Retenções: será que andamos a fazer tudo ao contrário?

Eu sou o Rui. Tenho 7 anos e estou no 1º ano. Sou atento e aplicado, mas isso não chega pois esqueço-me muito rápido daquilo que a professora ensina. Gosto de ir ao quadro apenas porque sei que a professora vai ajudar-me a escrever. Nos exercícios ortográficos é tudo erro. Conheço as letras todas mas na hora de ler, preciso muito da ajuda da professora. Os meus colegas já sabem ler as perguntas dos exercícios… eu tenho de me desenrascar. Ou peço à colega do lado ou à professora. Ainda não disse, mas a minha turma tem meninos do 1º e 2º anos. Gosto de matemática mas só consigo contar para a frente. Quando é para responder o antes e o depois, confundo-me todo. A minha professora encaminhou-me para umas consultas. Fiz lá uns testes muito fixes. Se calhar a minha professora já tem os resultados. Vou passar para o 2º ano. Vou ter livros do 2º ano mas não vou poder utilizá-los porque ainda não sei ler nem escrever sozinho…

Embora a retenção tenha, nos anos não terminais de ciclo, um carácter excepcional, os alunos podem ficar retidos em qualquer ano de escolaridade desde que não tenham desenvolvido as aprendizagens necessárias à transição. Sempre? Não é bem assim: no 1º ano de escolaridade, seja qual for a situação do aluno, a passagem para o 2º ano é sempre garantida. E isto está mal, garantem muitos professores do 1º ciclo, e constitui a principal razão de o 2º ano ser o recordista dos “chumbos” neste nível de ensino. A grande maioria das retenções ocorrem com miúdos que andaram no 2º ano a fazer as aprendizagens falhadas do 1º, e por isso não estão minimamente preparados para transitar para o 3º.

Porque é que isto sucede? Embora quase todas as crianças aprendam a ler com relativa facilidade aos seis anos, e algumas até mais cedo, há uma pequena percentagem de miúdos que, por razões diversas, não o conseguem fazer. E o número de crianças imaturas a iniciar a escolaridade torna-se ainda maior com a possibilidade legal, usada pela maioria dos pais, de matricular os filhos ainda com cinco anos (desde que competem os seis até 31 de Dezembro).

Ou seja, muitas destas retenções precoces, atrevo-me a dizer que provavelmente a maior parte, não ocorreriam se atrasássemos o início da escolaridade obrigatória, como se faz em sistemas educativos de referência como o finlandês, onde as crianças entram para a escola aos sete anos. Ou, em alternativa, que se retomassem as retenções no 1º ano de escolaridade nos casos em que fossem evidentes a imaturidade e os atrasos do desenvolvimento cognitivo do aluno.

Há uma profunda incoerência entre a retórica do ensino individualizado e centrado no aluno, que nos manda dar a cada criança o que ela necessita e permitir que cada aluno avance ao seu ritmo, desde que avance, e esta ideia absurda de que ninguém pode ficar um pouco para trás quando se torna evidente que não consegue acompanhar o grupo. E que estaria melhor numa turma com colegas um pouco mais novos, a fazer o que antes não conseguia e agora já consegue, em vez de estar, lá mais para a frente, permanentemente exposto às dificuldades excessivas e ao medo do fracasso.

Uma coisa são as dificuldades de aprendizagem de alunos mais velhos, que se podem resolver com mais motivação, novas estratégias, apoios educativos mais ou menos individualizados ou, em casos extremos, alteração dos percursos curriculares. Outra coisa é aquilo que deve ser feito com um miúdo de seis anos que não consegue, mentalmente, juntar as letras e ler. Aqui, em vez de andar a massacrar e a frustrar o miúdo, confrontando-o com a sua incapacidade, há acima de tudo que diagnosticar o problema, intervindo em caso de doença ou perturbação mental. Na maioria das situações, contudo, a situação resolve-se dando tempo ao tempo.

girl_readingRepetir o 1º ano, quando a necessidade é evidente, quando isso pode evitar futuras e mais custosas retenções e quando sabemos que a medida é tanto mais eficaz quanto mais cedo é usada: por paradoxal ou politicamente incorrecto que possa parecer, esta poderia ser uma das melhores formas de promover, sustentadamente, o sucesso educativo.

 

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3 thoughts on “Retenções: será que andamos a fazer tudo ao contrário?

