Voltaram as guerras entre professores?

profs-luta.gifQuando se volta a ouvir falar de descongelamento de carreiras na função pública, mas ao mesmo tempo se sugere que as subidas de escalão não serão para todos, ou não chegarão a todos ao mesmo tempo, está dado o mote para o ressurgir de velhos ressentimentos e antigas discussões.

Em primeiro lugar, reconheça-se uma evidência: o congelamento, anulando as perspectivas de progressão na carreira e aumento salarial, afectou indiscutivelmente todos os professores. Mas prejudicou mais, incomparavelmente, os que estacionaram nos primeiros escalões da carreira, ganhando pouco mais de metade do que auferem os colegas congelados no 9º escalão.

E o prejuízo, para os professores mais novos, não tem a ver apenas com a estagnação salarial: significa também que eles nunca chegarão perto do que está actualmente definido como topo da carreira. É muito diferente um professor do 9º escalão interrogar-se sobre se chegará a alcançar o 10º antes de se aposentar, enquanto um do 1º ou do 2º escalão sabe que não passará, com o tempo de serviço perdido e as barreiras à progressão que ainda tem à sua frente, dos escalões intermédios.

Subjacente a esta realidade, está a carreira docente disfuncional herdada dos governos socratinos, com demasiados escalões e regras complicadas e injustas de progressão. Na altura, o principal objectivo da imposição desta estrutura de carreira era controlar as subidas de escalão, estrangulando a progressão em dois ou três momentos fulcrais. Mas hoje, com os congelamentos ad eternum,  já nem isso faz sentido. Reduzir o número de escalões da carreira docente e tornar mais equitativas, justas e transparentes as regras e condicionantes da progressão deve ser uma prioridade negocial logo que a revisão do ECD surja em cima da mesa.

Também não faz sentido os professores deixarem-se dividir, permitindo que a frustração e a inveja venham ao de cima e tomando os colegas como inimigos. Por muito justas que sejam as exigências dos mais novos – que também já não são, regra geral, jovens professores, embora a nível remuneratório sejam tratados como tal – não devem ir atrás da ilusão perigosa de que o que quer que seja retirado aos colegas mais velhos lhes será dado, de bandeja, a eles.

Da mesma forma, os professores mais antigos na profissão deverão também ser capazes de resistir à tentação, demasiado humana, de olhar apenas para si mesmos e para os seus interesses. De exigir tudo para si próprios – menos horas de trabalho lectivo, menos cargos ou responsabilidades, melhores turmas e maior salário – esperando que sejam os colegas mais novos a aguentar o barco nas águas agitadas em que navega hoje a educação portuguesa.

Face a dez anos de congelamentos, a resposta dos professores só pode ser uma, e tem de ser dada em uníssono, no sentido do descongelamento geral, ainda que faseado no tempo por restrições orçamentais, da carreira de todos os professores.

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4 thoughts on “Voltaram as guerras entre professores?

  1. Proponho que na imagem 1 das protagonistas fosse mais experiente ou, em alternativa, 2 imagens masculinas ou masculina e feminina…..

    ehhhhh….

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  2. Agora mais a sério.
    Não tenho muita paciência para esta guerra de Alecrim e Manjerona porque o seu objectivo é dividir uma classe já de si muito dividida. Cada profissional apresenta o seu caso e cada caso é um caso.Poderíamos ter uma carta de um qualquer professor no desemprego a responder ao “professor” cuja carta foi publicada num blog acima referido.
    A carta deste “professor” é de muito baixo nível.E não há volta a dar para dourar a situação.

    Compreende-se, assim, que seja tão difícil colocar-se a questão a nível de propostas e luta a nível sindical. Porque cada caso é um caso e não há visão para lá do presente imediato.

    Sendo que a última greve geral dos professores teve resultados muito fracos, devido aos serviços mínimos e à posição de quem considerou e considera que não se é profissional fazendo greve a exames e avaliações, pergunto-me se os professores estavam conscientes dos objectivos dessa luta que podem ultrapassar esta visão a curto prazo e trazer benefícios para todos.

    Estaremos dispostos a unir-nos nisto?

    “A FENPROF enviou, ao Governo e aos grupos parlamentares, um conjunto de propostas que deverão ser contempladas em sede de Orçamento do Estado para 2018.
    (…)
    – a necessidade de não adiar mais a criação e um regime especial de aposentação dos docentes;
    – a garantia de descongelamento das carreiras em janeiro de 2018, com a resolução prévia de problemas que já mereceram recomendação unânime da Assembleia da República ao Governo;
    – a concretização de novas medidas de combate à precariedade, como a abertura de novos processos de vinculação extraordinária, a criação do grupo de recrutamento de Língua Gestual Portuguesa ou a resolução de todas as situações precariedade que continuam a afetar docentes do Ensino Superior, designadamente leitores e professores auxiliares, bem como investigadores;
    – a aprovação e aplicação de medidas que contribuam para atenuar o desgaste do corpo docente das escolas, designadamente no que respeita aos horários de trabalho;
    – a aprovação de um adequado modelo de descentralização, rejeitando liminarmente, qualquer processo de municipalização, como o que está em curso; a aprovação de um modelo de gestão democrática para as escolas;
    – o início da desagregação dos mega-agrupamentos; uma efetiva redução do número de alunos por turma, pois o que se anunciou recentemente tem apenas caráter simbólico;
    – o reforço de recursos humanos nas escolas, sejam docentes ou outros.

    Em setembro, a FENPROF solicitará reuniões, quer ao Ministro da Educação, quer aos grupos parlamentares, nelas reforçando a necessidade de 2018 ser tempo de resolver problemas, valorizando a Educação e os seus profissionais, nomeadamente no que respeita às suas condições de exercício profissional.”

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    • Há um interesse objectivo da tutela em dividir para continuar a reinar.
      Mas não vou ao ponto de dizer que quem lança estes assuntos na discussão pública está, como se dizia nos tempos do PREC, “a soldo da reacção”…

      Há efectivas razões para que muitos se sintam injustiçados em relação a outros colegas. E isto são sentimentos que, perpetuando-se as injustiças, a qualquer momento vêm ao de cima.

      Perante isto, acho melhor falar-se honestamente nos problemas que existem, em vez de os tentar esconder, por inoportunos, debaixo do tapete. Mostrando que o caminho é o da união e do sentido de justiça. Foi nesse sentido que escrevi este post.

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