O aventureirismo do ME segundo Santana Castilho

tiago-brandao-rodrigues.JPGSantana Castilho continua, mesmo em tempo de férias, a desancar de alto a baixo a política educativa do PS. Começando por identificar um conjunto de tendências que considera preocupantes – o “facilitismo eduquês”, o experimentalismo irresponsável, o falível modernismo tecnológico e o “ódio” aos professores – nota que o vazio de ideias de um ministro notoriamente impreparado para a função foi rapidamente preenchido pela “torrente de iniciativas desastradas” do seu secretário de Estado.

Não acompanho Castilho em todas as suas críticas nem nalguns evidentes exageros retóricos. Mas partilho o cepticismo em relação à maioria das reformas que têm sido anunciadas e postas em acção nos últimos tempos, começando pelos pomposos PNPSE, os planos para o sucesso, e acabando no recente surto de burocracia eduquesa que, como Paulo Guinote tem vindo laboriosamente a demonstrar (vejam-se um e outro dos mais recentes posts do seu Quintal) não passa de recriação desinspirada de velhas pedagogias que se tentaram impor, sem grande sucesso, na década final do século XX.

O cronista do Público critica também a “caldeirada tecnológica” que por aí vem, à boleia da Estratégia TIC 2020. E lembra, no final do seu artigo, os riscos de uma aposta excessiva nas tecnologias educativas que, pela minha parte, subscrevo inteiramente.

É inegável que os tablets permitem armazenar muitos livros, protegendo do peso das mochilas as colunas vertebrais, sem abdominais nem dorsais que as sustentem, de crianças obesas, em parte porque se tornaram escravas sedentárias da “usabilidade” e da “interoperabilidade” de tablets, smartphones e demais gadgets do século XXI. Mas já há reflexão que importa e desaconselha a substituição radical do papel pelo digital.

Nos EUA fizeram contas e concluíram que o uso de tablets multiplicou por cinco o custo dos clássicos manuais. Porque são caros, partem-se facilmente e não se arranjam facilmente. Ficam obsoletos rapidamente, como convém ao negócio. E há que pagar royalties anuais a editores, custos de infra-estruturas wi-fi e treino de professores para os usar. E quanto ao ambiente? Desenganem-se os ecologistas porque, segundo o The New York Times de 4 de Abril de 2010 (How green is my iPad?), a produção de tablets é bastante mais destrutiva e perigosa do que a produção de livros em papel. Mas, acima de tudo, há evidências científicas de que ler em papel facilita a compreensão e a memorização por comparação com a leitura digital e que a perda da motricidade fina que a aprendizagem da escrita com papel e lápis permite é danosa para o desenvolvimento das crianças. Finalmente, há a certeza de que o preço dos tablets e a ausência de wi-fi na casa das crianças pobres as deixará ainda mais para trás.

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6 thoughts on “O aventureirismo do ME segundo Santana Castilho

  1. Lamentavelmente, a política educativa do PS tem sido caracterizada por experimentalismo, aventuralismo, muito copy e paste obsoleto a passar por inovações várias e uma grande desconfiança em relação aos professores- o alvo a apontar quando se torna necessário demonstrar porque algo falhou.

    A ex-ministra Lurdes Rodrigues representou bem esta política educativa, em modo mais virulento e sonoro.
    Talvez seja esta a principal diferença – a da forma. Hoje, toda esta política educativa é assumida em reuniões, os enquadramentos e legislações vão saindo sem grandes alaridos, sem darem muito nas vistas.
    Conhecem-se terminologias que soam bem e que são repetidas como inovadoras.
    Não há lugar a contraditório, salvo muito raras excepções de quem percebe alguma coisa destes assuntos.
    Há também os nins de comissões e experts, directores escolares e associações de pais e encarregados de educação. E há sempre este nicho de mercado sempre apetecível para negócios vários onde se possam aplicar as verbas europeias. E a coisa fica em surdina e vai passando.

    As políticas educativas ficaram balizadas entre o defendido pela ex-ministra Lurdes Rodrigues e pelo ex- ministro Nuno Crato.

    Com o actual ME, a opção é fazer o pleno das duas opções – em camadas.

    PS: Entretanto, na política política e partidária, discutem-se parcelas do assunto porque a ignorância é muita. Na comunicação social, salvo raras excepções, a ignorância também impera.

    E como não imperar esta ignorância neste huge bolo de noiva em camadas, à espera que algum dia se lhe coloque uma cereja em cima.

    À espera que, finalmente, caia. Porque já fora de prazo.

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  2. Santana Castilho é outra fraudezinha do sistema.
    Independentemente de concordar com algumas coisas que ele escreve. É bom recordar que quem assina como professor do ensino superior devia pelo menos ter opiniões que não fossem só citar o New York Times ou alguns relatórios que estão online. São estas as eminências do nosso ensino superior.
    É bom lembrar que o Santana Castilho andou a levar o Passos Coelho a PM e a defender a troika educativa.
    Mas o mais grave é que artigo atras de artigo ele PLAGIA o Paulo Guinote. Eu gosto do Paulo e do que escreve, mas nunca daria visibilidade a um plagiador.
    António Duarte, é melhor ires à fonte do que alimentar o ego de um desonesto.

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    • Leio e comento o SC com as devidas reservas, assinalando acordos e desacordos. Claro que lhe conhecemos o percurso, mas o posicionamento deste blogue é o de discutir ideias e de enriquecer o debate de uma forma plural, não é o de atacar pessoas ou ignorar o que escrevem e que, publicado num jornal nacional de referência, não deve ser menosprezado.

      De resto, não me parece que coincidências nas análises e pontos de vista semelhantes sejam necessariamente plágio, até porque o SC tem um estilo muito próprio de escrita.

      Quanto ao PG, ele é obviamente, e por mérito próprio, uma referência da blogosfera docente, e é citado e comentado por aqui com alguma regularidade.

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