50 mil vagas no ensino superior

universitarioAs universidades e politécnicos criaram quase 300 novas vagas em cursos das áreas de Informática e Física para o próximo ano lectivo, respondendo positivamente às indicações dadas pelo Governo de que fossem privilegiadas estas formações na altura de definir a oferta do sector. Ao todo, há 50.838 lugares para novos alunos no ensino superior, mais 150 do que no ano passado, o que significa um crescimento pelo segundo ano consecutivo.

A abertura de vagas no acesso ao ensino superior é um tema que se tem prestado a abordagens superficiais e demagógicas, onde o discurso politicamente correcto joga a favor dos interesses estabelecidos e se vão escamoteando e adiando as reformas que seriam necessárias para alargar o acesso e melhorar a qualidade e os resultados deste subsistema de ensino.

Quando algumas Engenharias já superam, nas médias de entrada, as notas exigidas pelos cursos de Medicina, tornou-se de bom tom falar da falta de profissionais qualificados na Informática e na Física, o que talvez queira dizer, não que esses profissionais rareiem assim tanto, mas que quem trabalha na área ainda consegue exigir, e obter, um salário um pouco maior que o ordenado mínimo que se paga hoje em dia à maioria dos jovens com formação superior. Este repto para formar mais engenheiros, físicos e programadores significa então que as empresas que os procuram precisam, não de mais profissionais, mas sobretudo de trabalhadores mais baratos.

Outra conversa que cai sempre bem é dizer-se que as vagas para acesso ao superior ainda são poucas, que precisamos de qualificar mais os nossos jovens e de ter mais gente a estudar nos politécnicos e universidades. Ora a verdade é que abrem todos os anos cerca de 50 mil vagas para menos de 90 mil estudantes que concluem, anualmente, o ensino secundário nas suas diversas modalidades. Caso possam e queiram, mais de metade destes jovens têm lugar no ensino superior. E com uma economia incapaz de os absorver, admitir ainda mais jovens nos cursos superiores serviria apenas para aumentar ainda mais a exportação de mão-de-obra qualificada e intensificar a exploração do trabalho que já recai sobre os recém-formados.

E há outro problema que tem a ver com a capacidade económica das famílias para manterem os filhos a estudar no ensino superior. Actualmente já são sobretudo jovens de famílias de rendimentos médios ou elevados que conseguem suportar os custos, sobretudo quando os filhos têm de ir residir para outra localidade. Ora alargar o ensino superior a um universo significativamente maior de estudantes implicaria um investimento sério em residências, bolsas e outros apoios aos estudantes carenciados, coisa que alguns dos nossos sapientíssimos reitores não consideram sequer ser matéria que os deva preocupar.

Por último acrescente-se que, se o número de candidatos e o número total de vagas são sensivelmente idênticos, nem por isso deixam de ficar, todos os anos, alguns milhares de estudantes por colocar. Isto sucede porque há uma grande procura dos cursos associados a maior empregabilidade e às universidades mais prestigiadas do litoral. Nos cursos com menos saídas profissionais, nas escolas politécnicas e nas universidades do interior é frequente ficarem muitas vagas por ocupar, por falta de interessados.

Visto exteriormente, notam-se demasiadas desigualdades e assimetrias no sistema público de ensino superior, que tardam em ser corrigidas. E não serão os ajustes anuais no número de vagas que se tiram ou acrescentam neste curso ou naquele que irão resolver os problemas de fundo que subsistem ano após ano.

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