A flexibilidade em balanço

flex-fail.gifResponsáveis governamentais, directores escolares e investigadores universitários: a santa aliança presente em todas as reformas e pseudo-reformas educativas remete os professores no terreno à condição de meros executores e, no momento de fazer o “balanço” à forma como está a decorrer a experiência pedagógica, só vê vantagens no novo modelo:

Alunos mais motivados, professores mais atentos às necessidades destes e resistências, sobretudo no que respeita ao modo de avaliar os estudantes, o que passou a ser um trabalho diferente do habitual. Estes foram alguns traços apontados nesta sexta-feira por directores e investigadores sobre o que tem sobressaído nestes primeiros seis meses de aplicação do projecto-piloto de flexibilidade curricular.

Aprendizagens “mais ricas”, conhecimento “mais profundo”, alunos mais “envolvidos”, salas de aula mais “desarrumadas”: eis as principais vantagens que foram reconhecidas ao novo modelo de aprendizagem pela generalidade dos intervenientes.

Quanto a problemas, apenas um foi apontado: a avaliação. No secundário, nomeadamente, sente-se a pressão dos exames nacionais, onde o que conta é o domínio das matérias do currículo nacional e não o envolvimento nos projectos escolares. Nas entrelinhas, fica a bailar uma ideia preocupante: estarão já a congeminar a melhor forma de eliminar esse contratempo?…

Nos anos e ciclos onde não existem provas nacionais a pressão é menor, mas ainda assim subsiste um imperativo para quem, nesta altura do campeonato, ainda insista em fazer uma avaliação rigorosa dos alunos: a necessidade de reformular instrumentos e critérios de avaliação, adequando-os à nova realidade que se tenta implementar.

Já no fim da notícia, contudo, há um interveniente que se “estica” um pouco e, contrariando um pouco o tom cor-de-rosa e o ambiente consensual que sente ao longo da peça, atira: “Os professores estão mais atentos, mais críticos e mais preocupados em que as aprendizagens sejam verdadeiramente significativas para os estudantes.”

Como disse? Será que antes de o actual governo ter reinventado, em versão século XXI, a área-escola dos anos 90, os professores andavam desatentos e despreocupados com o que os seus alunos aprendiam? E se a atitude é esta, o que poderão esperar docentes que, como é o meu caso, mantêm muitas dúvidas, inteiramente legítimas, sobre um modelo de desconstrução curricular que, aplicado de forma generalizada no sistema educativo, tem tudo para correr mal?

Se é pela crítica acintosa aos professores que esperam converter-nos a uma causa que está longe de nos convencer, estão a ir por mau caminho. Que, contudo, é provavelmente o único que conhecem algumas das luminárias envolvidas neste projecto: o do confronto, da menorização e subordinação dos professores.

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10 thoughts on “A flexibilidade em balanço

  1. Tentar descobrir algum reconhecimento pelo trabalho dos professores, nestes artigos sobre educação do Público, é como procurar perfume no cano de esgoto.
    Relativamente à ideia que se tenta instalar na cabeça das pessoas, de que existe um conflito entre trabalhar para o exame e aprender verdadeiramente, penso que isso resulta do fato dos programas estarem atafulhados e não haver margem de tempo para o professor desenvolver certos assuntos com mais profundidade, ou mesmo apresentar temas alternativos.
    Quanto a mim, acabar com exames é equivalente a introduzir mais opacidade no sistema.

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    • Concordo, um exame pode servir para avaliar conhecimentos relevantes e aprendizagens significativas, assim como pode servir apenas para testar minhoquices. Tudo depende da forma como for elaborado. Defendo a manutenção dos exames no final do básico e do secundário; parecem-me um contraponto adequado à avaliação contínua que deve ser preponderante.

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      • Completamente, mas completamente de acordo com o que escreveu sobre para que deve servir um exame e sobre isto:

        “Tudo depende da forma como for elaborado”

        Vamos lá à memórias como EE. Para não me perder, vou por pontos:

        1- Exame de Matemática – um longo texto de introduçao ao exercício. Falava-se do Verão, da praia, do sol, das águas quentes, aproveitava-se para (talvez numa de transversalidades) alertar sobre o perigo da exposição solar entre as 12h e as 17h, etc. No final, a instrução, agora resolve esta equação.

