Greve cirúrgica

greve-cirurgica“É uma ideia inovadora. Nunca ninguém fez nada disto na enfermagem”. Catarina Barbosa faz parte do grupo de cinco enfermeiros que lançou uma campanha de angariação de fundos para apoiar os profissionais de enfermagem que adiram a uma greve prolongada nos blocos operatórios de três hospitais públicos. Como não asseguram serviços mínimos (exceto urgências), estes enfermeiros perdem o vencimento referente ao dia de trabalho, pelo que o objetivo é criar um fundo solidário para que recebam 42 euros por cada dia de paralisação. Até às 18.00 desta sexta-feira, contavam com mais de 64 500 euros recolhidos, 21% do objetivo final (300 mil euros), que pretendem alcançar até ao dia 5 de novembro.

Os promotores chamam-lhe “greve cirúrgica”, porque pretende “parar todos os blocos de três centros hospitalares do país”: o Centro Hospitalar de São João, no Porto, o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e o hospital de Santa Maria, em Lisboa. “São os principais hospitais do país. Quanto mais cirurgias adiadas, maior será o impacto”, explica ao DN Catarina Barbosa, adiantando que os promotores vão reunir com os apoiantes esta terça-feira, na Secção Regional do Norte da Ordem dos Enfermeiros, estando prevista uma conferência de imprensa no mesmo local para as 16.30.

O conceito de greve cirúrgica que entre os enfermeiros se pretende desenvolver pode perfeitamente aplicar-se a outras profissões, mesmo às que não intervêm em cirurgias. Os professores, por exemplo. Há situações muito concretas em que uma greve, feita por um grupo limitado de professores, dirigida a uma actividade específica ou a um universo restrito de alunos, pode ter um impacto muito elevado. Enquanto um ou dois dias de greve nacional, mesmo que mobilizando, vamos supor, uma centena de milhar de docentes, rapidamente se desvanece.

A greve às avaliações do ano passado foi disto um bom exemplo. O ME incomodou-se pouco com as reuniões do ensino básico que em algumas escolas só se realizaram em finais de Julho. Em contrapartida, não tolerou quaisquer atrasos que pudessem comprometer o calendário dos exames e das candidaturas ao ensino superior. E se os professores, em vez de andarem a fazer greve a todos os conselhos de turma, tivessem concentrado o esforço nos do 12º ano, com toda a gente a contribuir para que apenas alguns fizessem greve?

Ou, numa situação diferente, imagine-se a realização de uma greve prolongada num número restrito de escolas previamente seleccionadas. Em que apenas alguns professores fariam greve, mas todos sustentariam financeiramente o seu esforço.

Atacar apenas no ponto onde dói verdadeiramente, em vez de consumir dinheiro e energias em lutas inconsequentes pode ser, em muitos casos, a melhor estratégia. Até porque os tempos que correm se mostram pouco propícios a acções de luta colectiva. Mas também está mais do que demonstrado que a conquista de direitos e a resolução de problemas dos trabalhadores só se consegue pela união de esforços em torno de objectivos comuns.

Os professores não são os enfermeiros. Cada classe profissional tem as suas especificidades e formas específicas de se organizar na luta pelos seus direitos. Mas os exemplos que uns e outros nos vão dando podem e devem ajudar à nossa reflexão…

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One thought on “Greve cirúrgica

  1. Tem que ser essa a via. De nada vale mais uma greve inconsequente, de nada vale mais uma manifestação ritual. É preciso eficácia. É preciso assumir que se quer vencer. É preciso não ter ilusões quanto à unidade dos professores: todos se regozijarão, se o desenlace da luta for a nossa vitória, com as melhorias, mas, entretanto, uma quantidade não negligenciável de merdas só quer saber do seu fim do mês (mesmo que esteja bem mais confortável economicamente do que quem dá o corpo ao manifesto), só quer saber dos alunos (coitadinhos, coitadinhos), só quer saber de trabalhar (não são malandros como esses grevistas). Uma luta ou é para ganhar ou não é luta!

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