Os sindicatos de professores e os seus dirigentes

Paulo Guinote escreveu sobre o sindicalismo docente, tomando como ponto de partida uma questão que tem permanecido envolvida em despropositado secretismo: quantos são os dirigentes sindicais com redução total ou parcial do serviço lectivo e como se distribuem pelos diferentes sindicatos?

O Paulo teve acesso à lista das dispensas concedidas anualmente, que a DGAE deixou de divulgar publicamente, mas continua acessível na sua página, na área reservada às direcções escolares. Encontrou 337 sindicalistas, dos quais 143 estarão a tempo inteiro no respectivo sindicato. E elaborou, com os dados disponíveis, a seguinte tabela:

sindicatos-red1.png

Os dados em si não constituem grande surpresa, a não ser talvez pelo peso relativo que continuam a ter alguns sindicatos – SIPE, SPLIU, SEPLEU, SINDEP – que, pela reduzida intervenção pública e escassa ou nula presença nas escolas, quase diríamos inexistentes.

De resto, a Fenprof confirma-se como a maior federação sindical e o SPGL como o sindicato com o maior número de dirigentes e associados.

Mas talvez a questão mais interessante que estes dados suscitam tenha a ver com a forma como contradizem um lugar comum do discurso anti-sindical: não, eles não são todos iguais! E isso vê-se, desde logo, na forma como distribuem as dispensas – e o trabalho sindical – entre os dirigentes.

Para começar, temos o caso notável do SPGL, que cumprindo uma tradição antiga não tem nesta lista nenhum dirigente com redução integral. O que significa que todos os 58 sindicalistas aqui somados têm pelo menos uma turma ou duas na escola de origem. Mas esta não é a linha dominante nos sindicatos da FNE: a esmagadora maioria dos seus dirigentes está a tempo inteiro no sindicato.

Diga-se contudo, em abono da verdade, que tanto a opção de ter menos dirigentes com redução, mas com maior disponibilidade, como a de ter mais sindicalistas envolvidos, mas menos disponíveis, têm vantagens e desvantagens.

Para os dirigentes de topo, é praticamente impossível, tendo em conta o que lhes é exigido, serem em simultâneo bons professores e bons sindicalistas. E entre os professores do 1º ciclo a duração e a falta de flexibilidade dos seus horários impossibilita, na prática, os horários a tempo parcial – a não ser que não haja atribuição de turma.

Por outro lado, também é reconhecida por todos a vantagem de os sindicalistas não perderem o contacto com as escolas e o trabalho de professor. De sentir na pele os problemas, as dificuldades mas também os pequenos prazeres do quotidiano docente. E serem dessa forma, enquanto sindicalistas, representantes mais fiéis e autênticos do sentir colectivo da classe que representam.

Mais importante do que a questão das reduções integrais, que só é verdadeiramente grave quando é levada ao extremo da concentração máxima, é o problema da renovação dos quadros sindicais. Aqui sim, haverá mudanças a fazer em quase todos os sindicatos. Que contudo, e provavelmente, terão de esperar: o envelhecimento da classe docente, a impopularidade actual dos sindicatos e do trabalho sindical, a dessindicalização de muitos descontentes e desiludidos, nada disto favorece a renovação do sindicalismo docente.

A reconciliação dos professores com os seus sindicatos irá ser demorada, e talvez já nem aconteça com a actual geração de professores, o que é lamentável. Pois por muitos defeitos que os sindicatos possam ter, ainda não se inventou outra forma de organizar eficazmente uma classe profissional na defesa dos seus direitos.

4 thoughts on “Os sindicatos de professores e os seus dirigentes

  1. Li algures que são precisos “líderes exemplares”.

    Li algures que as greves que se aproximam deviam ter uma adesão mínima.

    Leio na opinião pública uma certa tendência para se dizer que os sindicatos deviam ser ilegalizados.

    E mais não comento. Como alguém me dizia hoje, o melhor é a gente viver 1 dia de cada vez.

    Gostava de conseguir isso. Bem que treino mas é difícil.

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    • Eu também estranho um pouco os timings de certos debates em que os professores insistem.

      Mas não receio a discussão. E até me diverte um pouco…

      Escrutine-se a fundo o sindicalismo docente, se é isso que se pretende. Duvido é que os mais empenhados em demonstrar determinadas coisas consigam chegar às conclusões preconcebidas.

      Claro que quando o querer saber certas coisas – e eu também quero! – é apenas uma fachada para uma luta que visa enfraquecer os sindicatos, deveria haver a consciência de que isso são verdadeiros tiros no pé.

      As pessoas estão convencidas que não conseguiram isto e aquilo por causa da falta de estratégia dos sindicatos. Não é verdade. Experimentem ir lá com “a Ordem” ou, teoria mais recente, “o processo nos Tribunais!” e logo vêem o que conseguem.

      Os sindicatos espelham, até certo ponto, aqueles que representam. A fraqueza dos sindicatos é a fraqueza dos próprios professores. E há gente que bate nos sindicatos porque olha para eles e não gosta do que vê. Mas na realidade o que está a ver é a imagem dos próprios professores.

      E explicar isto ao pessoal de uma forma simpática?…

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      • É assim, tenta-se explicar isto de uma forma simpática mas leva-se pancada de todos os lados, o que me diverte tb porque não é para levar muito a sério e a gente até que se distrai um pouco……

        Quanto aos “líderes exemplares”, lembrei-me, sei lá ,de um Gandhi, de um Mandela, de um MLKing, até vou mais longe e fico já aqui com um …..Malcom X, mais violento. Sei lá eu……

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