        2- Exame de Português do 12º ano. Actividade sobre de Eça de Queiróz. Perguntava-se aos alunos como se chamava o gato.

        Confesso que na altura estava muito dentro dos critérios de avaliação, especialmente dos de Português. Em 2 alturas pedi recurso. O mais novo, no 9º ano, viu a classificação subir 3 valores; o mais velho, no exame do 12º ano, viu a classificação subir 4 valores. Não subiu mais, creio, porque há uma altura em que o Júri de exames tem de reflectir e o processo demora…..

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        • Estava a continuar o comentário e …PUFFFF, fugiu.

          Basicamente, referia a minhoquice dos exercícios de escolha múltipla. Óptimos para se corrigir, têm de ser muito bem feitos e pensados para testarem conhecimentos fundamentais.
          Às vezes, mais parecem um daqueles exames de código de estrada.

          Finalmente, apenas referir que o mesmo se passa com os famosos exames escritos de Inglês do Cambridge e entidades afins.

          Em muitos exercícios de compreensão escrita, vocalulário e funcionamento da língua, a coisa é tão restrita, tão restrita, que um candidato nativo teria, provavelmente, dificuldades em muitos itens.

          Last but not least, lembremo-nos da célebre PACC……

          Eu reprovava naquilo.

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  2. A “crítica acintosa aos professores” foi sempre transversal a todas as “reformas” na educação. E continua a ser uma arma, mais ou menos subtil, que se usa para quando a coisa não funciona (embora nesses casos nunca existam balanços concretos, pelo que se agarra no que está mais à mão – os professores); quando algo funciona, pelo contrário, a menção aos professores nunca é , efectivamente, feita. Essa menção vai para responsáveis governamentais, directores escolares e investigadores universitários.
    Tão acostumados estão , que muitos professores interiorizam essa culpa, com consequências no seu brilho profissional, na relação com os alunos, com a escola e, não menos importante, na sua saúde física e mental.

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  3. Quanto ao balanço agora feito desta experiência, não acredito nas conclusões.

    Sabendo-se como funciona a escola com centenas e centenas de alunos, com burocracias enraizadas e com falta de recursos, a acontecer este balanço, só poderá ser datado num semestre. Uma experiência a longo prazo, atirada para todas as escolas no próximo ano lectivo, terá repercurssões negativas. Como fazer e exportar tudo isto em apenas 1 ano lectivo, sem criar desconstruções rápidas e pouco fundamentadas, sem criar desestabilização entre os que trabalham nas escolas e, principalmente, entre os alunos e famílias?

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  4. Finalmente, não posso deixar de referir a coincidência entre a saída deste balanço (será mesmo um balanço?) e o aviso do Diretor da OCDE ocorrido ontem:

    ” Portugal terá de alinhar sistema de exames com flexibilização curricular”

    Ou seja, como muitos já tinham antecipado, esta reforma curricular e pedagógica (chamada de flexibilização curricular) não bate certo com os exames finais tal como eles existem. É algo de antagónico.

    Solução para este dilema? O ministro da Educação, questionado, afirmou que “essa era “uma outra questão”.

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  5. Agora é que é finalmente.

    Mais uma ligeira contradição.

    Recentemente CEOs de renome afirmaram preferir trabalhadores com as “soft skills” a “colaboradores” com as “hard skills.” Percebe-se a razão.

    Mas, por outro lado, nesta reunião da OCD apontou-se o dedo à grande falta de qualificações académicas – licenciaturas, mestrados, dotoramentos, enfim de pessoal altamente qualificado nas suas áreas. Sendo que, esta falta terá repercurssões a curto e m´edio prazo na desejada alavancagem da economia, de forma estrutural, e na criação de postos de trabalho limpos de precariedade , sazonalidade e salários baixos.

    Para além do óbvio – A educação totalmente ao serviço da economia (capitalista) e das finanças de casino, há algo aqui que me continua a escapar.

    Afinal, o que é que se pretende?

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  6. A sensação que fica disto tudo: querem fazer alguma coisa, querem mostrar que acompanham os sinais dos tempos, que são modernos e “do século XXI”. Querem ficar bem vistos internacionalmente, mas também querem fazer alguma coisa que se veja internamente e que fique pronta antes das eleições.

    Em boa verdade, não sabem bem o que querem. Têm uma certeza: as finanças não os deixam gastar mais dinheiro.

    E estamos assim…

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