A Universidade e os seus problemas

torre-uc.jpgO arranque do ano lectivo no ensino superior tem sido pretexto para que se tenha escrito e falado mais, por estes dias, sobre os problemas existentes num subsector da Educação que prefere tratar dos seus assuntos portas adentro, em vez de os discutir, como é habitual quando se fala do básico ou do secundário, na praça pública.

Ou não continuasse a ser a endogamia um dos traços marcantes do corpo docente das universidades, que continuam a recrutar os seus professores de carreira quase exclusivamente entre os que trabalham e fizeram o seu percurso formativo na instituição. Apesar de aos mais jovens se recomendar a mobilidade e as experiências internacionais, na hora de contratar, e mesmo quando se abrem concursos internacionais, a preferência vai quase sempre para “os da casa”.

Embora o ministro da tutela queira resolver a situação, não por via legislativa, mas fomentando o que chama “autonomia responsável”, percebe-se onde está o verdadeiro problema: a maioria das universidades e escolas superiores debate-se com falta de recursos, resultado de um subfinanciamento crónico, e embora entendam a necessidade de diversificar o recrutamento, não querem mandar embora docentes e investigadores que há muitos anos trabalham nessas instituições. É esta a principal razão do favorecimento destes últimos nos concursos, com critérios por vezes feitos à medida dos candidatos.

É também o subfinanciamento que estará na origem da recente polémica que opõe o reitor da Universidade de Lisboa ao Sindicato Nacional do Ensino Superior, a propósito do uso que aquele quer fazer, de verbas destinadas à investigação científica, para a abertura de concursos e o pagamento de salários a docentes universitários. Com um argumento de peso:

Acho que temos um problema com a carreira de investigação nas universidades portuguesas. Eu recomendaria ao Governo que permitisse aos dirigentes universitários decidir se as pessoas que vão ser contratadas entram na carreira docente ou na carreira de investigação. As universidades precisam é de gente na carreira docente, porque perdemos imensos professores. Os investigadores não são obrigados a dar aulas e no máximo podem dar quatro horas de aulas por semana e a universidade não é sustentável nessa situação.

Ou seja, há linhas de financiamento para a investigação científica que permitem a contratação de investigadores que até aqui eram bolseiros. Mas as universidades precisam de alunos, e estes de professores, que as universidades não conseguem contratar em número suficiente: uma vez mais, o problema da falta de financiamento adequado às necessidades e a tentativa de obter, por portas travessas, o dinheiro que escasseia.

Finalmente, a subida em flecha, nos últimos anos, dos preços dos alojamentos para estudantes, sentida em quase todas as cidades universitárias portuguesas, parece estar subitamente a preocupar os responsáveis, mostrando que, em assuntos que não interferem directamente com as suas carreiras e os seus interesses, a navegação à vista continua a imperar entre os nossos mais ilustres académicos. De facto, ainda há uns meses o reitor da Universidade Nova afirmava, displicente, que a construção de residências universitárias não estava entre as suas prioridades. Pois agora é o seu colega da Universidade de Lisboa que diz:

Temos uma prioridade absoluta que é a construção de novas residências de estudantes. Essa questão já era premente antes do ‘boom’ do imobiliário. Nas antigas universidades que deram origem a esta, não foi construída nenhuma residência universitária desde o 25 de Abril. Houve duas residências construídas no Instituto Superior Técnico, mas com dinheiro de receitas próprias. O número de camas [1400 para quase 50 mil estudantes] não é o adequado.

O que mudou entretanto: o boom turístico na capital e a retoma do sector imobiliário está a fazer disparar os preços dos quartos para estudantes em Lisboa. Um quarto de qualidade média, razoavelmente localizado, dificilmente se encontrará hoje a menos de 300 euros mensais, o que é um valor incomportável para a grande maioria das famílias. E a tendência é para que os preços continuem a subir.

Os reitores compreenderam finalmente que a sua pretensão de colocar todos, ou quase todos os alunos que terminam o secundário, a estudar no ensino superior, implica uma intervenção de fundo na área social, de forma a que o factor económico deixe de ser, como é hoje, a principal causa de exclusão e de desigualdade de oportunidades.

Levou tempo, mas parece que finalmente chegaram lá…

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