Depois da manifestação: o que fazer?

manif1Depois de uma manifestação de 50 mil professores que  cumpriu, ou excedeu até, as melhores expectativas, a luta dos professores não deve parar. Contudo, a fasquia é, agora, mais elevada. O governo não pode mais ignorar o descontentamento da classe. Mas os sindicatos que a representam também não podem continuar a deixar-se entreter com conversa mole e sucessivos adiamentos dos problemas que continuam por resolver.

A convicção generalizada é que os sindicatos partem agora em posição reforçada para as previsivelmente difíceis negociações com a tutela, aumentando também a pressão sobre os deputados que, na próxima semana, vão ouvir o ministro no Parlamento. “Foi extraordinário e isto dá-nos uma força enorme”, defendeu. “O senhor ministro não pode continuar a fingir que não se passa nada, que não sabe o que se passa, que as pessoas estão satisfeitas com o que está a acontecer. Não estão. Há uma grande insatisfação”.

A questão de fundo é uma só, e muito simples: as reivindicações dos professores, a serem atendidas, terão um impacto muito significativo nos próximos orçamentos de Estado. E o governo não assumirá nunca esse aumento de despesa, a não ser que os professores o obriguem a fazê-lo. O que implica, naturalmente, luta e sacrifício para tentar conseguir algo que, apesar de ser justo e alcançável, nunca estará garantido à partida.

Em termos concretos: o ME agendou, nas vésperas da manifestação, reuniões negociais com os sindicatos para os dias 4 e 5 de Junho. Ora este timing, não é preciso ser grande estratega para o perceber, tem um objectivo muito simples: destina-se a impedir que, perante uma proposta desfavorável aos professores, não haja já tempo para a marcação de uma greve às reuniões de avaliação do 9º, 11º e 12º anos, que são nos dias seguintes. E cujo adiamento iria desorganizar todo o esquema montado em torno dos exames nacionais que os alunos farão logo a seguir.

Embora nos discursos da manifestação tivesse ficado no ar a ameaça de greve, sejamos sérios: a greve aos exames nunca foi uma forma de luta eficaz e, no actual quadro legal, é facilmente anulada com a convocação dos serviços mínimos. Pelo que, depois de um ano lectivo em que não só nenhuma das questões fundamentais dos professores foi resolvida como ainda se criaram novos problemas – vejam-se as trapalhadas sucessivas em torno dos concursos – resta a greve às avaliações finais como arma decisiva dos professores para forçar negociações sérias e conclusivas para tudo o que permanece, há demasiado tempo, por resolver.

A Fenprof elegeu o presente ano lectivo como o tempo de “resolver problemas”. Mas o ano aproxima-se do final a passos largos e nada está ainda resolvido nem pode ser mais adiado. Parece-me por isso pertinente considerar, desde já, a divulgação de um pré-aviso de greve para o período das reuniões de avaliação. Porque uma coisa é negociar em posição de força – sabendo que há a possibilidade de recorrer a outras formas de pressão se as coisas não correrem bem. Outra coisa é, sem trunfos na manga, continuar a confiar numa boa vontade do governo para com os professores que, em boa verdade, nunca chegou verdadeiramente a existir.

Se a ameaça de greve é para levar a sério, ela tem de ser direccionada para onde pode fazer estragos, que é no adiamento sucessivo das reuniões de avaliação. E tem de ser anunciada rapidamente.

One thought on “Depois da manifestação: o que fazer?

  1. Seria bom que se fizesse chegar este texto aos sindicatos. Será que eles não puseram sequer esta hipótese?
    É que os professores começam a ficar cansados de tanto “engonhanço” e,tal como diz e muito bem, se ficam à espera da reunião com o ministro dia 4, já não haverá hipótese de convocar greve às reuniões dos anos de exame que seriam as que maior impacto teriam.
    Começa a não haver paciência para tanta espera, tanta reunião e resultados zero.

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