O estudo enganoso do CNE sobre agrupamentos escolares

Prestes a abandonar a presidência do CNE, David Justino presta o seu último serviço ao grande centrão educativo e a uma das políticas mais insistentemente perseguidas pelos três partidos do arco governativo: a constituição de agrupamentos e mega-agrupamentos escolares.

Esse serviço traduz-se na publicação de um estudo que, a partir do aparato científico e bibliográfico ostentado, da tentativa de contextualização do caso português a nível internacional e da análise, a partir de inquéritos feitos aos seus responsáveis, da situação concreta de 25 agrupamentos escolhidos a dedo, procura demonstrar as vantagens do modelo concentracionário de gestão administrativa e pedagógica imposto às escolas portuguesas.

Começando por realçar as distâncias entre as escolas agrupadas como principal constrangimento, recorre-se ao GoogleMaps, que parece ter-se tornado a metodologia de eleição da investigação científica nesta área, para mostrar que, de facto, a distância pode ser um problema. Mas nada de insuperável, e até vantajoso face ao que se poupa, sobretudo se os professores e outros elementos das escolas usarem o seu próprio tempo e os seus automóveis particulares nas deslocações ao serviço deste grande desígnio educativo que são os mega-agrupamentos.

De resto, poderia estar aqui a dissertar longamente sobre um estudo de mais de 200 páginas, se isto fosse realmente um trabalho sério e independente e não uma encomenda destinada a realçar as virtualidades de uma política em que o próprio David Justino é juiz em causa própria e que tanto PS como PSD estão interessados em defender e justificar.

O estudo reduz a realidade dos mais de 800 agrupamentos ao estudo de caso de 25 destas unidades orgânicas, escolhidas segundo critérios alegadamente representativos, mas que não são explicitados.

Tenta enquadrar o fenómeno português no contexto europeu, dando-lhes uma amplitude que nunca teve. O truque, a meu ver desonesto, que está bem patente neste mapa, é equiparar a política de encerramento de escolas pequenas, prosseguida em diversos países europeus, incluindo Portugal, essencialmente por razões demográficas e pedagógicas, com a originalidade portuguesa dos mega-agrupamentos.

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Ao contrário do que este estudo tendencioso tenta insinuar, a existência de escolas do ensino básico sem autonomia de gestão é a excepção, e não a regra, em termos europeus. Uma escola básica com 500 ou 1000 alunos a ser gerida por um coordenador em part-time e governada à distância a partir de uma escola secundária é algo que não tem paralelo a nível europeu, muito menos da forma generalizada como este modelo, para usar a linguagem do estudo do CNE, se “consolidou” entre nós.

Os agrupamentos de escolas são uma imposição dos decisores políticos, sem demonstração de quaisquer vantagens pedagógicas, que veio descaracterizar e destruir muitos projectos pedagógicos existentes nas escolas que foram agrupadas.

Evidências que uma investigação isenta e um estudo sério sobre a problemática da gestão escolar deveria começar por reconhecer. Ao invés de a escamotear com meias-verdades e puras aldrabices.

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2 thoughts on “O estudo enganoso do CNE sobre agrupamentos escolares

  1. Muito bem, António.

    Aliás o próprio estudo tem que recorrer a países como o Peru, Cambodja e Sri Lanca para encontrar algo que se pareça com os agrupamentos portugueses.

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  2. Uma realidade que, entre outras, contribuiu para a burocratização e falta de agilização de relações organizativas e pedagógicas que vão em contra mão com a tal de escola do séc XXI.

    Uma aberração a todos os níveis.

    Provavelmente, não a nível de custos. E mesmo assim, tenho dúvidas.

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