Alunos sem professores

EscolaSantaMariaOs 26 alunos de uma turma do sétimo ano da Escola Básica de Santa Maria, em Beja, estão sem professor em sete das 15 disciplinas que constituem a sua matriz curricular desde o início do presente ano lectivo, devido à inexistência de docentes colocados.

A situação foi denunciada em comunicado pelos pais e encarregados de educação dos alunos, lamentando a inexistência de colocação de sete docentes, “inclusive de director/a de turma, correspondentes às disciplinas de Português, Inglês I, História, Complemento à Educação Artística, Cidadania e Desenvolvimento, Mundo Actual e Educação Moral e Religiosa Católica”, sendo que o docente da disciplina de Francês II aceitou a sua colocação apenas na passada semana.

O caso desta turma de Beja tornou-se notícia na semana passada, face ao elevado número de professores em falta. Entretanto a situação já se terá, pelo menos parcialmente, resolvido, mas o problema de fundo subsiste: há uma necessidade crescente de substituir professores durante o ano lectivo. E uma dificuldade cada vez maior de o fazer de forma célere, devido à falta de candidatos ou às sucessivas desistências.

Quando comecei a ensinar, éramos todos muito mais jovens e saudáveis e os ambientes escolares, de uma maneira geral, menos tóxicos – apesar dos revestimentos com amianto então existentes em inúmeras escolas! Nessa altura, a maioria das substituições temporárias ocorriam por uma boa razão: professoras que entravam em licença de maternidade. Hoje, uma professora grávida é uma raridade na maior parte das escolas; em contrapartida, são muitos os professores de ambos os sexos doentes e exaustos, que não conseguem aguentar o stress e o excesso de trabalho durante todo um ano lectivo. Calcula-se que as baixas por doença atinjam já perto de 10% da classe docente, sendo metade delas de longa duração.

À medida que o envelhecimento da classe se acentua e o acesso à aposentação é dificultado ou desencorajado pelos cortes elevados no valor das pensões, o número de professores que deixa de estar em condições de suportar as exigências da profissão não deixará de aumentar. As pseudo-reformas da flexibilidade e da inclusão são essencialmente, como de dia para dia se vai tornando mais claro, formas de sobrecarregar com mais trabalho, responsabilidades e burocracias o quotidiano docente, tornando-o ainda mais penoso para os professores.

Por outro lado, o imenso “exército de reserva” constituído por dezenas de milhares de professores qualificados e desempregados, sempre prontos a ocupar qualquer vaga surgida durante o ano, é uma realidade que está a desaparecer rapidamente. Sem um lugar estável no ensino, a maioria dos jovens professores acabarão por seguir outras carreiras mais compensadoras, em Portugal ou no estrangeiro. A escassa procura, que já hoje se nota, dos cursos de formação de professores, significa que de ano para ano o número de novos profissionais irá diminuir. E é bem sabido que, dentro de uma década, os actuais professores começarão a sair em massa do sistema, por atingirem a idade da aposentação. Voltaremos, se nada for feito entretanto, aos tempos das “habilitações suficientes” e “mínimas”, em que, perante a falta de docentes habilitados, qualquer pessoa que tivesse concluído o secundário podia ir dar umas aulas…

Perante isto tudo, não duvido de que a forma como o ME despreza e maltrata os profissionais da Educação e ignora os seus problemas, anseios e necessidades é um problema bem mais grave e premente do que as cosméticas curriculares que se vão elegendo como prioridade de actuação no sector.

Os professores são o activo mais importante de um ministério que se diz da Educação. É com eles que os alunos aprendem. Estimá-los, valorizar o seu trabalho e a sua carreira, fornecer-lhes meios e recursos, deveria ser preocupação central de qualquer governo. Não que o ME deva ser o ministério dos professores. Mas quem o gere deveria ser capaz de compreender que quem efectivamente ensina e educa nas escolas não são os cientistas, tecnocratas e burocratas da Educação – são os professores. Deveria, por essa razão, gerir a Educação com os professores. Não, como demasiadas vezes sucede, contra eles.

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3 thoughts on “Alunos sem professores

  1. Olá António, eu sou uma das Encarregadas de Educação da Turma supramencionada e, por acaso, sou Professora…apenas uma correção ao Artigo: o não funcionamento de sete disciplinas mantém-se, nada foi resolvido!

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    • Agradeço a informação actualizada.

      Admiti que já tivessem colocado alguns dos professores em falta na última reserva de recrutamento, até porque li declarações nesse sentido da parte do ME e sei que costumam mexer-se quando se sentem pressionados pelos pais e pela divulgação na comunicação social. Afinal, nem assim…

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  2. A situação já foi reportada através de uma Exposição Formal Subscrita à Exma. Senhora Diretora Regional de Educação da Direção Regional de Educação Alentejo – DGEstE, à Exma. Senhora Provedora de Justiça e ao Exmo. Senhor Inspetor-Geral da Educação e Ciência…nem assim!

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