Leituras: Uma aldeia transmontana

tras-os-montes.jpgPouco diferente da época remota em que a tinham funda­do como povoado, a aldeia era ainda uma rua de casas de pedra solta, cortada por meia dúzia de becos ladeados de pa­lheiros, estábulos, pocilgas, aqui e além um curral, um pal­mo de horta.

Ao cimo, junto da igreja e a única com reboco e cal, fica­va a casa dos Pimentéis, gente da pequena aristocracia da província, latifundiários, donos da «Casa Grande» de Caste­lo Branco e, desde gerações, também mais ou menos «do­nos» da Câmara e da influência política no concelho de Mogadouro.

Ao fundo ficava a capela. A rua, longa, quase a direito e nalguns pontos larga de dez metros, era de piso desigual, porque afloravam nela rochedos que nada conseguia desgas­tar. No começo do Inverno, seguindo a largura das casas até ao meio da calçada, cada um deitava montes de palha corta­da que depois, trilhada pela passagem da gente e das bestas, ensopada pela chuva, as penicadas e o lixo das casas, não tardava a fermentar. Nuvens de moscas e mosquitos cobriam tudo, mordiam com uma ferocidade de praga bíblica, mas o hábito da sujidade era consagrado pelo tempo, e o adubo indispensável para uma terra que a natureza fizera pobre. Ninguém se lembraria então de associar a estrumeira da rua e a das casas — onde os animais tinham estábulo no rés-do-chão — com as terríveis doenças que os afligiam.

Poucos eram também os que escapavam às «febres», a malária que os punha escaveirados, magros como espetos, e os atormentava no pino da canícula com calafrios que ne­nhum lume aquecia, seguidos de ardores que pareciam os das chamas do inferno.

Morriam da malária e da cólera, do tifo, da tuberculose, do antraz, do vómito-negro, mas também do desleixo e do isolamento. Levavam-se os doentes a cavalo ou de liteira pa­ra Moncorvo, viagem dum dia inteiro por maus caminhos e, chegados lá, o único médico ou não estava ou dizia-lhes que esperassem; se não queriam ou não podiam fossem à Pes­queira, dois dias mais longe. Por isso se curvavam ao que lhes parecia a vontade do Senhor e este, misericordioso, às vezes aceitava-lhes as orações, obrava curas milagrosas. De milagres eram também capazes os ciganos, que sabiam dis­tinguir os carbúnculos e outras feridas ruins, e as faziam de­saparecer queimando fundo a carne com um ferro em brasa.

No Verão, porque a pouca água se tornava salobra, ha­via mais doenças e sobretudo os pequenitos morriam como passarinhos: levava-os o sarampo, as «bexigas», a soltura; acontecia fenecerem dum momento para o outro e dizia-se então que era um bem, uma caridade de Deus que os chama­ra a si para lhes poupar o sofrimento de viver.

J. Rentes de Carvalho, Ernestina (2009).

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