdade de escolha acerca da frequência, porque surgem em forma de convocatória de presença obrigatória, por vezes extensiva a parte dos alunos.

A “formação” passou a confundir-se com uma variante de comício, com direito a discursos sem contraditório e aclamação de pé, a menos que se aspire ao index local. A par da proletarização docente, aposta-se numa desqualificação profissional, desprezando-se a actualização dos conhecimentos científicos, de acordo com uma ideologia que volta a promover um pretenso saber “holístico” em construção. Associada à ruptura geracional que já se verifica no recrutamento docente, esta opção terá graves efeitos a médio prazo. Porque, ao contrário de certos chavões simplistas, só pode ensinar quem sabe.

De uma forma pedagógica, Paulo Guinote desvenda nas páginas do Público as aventuras e as desventuras da formação de professores. Instituída como um direito e um dever profissional pelo Estatuto da Carreira Docente, do qual também depende a progressão na carreira, a formação contínua floresceu, nos anos 90 do século passado, com a injecção de avultadas verbas provenientes de fundos europeus. Mas foi sol de pouca dura. Os cortes nos financiamentos, o redimensionamento da rede de centros de formação, o fim das dispensas para formação e, sobretudo, os congelamentos da carreira, que tornaram inúteis muitos dos créditos obtidos nas acções frequentadas, tudo isto levou a uma redução substancial, em quantidade e em qualidade, da oferta formativa.

Com o lurdes-rodriguismo nasceu e começou a consolidar-se um novo paradigma na formação contínua de professores, que os governos seguintes não contrariaram: as acções deixaram de estar focadas nos interesses e necessidades sentidas pelos professores e na actualização de conhecimentos nas respectivas áreas científicas, passando a privilegiar a implementação de modas pedagógicas e tecnológicas adoptadas pelos governantes de turno e ditadas pelos lobbies mais influentes em cada momento.

De uma formação mais crítica e reflexiva, centrada nos próprios formandos, passou-se a um programa de formações oficiais, em que formadores escolhidos directamente pela hierarquia ministerial transmitiam, a uma plateia de professores nomeados ou “convidados” pelas direcções escolares, a boa nova educativa. A formação tornou-se formatação; o pensamento crítico e reflexivo deu lugar à sessão de propaganda. Instalou-se, na definição feliz de Paulo Guinote, um “modelo assente na mera replicação da ideologia dominante e em formações de tipo doutrinário”.

Este é o modelo de quem não reconhece na classe docente a capacidade de reflectir sobre as suas práticas pedagógicas, de identificar interesses e prioridades formativas, de criar e transmitir autonomamente o seu próprio saber profissional. Há uma contradição de fundo naqueles que acreditam na capacidade dos alunos de construírem o seu conhecimento, mas ao mesmo tempo desconfiam dos professores. E acham que estes carecem de ser continuamente doutrinados e formatados pelos pedagogos do regime. Alunos que aprendem sozinhos com a ajuda do dr. Google e professores que precisam de ser ensinados à moda antiga: gira um mundo às avessas nas cabeças pensadoras que dirigem o ME…

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