Ritalina: é proibido proibir

candy-kids[1]A maioria dos deputados discordou nesta quarta-feira da proposta do partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) para proibir a prescrição de medicamentos para a hiperactividade e défice de atenção até aos seis anos, como a Ritalina, considerando que o Parlamento não pode interferir num acto médico.

O projecto de lei do PAN, debatido nesta quarta-feira em plenário, pretende proibir a prescrição de medicamentos que contenham as substâncias metilfenidato e atomoxetina a menores de seis anos, defendendo que quaisquer problemas detectados nestas idades, que “poderão ser normais e não associáveis a um diagnóstico de perturbação de hiperactividade com défice de atenção”, devem ser tratados não com medicamentos, mas com intervenção psicológica.

Não é difícil reconhecer as boas intenções do PAN: é sabido que em Portugal se consomem cada vez mais, e em idades cada vez mais precoces, medicamentos para controlar a hiperactividade, o défice de atenção e outras perturbações do comportamento em crianças e adolescentes.

Contudo, a verdade é que a prescrição de fármacos deve ser decidida por critérios clínicos e não por condicionantes de natureza legal ou administrativa. Em saúde mental, cada caso é um caso. E é ao médico que compete, pela avaliação em concreto que faz de cada criança, decidir a terapia mais eficaz e adequada. Este foi o entendimento geral do Parlamento sobre a proposta do PAN, que ficou sozinho a defender a sua proposta.

Ainda assim, com mais de vinte mil crianças e jovens a tomar Ritalina ou fármacos equivalentes, a pergunta é pertinente: não estaremos a recorrer demasiado aos comprimidos e menos a outro tipo de terapias? Provavelmente sim, por uma razão muito simples: os medicamentos permitem controlar os distúrbios comportamentais de uma forma imediata e pouco dispendiosa.

Com a Ritalina os meninos acalmam e, estando mais sossegados nas aulas, conseguem perceber melhor as matérias e concentrar-se mais nas tarefas. Na maioria dos casos, melhoram tanto o seu comportamento como os resultados escolares.

A alternativa à medicação seriam turmas mais pequenas e maiores apoios nas escolas para estes alunos. A “terapia comportamental” recomendada para estes alunos é dispendiosa e não é, regra geral, apoiada pelo Serviço Nacional de Saúde, o que é impeditivo para a grande maioria das famílias. Por vezes, as próprias famílias necessitariam de ser intervencionadas, pois não são raros os casos em que os distúrbios que os alunos apresentam na escola têm origem no ambiente familiar disfuncional.

Se a ideia é, como parece, poupar dinheiro no âmbito da saúde mental das nossas crianças, então o melhor mesmo é que, parafraseando o deputado André Silva do PAN, “de pequenino se tome o comprimido”…

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7 thoughts on “Ritalina: é proibido proibir

  1. Em 2005 o Instituto de Inteligência do Porto (ITP) realizou um estudo envolvendo 500 crianças com PHDA e concluiu que em 57% dos casos a causa desta doença estava directamente relacionada com o estilo familiar; e em 33% com o stress; crianças que raramente estão com os pais, com problemas no relacionamento com outras e com pouco tempo para brincar são mais susceptíveis à PHDA.

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  2. A energia, a impulsividade, a irreverência e o direito a serem ouvidos, abraçados e acompanhados, para poderem ser felizes, é-lhes retirado pela Ritalina.

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  3. A proporção de crianças diagnosticadas como hiperactivas varia muito de país para país e de cultura para cultura, o que faz supor que, mais do que uma “doença”, a incidência desta perturbação tem sobretudo a ver com valores culturais e com o ambiente social e familiar.

    Continuo a pensar que, num país onde nunca se tiveram tão poucos filhos, se deveria investir mais nas crianças, dando-lhes a atenção, o afecto e as regras de que necessitam para se tornarem pessoas felizes e equilibradas. Em vez de comprimidos e telemóveis…

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  4. “Contudo, a verdade é que a prescrição de fármacos deve ser decidida por critérios clínicos e não por condicionantes de natureza legal ou administrativa.”
    Devem ser os médicos a decidir se o haxixe se pode usar para fins medicinais?
    E fármacos que tenham a ver com a eutanásia só dizem respeito aos médicos?

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    • O que pode ou não ser usado como medicamento não é decidido pelos médicos.

      Na generalidade dos países é uma agência estatal, no caso português o Infarmed, que avalia os novos medicamentos e aprova, ou não, a sua introdução no mercado. Daí para a frente, compete aos médicos aplicá-los, fazendo uso da sua ciência e do conhecimento que têm dos seus doentes.

      Quanto à eutanásia, julgo que não existem drogas específicas para esse efeito. Mas aí trata-se de uma questão ética e política que obviamente transcende o âmbito da medicina. Não se trata de saber qual a terapia mais adequada para tratar um doente, mas de, perante o sofrimento e a ineficácia dos tratamentos, respeitar – ou não – o desejo daqueles que não querem continuar a viver.

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