Pensar fora da caixa – I

out-of-the-box.jpgPegando nalgumas ideias deste post, e também de uma breve troca de argumentos ali, alguns apontamentos sobre as mudanças anunciadas no ensino secundário e no regime de acesso ao ensino superior e a forma superficial e enviesada como, a meu ver, se andam a discutir certas questões.

Pesada herança do cratismo educativo, continuamos demasiado focados nos exames, como se eles fossem o supra-sumo de tudo o que se faz nas escolas. De instrumento útil, em situações muito específicas, para certificar aprendizagens e regular o sistema educativo, eles passaram, no secundário, a comandar o trabalho pedagógico de alunos e professores.

Pior do que isso, exige-se também aos exames que se fazem para conclusão do secundário que funcionem como instrumento de seriação e selecção dos candidatos ao ensino superior, desvirtuando por completo a sua função original.

No ensino profissional não existem exames, mas há cada vez mais alunos a pretender prosseguir estudos, pelo que, para mitigar a situação desigual em que estes se encontram relativamente aos colegas do ensino dito regular, foi criada uma solução de compromisso: se quiserem ir para o ensino superior, terão de fazer o exame de Português e outro que funcione como prova específica para o curso a que se candidatam. Mas é preciso notar que esta é uma solução discriminatória: os exames são baseados nos programas e nas cargas horárias das disciplinas dos cursos científico-humanísticos, colocando os alunos destes cursos em vantagem relativamente aos outros.

O que agora se teme, quando se fala em reduzir o peso dos exames no acesso dos alunos do profissional ao ensino superior, é que estes estudantes, beneficiando de um sistema de ensino menos exigente em termos de matérias e avaliações, possam vir a ultrapassar os colegas do ensino regular, mais bem preparados mas com notas mais baixas.

Perante isto, não posso deixar de assinalar como se convive tão bem com um sistema que permite que todos os anos uns milhares de alunos se matriculem em certas escolas privadas para obter médias de candidatura que nunca alcançariam na escola pública, mas não se aceita a eventualidade de outros fazerem o mesmo via cursos profissionais. Porque é que no primeiro caso há uma complacência de décadas com um dos mais lucrativos negócios permitidos pelas incongruências do sistema, enquanto no segundo soam de imediato todas as campainhas de alarme? Será porque uns pagam – e pagam bem – e os outros não?

Mas a realidade é que os alunos dos profissionais raramente entram em competição directa com os dos cursos ditos regulares: aqueles candidatam-se principalmente aos cursos dos politécnicos, enquanto para estes a ambição passa quase sempre pelo ingresso numa universidade. Já os outros, os dos colégios onde se compram as notas e que colocam anualmente centenas de alunos nos cursos de Medicina, esses passam mesmo à frente de colegas que tiveram a desdita de fazer o secundário na escola pública, numa competição desleal que persiste há décadas e a que se vai fazendo vista grossa.

Claro que nem o problema nem a solução residem nos exames que uns fazem e outros deixam de fazer. A questão da equidade e da justiça no acesso às vagas do superior só se resolve com provas de selecção iguais para todos, feitas pelas instituições de ensino superior, de acordo com os perfis, competências e conhecimentos exigíveis para cada curso superior.

4 thoughts on “Pensar fora da caixa – I

  1. Brilhante, António.

    E há ainda os alunos provenientes das escolas estrangeiras, com planos de estudos, exames e escalas de avaliação diferentes (generosamente convertidas para a escala nacional), que nos últimos anos são os que apresentam melhores classificações no acesso ao superior, são vários os que concorrem com classificação de 20, feito não alcançável por nenhum aluno do sistema português. O que nos leva a concluir que os exames portugueses até são puxados.

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  2. Alguém que leccione nos cursos profissionais me poderá informar se a generalidade dos alunos que concluem o 12º ano neste tipo de ensino estão na posse das competências e conhecimentos exigíveis para ingressarem no ensino superior? Partindo do princípio que todo o ensino superior …é de facto superior…

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