Os professores têm muita culpa

culpado.jpgE quem diz os professores diz os directores escolares e os diversos titulares de cargos de gestão intermédia das nossas escolas e agrupamentos. Não estou a pôr-me de fora – eu também sou professor!

E digo que temos a nossa parte da culpa em todos estes experimentalismos educativos que nos vão caindo em cima porque estamos quase sempre demasiado solícitos e disponíveis para fazer tudo o que nos mandam.

Somos demasiado sensíveis ao discurso do poder que vai minando as nossas convicções e o nosso profissionalismo com ataques insidiosos: a escola está parada no tempo, os professores são imobilistas e avessos à mudança, os alunos sofrem de um tédio de morte nas aulas maçadoras que os obrigam a suportar, o conhecimento está todo na internet e alcança-se, à velocidade da luz, com um qualquer zingarelho electrónico.

A maioria destas críticas tem escasso ou nulo fundamento, e o discurso insidioso contra o trabalho dos professores é relativamente fácil de desmontar. Mas todos sabemos que há coisas que funcionam mal nas escolas portuguesas. E a nossa permanente capacidade de reflexão e auto-crítica, que é uma ferramenta de enorme valia que os professores transportam consigo, volta-se nalguns casos contra nós: e se andamos mesmo a fazer tudo mal? Não devemos aceitar a mudança? Não é tudo para bem dos nossos alunos, aqueles que nos preocupam acima de tudo?

E quando damos conta, lá estamos nós a elaborar complicados grelhados curriculares, projectos transdisciplinares para redescobrir a pólvora ou intragáveis prosas eduquesas onde só o copy/paste nos livra da desinspiração e do sentimento de profunda inutilidade em relação ao que andamos a fazer.

O caminho para uma educação mais focada nos alunos e nas suas necessidades, mais atenta e reflexiva, mais humanista, passa também por desenvolvermos a capacidade de dizer não aos domesticadores da classe docente. Recusar a burocracia eduquesa e dirigir o nosso trabalho apenas para o que é importante para as turmas e alunos que temos à nossa frente.

O nosso trabalho não é fazer dos nossos alunos cobaias de académicos que querem impor as suas teorias educativas, de políticos em busca de popularidade, de burocratas da educação ansiosos por cortar despesa e apresentar resultados fáceis e imediatos.

Em vez da vontade de agradar a quem manda, falta-nos a ousadia de lhes desagradar, recusando a arreata que nos querem impor.

Em vez de obedecer cegamente, usar o pensamento crítico que nos dizem que devemos ter para questionar e resistir a tudo o que nos desvia do essencial na nossa profissão de professores.

Usar as margens de autonomia de que ainda dispomos no nosso exercício profissional para desconstruir, não o currículo dos nossos alunos, mas as políticas educativas que se fazem contra os verdadeiros interesses e as reais necessidades das comunidades escolares.

12 thoughts on “Os professores têm muita culpa

  1. De acordo.

    1ª prioridade – preparar aulas e actividades diversas para os alunos, apoiá-los, motivá-los e fazer feedback das suas aprendizagens e modos de ultrapassar dificuldades. Criar 1 clima de respeito, ajuda, disciplina e autonomia progressiva.

    As burocracias inúteis ficam para qdo houver tempo.

    Actas e relatórios com 30 páginas?!?

    SMILE GOD LOVES YOU

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    • Certíssimo!
      Mas a sua 1.ª prioridade, que me pareceria óbvia e indiscutível numa escola… passou a ser, factualmente a última de todos! Basta olhar à volta!
      (Para não escandalizar e continuar a enganar os “outsiders” ao sistema, continua a constar de qualquer discurso que se preze como a “alma” das unidades orgânicas)

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  2. Que as escolas consigam filtrar o eduquês e tornem a flexibilização um processo simples.
    Sei que o ME anda atualmente a trabalhar em desburocratizar o ensino. Tal como tu, espero que não se complique o que precisa de ser simples.

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    • A sério???
      Talvez seja conveniente uma desconstrução, descontextualização, desarticulação horizontal, vertical e oblíqua/ transversal/ multidisciplinar/, da palavra” desburocratizar” obviamente integrada num projecto de concepções e práticas inovadoras com auto-regulação em protocolos e procedimentos, monitorização e avaliação da ONU/ MERCOSUL/ OTAN, FMI, Banco Mundial/ CGD/ Altisse/ CEO da EDP / CMQAFC e SCPP2020!!!

      CMQAFC – Comissão de Moradores da Quinta de Amigos, Fidelizados e Clientes
      SCPP2020 – Sindicato de Colaboradores do Privado em Parcerias 2020

      Quanto à flexibilização das escolas… ups… são só coisinhas mais micro que as câmaras… e… brincar em experiências educativas e projectos inovadores com os filhos dos outros não origina grandes nós de garganta e cai que nem ginjas em relatórios de avaliação de desempenho!…

      Ainda nada vi…que tivesse, efectivamente, simplificado!

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  3. Desburocratizar e descomplicar…

    Concordo plenamente, mas não me parece que seja o que andam a fazer.
    Bem tento ser optimista, mas se os objectivos fossem esses, o caminho deveria ser diferente do que estão a tomar…

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    • Embora não seja um defensor das acumulações, parece-me discriminatório impedir um professor de ter outra actividade remunerada, desde que cumpra as suas obrigações no emprego principal.

      Não assinamos com o ME qualquer contrato de exclusividade, e nas profissões em que isso sucede há geralmente lugar ao pagamento um suplemento remuneratório…

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