“Sou professor e hoje um aluno partiu-me os óculos”

51aidIRWkoL._UX466_.jpgOs óculos foram à vida e algumas lágrimas, presas, ficaram por chorar. Meio cego, a ausência dos óculos é a cicatriz que não consigo esconder durante os próximos dias, a violação do corpo, a cobardia do desafio sem resposta.

Não se fala disto, eu não falo disto, se me perguntarem está tudo bem e, ao chegar a casa, foi mais um dia normal. Mas isto não é normal, ainda não estou em mim, interiorizo tudo e isto também, estou calado, ando mudo, há-de passar mas não passa e só através da escrita consigo fazer a catarse.

Contexto: trabalho numa escola de alunos excluídos do ensino secundário por problemas de comportamento. Como os miúdos têm a mania de fazer “cavalinhos” no meio da estrada à hora de almoço e no meio do trânsito, temos de lhes prender as bicicletas a cadeado.

Estava de plantão no recreio, só para ter a certeza que não havia problema nenhum, quando um aluno veio ter comigo e exigiu que lhe desprendesse a bicicleta.

Disse-lhe que não, que não podia, só ao fim do dia, por uma questão de segurança. O aluno insistiu e ordenou, acrescentando precisar da bicicleta à hora de almoço e, como mais uma vez lhe disse não poder, o rapaz não hesitou, agarrou-me os óculos e atirou-os violentamente contra o chão.

Quinhentos euros para o chão, talvez mais, assim, num par de segundos.

Voltei para dentro da escola e afastei-me do aluno, aluno esse que entretanto fugiu a correr rua abaixo, ou assim me disseram depois. Não estava em mim.

O testemunho, emotivo e revoltante, saiu ontem no Público e refere-se a uma das facetas mais penosas e sombrias da profissão docente: aquelas ocasiões em que um aluno descompensado, frustrado, violento ou apenas mentalmente desequilibrado agride o professor. Foi, naturalmente, partilhado em blogues e redes sociais.

Mas parece-me que poucos se terão apercebido de um pormenor: embora o autor seja português e professor, ele não trabalha em Portugal. É professor, já há alguns anos, em Inglaterra, onde a situação descrita se terá passado.

Na verdade, João André Costa é um nome relativamente conhecido da mais jovem geração de professores, pois durante anos animou o blogue Como dar aulas em Inglaterra, no qual ajudava outros jovens professores, fustigados pelo desemprego em Portugal, a tentar a sua sorte em terras britânicas.

Mesmo desconhecendo o autor, há uma parte da peça publicada que não deixa dúvidas a quem, conhecendo a realidade educativa nacional, a ler com atenção: este desfecho dificilmente se poderia passar, desta forma, numa escola portuguesa. Os subtítulos são da minha responsabilidade. A reflexão sobre o que é verdadeiramente a autonomia das escolas e o ensino centrado nos alunos e nas suas necessidades, essa cabe-nos a todos…

E se pensam que a escola, e consigo a direcção, se estiveram nas tintas e que este é mais um texto para incendiar opiniões, estão enganados. Cinco minutos depois já tinha o director ao meu lado a querer saber de mim, como estava, o que é que podia fazer, e que não me preocupasse com os óculos que a escola paga tudo.

O resto do dia foi um corrupio de gente a querer inteirar-se do meu estado, que eu tinha feito tudo bem e nada mais havia a fazer numa situação destas. Não entrei em conflito com o aluno, desviei o olhar, repeti a mensagem. Podia ter-me afastado, mas estava com as costas coladas ao portão. Não havia nada a fazer.

O aluno em questão já não volta para esta escola, continuando a sua escolaridade num outro pólo, mais pequeno, com mais professores e profissionais, psicólogos, terapeutas, assistentes sociais, mais ajuda, por conseguinte, para o aluno e para os pais.

6 thoughts on ““Sou professor e hoje um aluno partiu-me os óculos”

  1. 1. O professor ou o vigilante de parque de estacionamento?

    2. O diretor é a cópia dos nossos: amigo, companheiro, acessível, etc. Exatamente igual!

    3. A solução a dar ao aluno é uma imitação barata do que se passa também entre nós.

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  2. Estive a ler o artigo e reparei num aspeto que também é referido num dos comentários. Refere o articulista: ” Não entrei em conflito com o aluno, desviei o olhar, repeti a mensagem”.Portanto, considera-se boa prática, desviar o olhar quando se fala com o aluno? Como se estivéssemos a lidar com gorilas?Chegou a este ponto a relação com os alunos? Ou será uma nova ortodoxia anglo-saxónica a importar numa futura reforma do nosso ensino?

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    • Além dessa, houve outra coisa que me causou impressão: a flexibilidade que existe para sanar o conflito – transfere-se de escola o miúdo problemático, paga-se uns óculos novos ao professor, dá-se a um e a outro o conforto psicológico necessário para que superem e fiquem bem – e a rigidez das normas do estacionamento das bicicletas. Permitir que o aluno, depois de explicar a sua urgência, e a título excepcional, levasse a bicicleta, teria provavelmente evitado o que aconteceu.

      Não tenho dados suficientes para um juízo definitivo, mas talvez uma conversa a “olhar nos olhos” antes de o aluno perder a cabeça pudesse ter evitado a agressão e o posterior “olhar de esguelha”…

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      • Embora desconhecendo os detalhes, o seu (do A. Duarte) último parágrafo do comentário é sensato.

        Importante prestar atenção e estar atento.
        Daí o desgaste da profissão -a resolução de conflitos.

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  3. Seja lá o que está para trás, a atitude deste aluno tem que ser inequivocamente punida. Comete agressão e humilhação sobre o professor!

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