“Os professores são vítimas de uma organização que os adoece”

raq-varelaNa sequência da divulgação do estudo sobre as condições de vida e trabalho dos professores, de que já aqui se falou, o Público entrevistou a coordenadora do estudo, Raquel Varela.

Ficam algumas das respostas da investigadora, retratando uma realidade na qual, suponho, a generalidade dos professores se revê sem dificuldade. Mas que nem sempre é fácil de transmitir para a opinião pública. Os títulos e os sublinhados são da minha responsabilidade.

Em vez de pedir aos professores que façam cada vez mais, é preciso melhorar a organização e as condições de trabalho.

Os professores são vítimas de uma organização de trabalho que os adoece. Só quando entendermos isso, podemos criar políticas que modifiquem a situação. Não vale a pena ir ter com os professores e dizer-lhe para eles fazerem mais nestas condições, porque só os vamos adoecer mais e ter uma escola pior. Enquanto eles não estiveram bem, não vamos ter boa escola.

Responsabilizar os professores pela indisciplina, em vez de a reconhecer como um problema dos alunos e da escola, fragiliza os docentes. E não resolve o verdadeiro problema.

Os professores que estão mais preocupados com a indisciplina são também os que estão mais exaustos emocionalmente. Nós não sabemos como evoluiu a indisciplina no país nos últimos 40 anos, o que sabemos é que a forma de lidar com a indisciplina mudou dentro das escolas. Os casos de indisciplina eram vistos como um problema da escola e da sociedade não como um problema do professor, que individualmente não soube lidar com aquele aluno individualmente dentro da sala de aula. Isso é um factor de exaustão emocional porque responsabiliza individualmente um professor por situações que na esmagadora maioria das vezes não estão na sua competência nem têm origem em si.

O desejo generalizado de ir para a reforma demonstra que os professores estão exaustos e, ao contrário do que era comum, não se conseguem hoje realizar profissionalmente.

Há uma relação entre a exaustão emocional e o desejo de reforma, mas os níveis de desejo de reforma antecipada são generalizados. Estamos a falar de quase 90% dos professores, o que é algo muito preocupante. Generalizou-se na sociedade portuguesa a ideia de que o sonho das pessoas quando estão a trabalhar é deixarem de trabalhar. Mas isto não era assim há 20 anos. As pessoas entravam em depressão quando deixavam de trabalhar. Gostavam do trabalho porque era um lugar onde podiam desenvolver-se, onde se realizavam.

Hoje em dia, com os níveis de sofrimento no trabalho, temos o contrário. O desejo das pessoas é deixar de trabalhar. E isto tem também que ver com a alteração da organização da escola. O fim da gestão democrática (as pessoas sentem só que executam ordens), a falta de reconhecimento público da profissão. E para o que é que se educa? A educação passou a ser para o mercado e não para formar seres humanos completos.

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2 thoughts on ““Os professores são vítimas de uma organização que os adoece”

  1. Será nestes pontos (designadamente no que respeita à exaustão emocional) que os professores e sindicatos deverão – também – bater “forte e feio”. A remediação das mazelas enunciadas no texto não trariam – pelo contrário – custos para o erário público e, daí, a tutela não ter qualquer razão para se opor ( a não ser por sadismo, passe o exagero).
    Reparo que , nas listas semanais de RR , entre centenas e centenas(!) de docentes colocados, a quase totalidade dos horários têm a notação… temporário. Poderei interpretar como sendo resultado de baixas médicas apresentadas pelos seus titulares? Se sim, que impacto poderá ter , neste número, a exaustão emocional? É imperioso agir, mas agir mesmo!

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    • O elevado número de professores de baixa, o aumento expressivo, ano após ano, das mobilidades por doença e a quantidade de substituições temporárias de professores doentes: tudo isto deveriam ser sinais de alerta para os governantes.

      Nalgumas zonas do país já vai havendo dificuldade em preencher estes lugares, ficando os alunos semanas a fio sem aulas.

      Mas prefere-se empurrar os problemas com a barriga, à espera que se resolvam sozinhos. Não vai acontecer…

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