Americanices

halloween.gifFoi por influência da criança lá de casa que, para a família de Paula Gerardo, o 31 de Outubro deixou de ser uma véspera de feriado como as outras. De há quatro anos para cá é “um delírio”. Caixões que são bolos de chocolate, pizzas-fantasma, salsichas em forma de dedo, hambúrgueres nos quais são espetadas seringas. As teias, os morcegos e as vassouras saem das paredes; este ano até há uma máquina de fumo. E a imaginação não tem rédeas. Nem no jantar, nem na decoração da sala, tampouco na hora de sair à rua na noite de Halloween, pelo Parque das Nações, em Lisboa, para interrogar os vizinhos: doce ou travessura?

[…] A influência está lá há algum tempo e ganhou força nos últimos anos, à boleia do acesso quase transversal a filmes, séries, jogos e música feitos do outro lado do Atlântico ou inspirados na mesma estética. “Os miúdos já não estão a importar nada de lado nenhum. Estas influências estão em todo o lado, numa conjugação de fontes”, diz Paula Gerardo.

“Muitos miúdos nem têm consciência da origem. É uma influência instalada”, diz também a professora Maria José Belinha. De tal forma que, em meia dúzia de anos, “a festinha confinada a bolinhos e abóboras” que se fazia na Escola Básica e Secundária Coelho e Castro, em Fiães – a 11 quilómetros de Santa Maria da Feira –, “americanizou-se ainda mais”. Os alunos desta professora de animação sociocultural foram espicaçados a fazer algo maior, a encenar “lugares assombrados”. Primeiro, a câmara disponibilizou-lhes um edifício abandonado no centro da cidade; no ano seguinte ocuparam a antiga escola de hotelaria. E há três anos deram o salto para o castelo.

Nas noites de sábado e quarta-feira estão lá recriados um hospital e um cemitério assombrados, um covil de feiticeiros, um circo e um freak-show. Exploraram-se contos e lendas anglo-saxónicas. Há bruxas, feiticeiras e fantasmas no paço, aves e repteis na masmorra. “É um espectáculo arrojado”, diz a professora, o que faz com que a festa de Halloween pensada para as escolas receba “milhares de visitantes”. Este é, aliás, o evento organizado pelos 60 alunos do curso de animação sociocultural “mais relevante do ano”, feito em parceria com o Projecto Alquimia, uma espécie de incubadora de projectos artísticos também nascida na escola de Fiães.

A notícia do Público analisa o impacto da cultura popular norte-americana nos interesses, gostos e hábitos das nossas crianças e adolescentes. O pretexto, claro, é a proximidade do Halloween, que começou por ser uma efeméride confinada às aulas de Inglês. Depois, pouco a pouco, as bruxas e as abóboras, os morcegos e as vassouras, os fantasmas e os esqueletos, foram ganhando visibilidade, nas escolas e fora delas, por esta altura do ano.

Contudo, os festejos do dia do bruxedo, bem como outros hábitos culturais de raiz anglo-americana, não se impõem apenas pela pressão dos media e do domínio avassalador da indústria cultural made in USA. Eles surgem como uma versão cada vez mais mercantilizada de celebrações de origem popular, que hoje dão muito dinheiro a ganhar aos organizadores de eventos alusivos à efeméride e aos fabricantes e vendedores dos disfarces, adereços e quinquilharia diversa usados nos festejos.

Pelo que, perante fenómenos complexos de aculturação, que não se restringem hoje ao Halloween, mas envolvem igualmente outras importações – a peça cita as festas de finalistas, a mediatização das campanhas eleitorais para as associações de estudantes – e os interesses económicos que lhes estão associados, qual deve ser o papel da escola? O de promotor e facilitador de todo o tipo de eventos? Ou, pelo contrário, deve tentar avaliar o seu real interesse cultural e educativo? Abrir-se acriticamente a todas as iniciativas do meio envolvente, ou promover o espírito crítico de crianças e jovens, estimulando uma verdadeira criatividade – que não se deve reduzir ao consumismo ditado pelas modas nem confundir com a mera reprodução de valores e normas culturais alheios?

É que reproduzir padrões culturais dominantes facilmente se pode traduzir em naturalizar a desigualdade social, domesticar a contestação social e política, reforçar estereótipos de género, socializar o consumismo e o conformismo. Uma perspectiva da realidade que felizmente não passa ao lado da peça jornalística que venho a citar…

Sofia Marques da Silva, investigadora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, estuda as culturas juvenis há mais de uma década e vê o mercado como “o grande promotor desta apropriação muito rápida” – uma lógica com origem nos anos 60, sempre associada às culturas juvenis mainstream, e agora potenciada por novos e velhos media.

Mas a investigadora tem dúvidas sobre quem está, afinal, a decidir o que é moda e o que não é. “Acho que os jovens, principalmente as crianças, têm pouco controlo sobre aquilo que determina algumas das suas opções e algumas das suas acções. Quem está a dominar este processo é muito mais o mundo adulto, que é quem tem o poder de dizer o que está na moda e o que não está”, considera.

Sem pôr em causa a boa intenção, vê que muitas “escolas, muito provavelmente de forma inconsciente, acabam por alimentar estas lógicas de mercado”. “Estão a socializar pequenos consumidores. Para além do stress que imputam às famílias – às mães, principalmente”, considera. Isto deve exigir dos professores cuidado nos eventos que organizam e na forma como os promovem: “O baile de finalistas, por exemplo, pode ser um desfile de desigualdades.”

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6 thoughts on “Americanices

  1. Quanto às escolas, agradeçam aos grupos de Inglês, convencidos que estavam a ser muito modernaços.
    Não se percebe esta necessidade de culto do grotesco, nostalgia do caos. Como se o mundo não fosse já suficientemente abjeto.

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  2. A escola abdica, de modo alarmente, da sua função crítica e, portanto, transformadora. Tanto assim é que, quando se faz a denúncia da ideologia opressiva que certas práticas carreiam, práticas que invadem as escolas a partir de dentro (que me seja permitida a expressão), como ocorre no caso em apreço, o crítico passa por ser um agente de uma “ideologia” de esquerda, um radical, ou, simplesmente, um parvo. O que nos é apresentado como neutro e bom, seja o halloween, seja a educação financeira, sejam os concursos de empreendorismo. Hoje, não há esferas da vida que não sejam esferas do mercado. Em todos os campos da existência social, pessoal e íntima dominam as forças que induzem ao consumo, ao pensamento conformista, à insensibilidade moral.

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    • Os festejos têm “evoluido” de tal forma que já se atingiu o mórbido e o cúmulo do mau gosto : numa escola aqui das redondezas , chegou-se ao desplante de colocar na entrada principal … uma urna funerária (ainda que improvisada). Arrepiante! Qual o alcance educativo ?

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