O ataque às Humanidades

Rafael-Escola-de-Atenas.jpg

Filosofia e História são duas disciplinas “malditas” para os cultores do Agora, do Futuro, do Homem Novo Saudável e Tecnológico a quem nada interessa como aqui chegámos e detestam que alguém lhes relembre que a fatiota agora desempoeirada é velha e, pior, se tenha a capacidade para o demonstrar sem a wikipedia ou o google à mão. Ou para quem o acto de pensar não se fica pelo truque sofista.

Paulo Guinote escreve sobre a ofensiva pós-moderna e neo-eduquesa (adjectivos meus) contra o currículo escolar tradicional. E nota como este ataque começou, primeiro, pela Filosofia, despromovida no contexto dos estudos secundários e aligeirada nos seus conteúdos, e se vem estendendo em relação à História, que com as novas matrizes e flexibilidades curriculares leva mais uma talhada na sua carga horária.

Reduzida a 90 ou 100 minutos semanais na maioria dos anos de escolaridade, ou a uns 150 como disciplina semestral, a nova História servirá de facto para pouco mais do que para contar umas historietas de reis, princesas e piratas. Entretanto, monta-se um tremendo equívoco em torno da “Cidadania”, como se os cidadãos conscientes, críticos e participativos de que a democracia necessita se pudessem formar sem o conhecimento e a percepção do que somos, de onde viemos e como chegámos até aqui. E isto só a História, com a colaboração de outras áreas do saber, como a Geografia, a Economia, a Filosofia, a Literatura, nos pode transmitir.

Claro que nada disto é inovador ou original entre nós. Segue as linhas do pensamento tecnocrático e neoliberal sobre Educação promovido por organizações internacionais como a OCDE e o Banco Mundial e por fundações e tanques-de-pensar apostados na mercantilização da Educação e na organização dos sistemas educativos em estrita subordinação aos interesses e às necessidades do mercado de trabalho.

Nesta perspectiva, o que interessa promover é uma escola orientada para as Ciências, as Matemáticas, as Engenharias (e, vá lá, o Português e o Inglês, que também dão jeito), podendo tudo o resto envolver-se numa espécie de super-área de projecto com muito trabalho de grupo e muito dinamismo, onde nada é verdadeiramente importante e todos os saberes são relativos, onde se “aprende fazendo” e se preenchem lacunas indo buscar ao google a informação em falta.

Abaixo de uma elite formada pelos gestores, engenheiros, juristas e políticos que dirigem as empresas e o Estado, a sociedade “do século XXI” que nos andam a preparar precisará apenas de trabalhadores adestrados em tarefas mais ou menos repetitivas que as máquinas não conseguem ainda fazer, consumidores compulsivos de todos os gadgets, modas, bugigangas e “estilos de vida” que nos forem propondo e cidadãos conformistas e conformados com a ordem estabelecida. E para estes fins, não há grande diferença entre uma escola feita de uma chuva de “projectos”, como quer este governo, ou recheada de cursos para “aprender uma profissão” aos 13 anos, como pretendiam os antecessores. Sendo uns e outros de sucesso garantido para os alunos…

Especialmente hipócrita, no projecto da flexibilidade curricular que mais de cem escolas começaram a implantar em contra-relógio, é todo o discurso erigido em torno da valorização das Humanidades, das Artes e das Tecnologias, que já no Perfil do Aluno soava a falso. No concreto, tudo isto é claramente desvalorizado nas novas matrizes curriculares. Ou remetido para a “autonomia da escola”, o que significa que são áreas que podem servir para enfeitar os “planos de turma” a nível local, mas não têm dignidade ou interesse suficientes para integrar o currículo nacional.

Anúncios

5 thoughts on “O ataque às Humanidades

  1. Parece que alguns filósofos e pensadores da coisa social e do futuro estão a chegar à conclusão que, num futuro próximo, dada a escassez de trabalho, especializado ou não, produzido pela inteligência artificial e robótica, a ideologia será a Solidariedade e as áreas laborais mais necessárias e procuradas girarão à volta da Sociologia, a Psicologia, a Filosofia, o do contacto com o outro e do “touch” social.

    Esta ideia não é assim tão estranha, se pensarmos que ela própria é muito ideológica – com tanto desemprego, tanta falta de recursos e de esperança, haver uma massagem relaxante destas apazigua muito stress e proactividades várias.

    Será que estamos já a meter o pé nesse cenário? Não creio. Pelo menos conscientemente.

    E vai daí, sai-nos esta chuva de projectos e Cidadanias como se de algo neo-qualquer coisa se tratasse e que fica sempre bem na foto.

    Entretanto, o que não fica nada bem é esta nova moda de as empresas não pagarem aos trabalhadores a tempo e horas. Parece que se vai tornando muito in ser-se pago com 1 ou 2 meses de atraso.

    E se a Cidadania e os projectos sairem do esquema apertado de 1 matriz curricular e se tornarem mesmo Cidadania em acção?

    Gostar

  2. Concordo que se as disciplinas de Humanidades são essenciais à formação e de nenhuma maneira devem ser inferiorizadas face às ciências tecnológicas. No entanto também concordo que é necessário um maior investimento nas tecnologias usadas na escola e uma reformulação da estrutura das aulas que passa exatamente por um maior papel dos projetos.

    Ao ler aquilo que Paulo Guilhote escreveu parece-me haver (talvez esteja enganado) uma ideia que ao investir numa educação com um maior auxílio tecnológico vamos tendencialmente diminuir o investimento nas Humanidades.

    Existem várias escolas que conseguem integrar ambos bastante bem. O colégio S.José em Coimbra tem uma grande componente tecnológica integrada na estrutura das aulas e projetos e simultaneamente as crianças têm aulas de filosofia desde a primária.

    Apesar de as prioridades do ministério poderem serem discutiveis e haver várias medidas bastante questionáveis no projeto da flexibilização curricular, a opção da introdução de projetos como estrutura de aprendizagem ativa deve ao menos ser encarada como algo positivo.

    Gostar

    • Encarada como algo positivo? A sério?

      Daqui a uns tempos, vamos verificar a quantidade de alunos que ficou para trás com esta “estrutura de aprendizagem ativa”. É só esperar…

      Os alunos – hoje como sempre – precisam de uma base sólida de conhecimentos, para poderem operar a partir daí. O resto é treta, treta!

      Gostar

      • Não entendo, se países como a Finlândia tiveram sucesso com a, como diz, “estrutura de aprendizagem ativa”. Se escolas privadas em Portugal têm sucesso com este modelo. Qual é o problema de ter um projeto de teste do ensino público? Não está a ser implementado de forma louca e sem nexo.

        Gostar

  3. Não tenho uma posição contrária às tecnologias na educação. Mas entendo-as como ferramentas pedagógicas, tal como, no seu tempo foram a ardósia e o giz, os retroprojectores, ou são, ainda hoje, os cadernos e os manuais escolares.

    O que contesto é a tecnologia como fim em si mesma, a redução do “tecnológico” às TIC, num novo-riquismo de quem despreza a tecnologia “suja” dos laboratórios e oficinas e o “roubar” sistemático de horas a disciplinas fundamentais que passaram a ser tidas como inutilidades curriculares para que outras possam andar a “fazer flores”…

    E quando argumentam, ah, mas o governo quer valorizar as humanidades, as artes e mais não sei quê: pois, isso é o que eles dizem, não é isso o que se vê!…

    Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s