A motivação no ensino superior

dead-poets-society_f.jpgNo Básico e no Secundário, já conhecemos a teoria há muito tempo: despertar o interesse pelo que se pretende ensinar é o primeiro passo para garantir a eficácia do processo educativo. Só se aprende quando se quer e gosta de aprender. Pelo que motivar os alunos deve ser a prioridade para todo o bom professor. Claro que daqui a dizer-se que, se o aluno não sabe, é porque não foi devidamente motivado para aprender, vai um caminho muito curto. O corolário lógico, também o sabemos bem, é responsabilizar o professor “que não soube motivar” pelos insucessos dos alunos.

Pois bem, este discurso parece ter chegado já ao ensino superior: será que um estudante universitário, que escolheu especificamente o seu curso superior, também precisa de ser motivado da mesma forma que qualquer adolescente entediado ou rebelde a frequentar o ensino obrigatório? Terão os catedráticos de saltar para cima das mesas, ou tentar fazer o pino, para despertarem a atenção e o interesse dos seus alunos?

O físico Carlos Fiolhais analisa o problema e chega a uma conclusão diferente: contra a corrente das pedagogias dominantes, reafirma a importância de cultivar a autonomia e responsabilizar os estudantes pelas suas aprendizagens. Sem negar a importância da motivação, salienta uma evidência que demasiadas vezes se faz por esquecer: se não há aplicação, esforço e vontade de aprender da parte do aluno, não serão os malabarismos pedagógicos que irão ensinar-lhe alguma coisa.

“No ensino superior os alunos são adultos, portanto têm uma responsabilidade”, disse ao PÚBLICO o professor catedrático da Universidade de Coimbra […].

Apesar de admitir que há instrumentos que podem ser utilizados para captar a atenção, Fiolhais considera o segredo é a motivação. “Mas não é o professor que tem que motivar. Isso é um erro grande”, diz, acrescentando que essa perspectiva parte de uma “infantilização no ensino secundário” que se vai estendendo ao superior.

O problema estrutural vem de trás, refere: “Muitas vezes, a chave para entrar no superior são as explicações.” Nessa transição entre formatos de ensino, há a questão de os alunos estarem habituados ao que Fiolhais considera ser uma forma de “paternalismo”. “O saber exige esforço, a vontade e a atenção do próprio.”

Carlos Fiolhais, que já foi responsável por uma cadeira de comunicação de ciência, em que ensinava técnicas para transmitir melhor uma mensagem, admite que há falta de formação pedagógica nos docentes do ensino superior, mas entende que esse factor “não é o mais importante”. E prossegue: “Se o próprio (aluno) não se mobiliza interiormente, não há nenhum ilusionismo nem meios audiovisuais que valham.”

Se há “um conjunto de técnicas” que pode ser utilizado para passar a mensagem, essa capacidade “nunca substitui a de abarcar os assuntos. É uma ilusão que a forma pode substituir o conteúdo”, assegura o também director do Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho. “Tenho truques pedagógicos, tipo Clube dos Poetas Mortos, de subir para cima da mesa. Mas a minha experiência diz-me que é uma eficácia de curto prazo.”

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3 thoughts on “A motivação no ensino superior

  1. Subscrevo .

    Antes das “novas ” motivações que pupulam por aí nestes dias, houve outras técnicas de também “novas” motivações que tentaram (será que já não tentam?) fazer o seu caminho. Refiro-me a acções de formação sobre a importância da astrologia na motivação dos alunos, das cores e do Feng Shui .

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  2. Concordo. Há uma infantilização sim e os professores que seguem cegamente as ordens superiores e vão motivando, motivando e descurando os conteúdos (até os alunos ficarem nauseados com a própria motivação) são, de facto, responsáveis também por essa infantilização. No entanto, há um aspeto que seria bom relembrar: as metodologias, apesar desses exageros referidos não deixam de ter a sua importância. A forma como muitos professores do ensino superior olham para o trabalho dos professores do ensino não superior é, no mínimo, irritante. Acham que eles sim têm currículo académico, têm doutoramentos, fazem investigação, são por isso outra casta e isto apesar de muitos professores do ensino não superior serem também investigadores, terem graus de mestrado e de doutoramento. Seria bom lembrar-lhes que os colegas do superior dão aulas sem qualquer preparação pedagógica prévia para o fazer. Ensinar adultos é diferente de ensinar crianças , mas não deixa de ser “ensinar” e há diferentes metodologias e técnicas de comunicação que não conhecem , não estudaram, enquanto não há nenhum professor dos outros níveis de ensino, neste momento , que não tenha tido um estágio , estágio esse que não confere grau nenhum, mas consumiu tempo e sem ele não é possível a profissionalização . Lamentavelmente na formação de professores cometeram-se erros graves no sentido oposto (o que aconteceu nas ESEs) , privilegiando-se as metodologias, as psicologias e pedagogias em detrimento da Ciência que se vai ensinar.

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