Uma proposta disparatada sobre o estudo da emigração

emigrante.JPGPaulo Pisco, deputado do PS eleito pelo círculo eleitoral da Europa, quer que os Portugueses conheçam e compreendam melhor a realidade histórica da emigração portuguesa. E depois de várias considerações, em artigo de opinião no Público, sobre o desconhecimento e o preconceito que, segundo ele, a sociedade portuguesa mantém em relação à emigração, saiu-se com isto:

Infelizmente, nos currículos escolares, a abordagem da emigração portuguesa não vai além de umas breves referências superficiais e sem significado no ensino secundário nas disciplinas de Geografia ou História. A emigração não pode continuar a ser uma espécie de tabu, nem ser mantida à distância, até porque é reconhecida pela própria Constituição da República.

Já para o final da prosa, percebe-se que o objectivo é divulgar a “iniciativa legislativa” do deputado, designação presunçosa de um mero projecto de resolução de que é primeiro subscritor e onde se recomenda que se passe a “ensinar de forma aprofundada a história da emigração a nível do ensino secundário”.

Ora bem, nem sei por onde começar perante tão rematado disparate. Talvez por salientar que a emigração é uma constante estrutural da História portuguesa, estando obrigatoriamente presente nos programas da disciplina no ensino básico, especialmente no 6º e no 9º ano. E não é tratada superficialmente, antes pelo contrário: motiva até, frequentemente, trabalhos de pesquisa e entrevistas feitos pelos alunos a antigos emigrantes.

Quando escreve que a emigração é um tema “tabu” o deputado não sabe do que fala, mas pelo menos num ponto importante posso esclarecê-lo: com a concretização dos planos da flexibilidade curricular do seu correligionário João Costa a disciplina de História, tal como a de Geografia, ficarão reduzidas, no 9º ano, a meros 90 ou 100 minutos semanais. E aí não será apenas a emigração, mas todos os outros temas de um programa que foi recentemente aumentado que serão dados superficialmente. Por não haver tempo para mais.

Ainda assim, se quiser sensibilizar o ME para a importância dos temas históricos na formação pessoal, cultural e cívica dos nossos alunos e para a importância de não reduzir os tempos lectivos da disciplina mais do que tem sido feito nos últimos anos, ficar-lhe-ei sinceramente agradecido.

No entanto, nota-se que o deputado Pisco não se mostra muito interessado no ensino básico. Ele quer que se estude em profundidade a emigração portuguesa, sim, mas no secundário. Ora experimente então olhar para os planos curriculares deste nível de ensino e diga-nos onde colocaria esse estudo, que não faz parte de nenhuma das disciplinas comuns a todos os cursos. Em Português? Na Filosofia? Estará a pensar em criar uma nova disciplina para tratar especificamente do assunto que o preocupa? Ou em produzir mais um “referencial”, a juntar aos que já existem, para suscitar a abordagem interdisciplinar dos fenómenos migratórios?

Atrevo-me a supor que o deputado não pensou em nada disto, assim como a generalidade dos políticos nada pensam, em concreto, cada vez que mandam os seus bitaites acerca do que a escola deveria fazer. Apenas saberá, e é isso que lhe interessa, que necessita de ir fazendo a sua prova de vida parlamentar, não vá correr o risco de ficar esquecido quando forem elaboradas as próximas listas de candidatos ao Parlamento. Ora é a este género de parlamentares que as resoluções se adequam às mil maravilhas: não legislam, nada propõem de concreto, a ninguém comprometem.

Nas escolas, é que vamos ficando fartos de tantos treinadores de bancada e do eco mediático que tão facilmente encontram quando debitam as suas ideias disparatadas.

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3 thoughts on “Uma proposta disparatada sobre o estudo da emigração

  1. Tanto disparate junto, é dose.

    Vai tudo parar à escola (o sr. não terá dito liceu?), sem se ter a mínima ideia dos conteúdos curriculares.

    Ele é:
    – o empreendedorismo
    – a cidadania
    – o trânsito
    – a sexualidade
    – a alimentação saudável
    – as redes sociais
    – e mais que já me vou esquecendo, incluindo o meio ambiente e o resto que continuo a esquecer-me…

    Tudo para a escola, já!
    Como se lá já não estivesse………..

    Uma pessoa passa-se da carola com estas ideias brilhantes………..

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    • O senhor é formado em Filosofia.
      Não sei chegou a leccionar (apresenta como profissão jornalista), mas obviamente para ele as aprendizagens a sério começam no 10º ano…

      O resto, claro, vem na linha das transversalidades, das aprendizagens avulsas, das modas pedagógicas, do projectos, em que se quer converter a escola dita do século XXI…

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  2. Para além da ignorância… a estupidez!

    “…A emigração não pode continuar a ser uma espécie de tabu, nem ser mantida à distância, até porque é reconhecida pela própria Constituição da República.”
    – que imbecilidade!!!

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