  1. O problema é que muitas vezes a razão pela qual os alunos apresentam essas dificuldades é mais ambiental do que uma incapacidade da própria criança. Por alguma razão os alunos de estratos socio-económicos têm invariavelmente uma maior probabilidade de chumbar. Um maior sistema de apoio ajudaria a eliminar esse efeito permitindo não recorrer às retenções.

    http://www.dn.pt/sociedade/interior/defice-de-competencias-de-leitura-principal-causa-de-chumbo-no-2o-ano—estudo-8494680.html – se a maior causa de reprovação no 2º ano é a leitura, um programa com mais apoio seria inclusivamente muito produtivo em não entrar em sobre diagnóstico de problemas como dislexia, pois aumentaria a diferenciação dos alunos e o não desenvolvimento de dificuldades em défices.

    http://www.cnedu.pt/content/noticias/CNE/Relatorio_Tecnico_-_Retencao.pdf – O CNE aconselha exatamente “… o reforço da exigência na qualidade das aprendizagens e uma atuação pertinente ao
    primeiro sinal de dificuldade e sem “etiquetagem precoce”, em substituição da repetência
    usada como estratégia pedagógica para a regulação de problemas de aprendizagem. Esta
    medida deve iniciar -se nos primeiros anos de escolaridade e estender-se progressivamente
    aos anos seguintes do ensino básico, mas só produzirá os efeitos desejados desde que acompanhada de novas formas de organização das aprendizagens e de estratégias de diferenciação pedagógica e de um adequado apoio aos professores.”

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  2. Guilherme
    Conheço pouco deste nível de ensino, para além dos conhecimentos decorrentes de ter tido filho que por lá passou…
    Mas a conversa que trouxe mais não é que: Blá… blá… blá…

    “… mas só produzirá os efeitos desejados desde que acompanhada de novas formas de organização das aprendizagens e de estratégias de diferenciação pedagógica e de um adequado apoio aos professores.” – Mais blá, blá, blá…

    Pressupondo que feito o diagnóstico e não existindo limitações cognitivas condicionantes, estas crianças (no início da aprendizagem escolar e formal) carecem de apoio verdadeiramente personalizado (ou, em grupo com mais 1 ou 2 alunos – não mais – com idênticas problemáticas), em que o professor procura compreender onde estão os problemas, as dificuldades, os erros, os esquemas de raciocínio, …, e desenvolver metodologias de trabalho com avaliação continuada dos progressos (diferente de preencher papéis) … e treinar e persistir…

    Não será com “fichinhas” de trabalho diferentes, formas divertidas de aprender, formas de avaliação diferenciadas, computadores e afins… que estas situações são efectivamente debeladas… sem se estar centrado e focado nesta criança que revela dificuldades condicionantes de uma aprendizagem normal, tudo o resto não passará de conversa.
    Sai caro? – Claro que sim, se for visto como um gasto e não como um investimento… sai muito mais barato passá-los e acabar com as retenções, nesta contabilidade a curto e médio prazo!
    Sairá todavia, no futuro, muito mais caro à sociedade – a todos nós (mas como essa contabilidade é a longo prazo, ninguém quer saber)!

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    • Cara/o J.F, devido ao quão pouco construtivo me pareceu o seu comentário decidi elucidá-lo um pouco sobre exatamente o que foi que escrevi:

      Então, começa por dizer que o discurso que tive não é mais que “blá blá blá”, o que me faz pensar que, ou não leu o que escrevi, ou não compreendeu.

      “Pressupondo que feito o diagnóstico e não existindo limitações cognitivas condicionantes…” – depois demonstra que não sabe o que é um diagnóstico ao afirmar que é feito um onde não há limitações cognitivas, presumo que queria dizer uma consulta psicológica ou algo assim…

      “…estas crianças (no início da aprendizagem escolar e formal) carecem de apoio verdadeiramente personalizado…” – ora o meu comentário foi exatamente a favor de se aumentar o apoio verdadeiramente personalizado, se o tivesse lido com atenção…

      “…Não será com “fichinhas” de trabalho diferentes, formas divertidas de aprender, formas de avaliação diferenciadas, computadores e afins… que estas situações são efectivamente debeladas…” – Convido-o/a a ler um pouco sobre aprendizagem ativa e métodos de ensino como o Waldorf ou High Scope ou Sole, que dão um ensino mais personalizado, com melhores resultados que o nosso ensino, utilizando exatamente as técnicas que minimizou.

      “Sai caro? – Claro que sim, se for visto como um gasto e não como um investimento… sai muito mais barato passá-los e acabar com as retenções, nesta contabilidade a curto e médio prazo!” – concordo plenamente, não sei onde leu que eu sou a favor de pura e simplesmente se acabar com as retenções sem se criar um programa de ensino mais personalizado para o substituir, sendo que o que eu escrevi foi exatamente dar mais recursos aos professores para não necessitarem de utilizar as retenções…

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