Prevenir a indisciplina escolar

indisciplinaO ComRegras é seguramente, e fazendo juz ao seu nome, o blogue português que melhor trata as questões da indisciplina escolar. O que não sucede por acaso, mas é antes fruto da dedicação, experiência e sensibilidade para o tema que tem demonstrado o Alexandre Henriques, fundador e principal dinamizador de um espaço que se tornou uma referência na chamada blogosfera docente. E que partilha regularmente com os seus leitores o muito que sabe sobre o assunto, seja na perspectiva da regulamentação e dos procedimentos legais perante os problemas disciplinares, seja também na vertente, não menos importante, da prevenção da indisciplina.

Na verdade, todos os professores desejam evitar os problemas disciplinares nas suas aulas, mas nem todos o conseguem. E mesmo os mais bem sucedidos nesta matéria já terão constatado que não há receitas universais e de sucesso garantido: o que resulta numas turmas pode falhar com outras. É igualmente verdade que a indisciplina está profundamente ligada a problemas sociais e culturais que transcendem em muito a escola e a sua capacidade para os resolver. Também é certo que a sua incidência varia muito consoante o meio envolvente da escola e o tipo de turmas, sendo sabido que os cursos profissionais, CEFs, PIEFs e até turmas regulares com elevado número de repetentes são mais propensas à ocorrência de actos de indisciplina. E mesmo os horários escolares influem: que dizer daquelas turmas calmas e educadas aos primeiros tempos do dia em que, para o final da manhã ou da tarde, se vêem metade dos alunos já transformados em verdadeiros diabinhos?

Ainda assim, há procedimentos gerais recomendáveis e com provas dadas na prevenção da indisciplina, aplicáveis por todos os professores – e serão, quero crer, a grande maioria – que não se querem limitar a ser os “stores fixes”, que tudo permitem para não terem problemas, mas também não desejam recorrer a um autoritarismo rígido, desafiante e cada vez mais sem sentido perante as actuais dinâmicas escolares. É sobretudo a esses que se dirige, com clareza e sensatez, o blogger do ComRegras…

Acredito piamente que a empatia é o maior aliado do professor. Não é fácil, por vezes vemos e ouvimos certas coisas que só apetece mandar o aluno pela janela fora, desculpem o exagero da expressão.

Ainda na semana passada, tinha umas “criaturas” que parecia que estavam sobre o efeito de qualquer coisa, se calhar até estavam… Era subir espaldares, saltos loucos para os colchões, risadas constantes, provocações entre colegas e eu ali a ver se conseguia explicar alguma coisa. O problema é que ninguém me conhecia, não tinha qualquer tipo de relação com os miúdos e o “está quieto”, “ouve”, “cala-te” não resultavam pois não era visto como alguém com “legitimidade” para mandar calar quem quer que fosse. O professor hoje em dia não é por si só uma autoridade, é obrigado a conquistá-la e as causas para este descalabro, são sociais e já têm décadas…

Até podia ter colocado 5 ou 6 alunos na rua, podia, e no futuro se as coisas não mudarem assim farei, mas o meu objetivo nestas primeiras aulas é apenas um. Criar empatia com os alunos. Não para ser o professor “fixola” ou o “choca aí meu”, mas para criar qualquer tipo de relação que me permita ser visto não como o inimigo, mas como alguém que está ali para ajudar e naturalmente ensinar. É que para turmas como CEFs ou PIEFs, é muitas vezes mais importante o saber estar do que o saber fazer…

Irei apostar em diálogos individuais, separar o líder do grupo e torná-lo meu aliado, mostrar firmeza, mas tolerância para personalidades que foram “danificadas” pelas vicissitudes da vida. Acima de tudo irei mostrar imparcialidade, coerência e real preocupação pela pessoa que está por detrás do aluno.

Com o tempo, serei visto como um farol e respeitado como tal. Estou de alguma forma a manipular os alunos, mas ser professor é também isto, fazer e dizer o que precisa para que os alunos se tornem alunos e o professor possa exercer a sua função, a tão falada inteligência emocional…

Não descobri a pólvora, nem sou mais que ninguém, digo sempre que sou um mero professor como outros tantos que estão ao meu lado por esse país fora. Mas se me permitem e de coração aberto, e já que tenho a oportunidade de chegar a uns quantos, sejam empáticos, utilizem o humor, ouçam os alunos, “percam” um pouco de tempo com eles e irão ganhar muito do vosso tempo e seguramente um ano menos complicado.

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8 thoughts on “Prevenir a indisciplina escolar

      • Mais uma vez obrigado. Espero que um dia as minhas propostas sejam aplicadas por quem de direito. Pelo menos sei que já as receberam.
        Um abraço e continua o bom trabalho neste teu cantinho sempre tão esclarecedor 😉

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  1. O meu agradecimento, também ao Alexandre do blogue comregras.

    A empatia, não sinónimo do “é fixe” , etc, é algo muito importante a estabelecer na relação com os alunos. Mesmo sabendo que, como diz o Alexandre, não é sinónimo automático de disciplina, bom comportamento e ausência de conflitos ao longo do ano lectivo. Todos sabemos que as relações pessoais não funcionam assim. É uma luta diária e um fôlego permanente para manter princípios e linhas vermelhas que não podem ser ultrapassadas.
    Isto em turmas “normais”, com gente “normal”.
    Há dias falei com 1 colega de EF. Está exausto com as turmas de CEFs , PIEFs e outros arranjos do género na sua escola. Fiquei sem palavras e sem conselhos que não fosse manifestarem-se e mostrarem à direcção que ou pára de defender os alunos, ou tomam-se medidas adequadas. Este é o caso de aulas de EF. Imagine-se estas turmas em aulas de diferentes disciplinas. E ele contou-me. Por ser chocante, fico-me por aqui.

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  2. O A. Duarte publicou há tempos 1 texto sobre 1 escola nos USA. Uma escola polémica nos seus pressupostos e prática.

    No entanto, achei interessante a “provocação” do seu lema – SLANT.

    Nas primeiras aulas escrevi no quadro este acrónimo, ao falar de saber estar e atitudes. Pedi aos alunos, depois de explicar minimamente de que escola se tratava, o que cada letra poderia significar.

    S- Sit, Silence
    L- learn, Listen
    A- Autonomy *
    N- ?
    T- Transformation*

    Explicitei o N- Not interrupt. Explicitei que, tratando-se de uma escola com estas características, o A era Ask and Answer. E que o T era, pelas mesmas razões, Teacher (obey!)

    Querem melhor warming up and breaking the ice? Ainda por cima numa aula de Inglês?
    E querem saber no que deu? Um sucesso.

    Agora, quando há mais agitação e páro as actividades e ponho o meu olhar fulminante, são os pps colegas que dizem SLANT!
    E a aula prossegue.

    Obrigada, A. Duarte. Óptima ideia.

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  3. Ups, esqueci-me….

    Só para acrescentar que o A é o ask and answer mas também Autonomy, e que o T é obey the Teacher’s instructions mas também Transformation………..

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