Flexibilização “simplex”

simplex.pngEscrevi ontem sobre o projecto de flexibilização curricular num tom um pouco menos cordato do que me é habitual. Habitualmente tento ver os assuntos que me motivam a escrever de mais do que uma perspectiva, e evidenciar os vários lados de uma mesma questão. Mas se desta vez desanquei, de alto a baixo, numa medida do governo, não é porque tenha aderido à oposição anti-geringonça ou veja no simpático e esforçado Tiago Brandão Rodrigues a reencarnação do diabo. É mesmo porque, olhando seja de que lado for, não consigo encontrar pontos positivos a favor do novo_projecto com que ameaçam pôr de pantanas as escolas portuguesas.

E, no entanto, pelo menos uma ideia subjacente a esta mal assumida reforma educativa poderia ser posta em prática sem grandes complicações. Quebrar as barreiras horárias e disciplinares, colocar todos os alunos e professores a trabalhar em conjunto, mobilizando saberes de diferentes disciplinas e diferentes níveis de conhecimentos e de maturidade intelectual, em torno de projectos comuns envolvendo toda a escola: isto é uma ideia interessante que é praticada em diversos países europeus na forma de uma “semana de projecto” durante a qual param as aulas normais e se formam grupos diferentes dos habituais, organizados em torno de diferentes projectos que se planeiam e concretizam durante essa semana.

Entre nós, embora de forma conceptualmente menos arrojada, tornou-se comum há uns anos atrás, nalgumas escolas, organizar-se uma “semana cultural”, na qual se faziam convergir diversas iniciativas e eventos do plano de actividades, criando durante esses dias, em que havia poucas ou nenhumas aulas, uma dinâmica diferente dentro da escola, capaz de proporcionar aos alunos outras vivências e aprendizagens.

Deste ponto de vista, o que me parece é que um governo empenhado em simplificar toda a administração pública tenha para a Educação uma política assente na burocratização da escola, assente na desconstrução e reconstrução de matrizes curriculares, planos, projectos, instrumentos de avaliação e tudo o mais que a “autonomia das escolas”, animada pelas suas “lideranças” mais papistas que o Papa, e deixada em roda livre, se encarregará de inventar.

As experiências em torno da transversalidade curricular e do trabalho de projecto poderiam muito bem começar pela experiência pedagógica de estabelecer, nas escolas aderentes, uma semana em que os alunos, orientados pelos professores, iriam colocar em acção os conhecimentos e competências adquiridos. Ora é perfeitamente possível fazer isto, e faz-se em muitos sítios, sem pôr em causa as disciplinas e aulas tradicionais e o que nelas se aprende.

Não é por acaso que as culturas mais complexas tendem a dividir o conhecimento e a sua aprendizagem em disciplinas. É com base na mesma razão que leva os matemáticos a decompor problemas complexos noutros mais simples até os conseguirem, um a um, resolver a todos: sabemos há muito que, se queremos ir além de generalidades e elevar o nosso nível de conhecimentos a um patamar superior, é essa a forma mais eficaz de aprender.

Claro que depois de sabermos o suficiente podemos fazer abordagens multi e transdisciplinares, até mesmo tentar uma abordagem holística do conhecimento humano como fazem, de diferentes formas, os grandes filósofos, escritores e cientistas. Mas nada dispensa as bases das línguas, da matemática, das ciências naturais e humanas, das artes, das expressões. Estudadas cada uma por si, e cada uma com um professor especializado na matéria respectiva. O pensamento crítico só faz sentido quando sabemos o suficiente do assunto para fundamentar a nossa crítica.

Ao ministério, em vez de andar a inventar complicações para as escolas, ficaria o essencial, e que há muito deveria ter sido feito: acabar com as matrizes manhosas do tempo de Nuno Crato, com os tempos contados ao minuto e as distorções e compensações que isso impõe nos horários de professores e alunos, redefinindo as matrizes curriculares de uma forma mais equilibrada e equitativa; ajustar os programas, adequando-os aos tempos disponíveis e ao nível etário dos alunos; acabar com a profusão de metas curriculares, definindo objectivos essenciais exequíveis para as diferentes disciplinas.

Infelizmente, continua a ser mais fácil inventar trabalho para os outros em vez de fazermos bem feito, e a tempo e horas, aquele que nos pertence.

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7 thoughts on “Flexibilização “simplex”

  1. Alguém se lembra do que aconteceu à Área Escola dos anos 90?

    Área-Escola

    Desp. 142/ME/90. – O Decreto-Lei 286/89, de 29 de Agosto, institucionaliza a Área-Escola como uma «área curricular não disciplinar», tendo por finalidades fundamentais a concretização dos saberes através de actividades e projectos multidisciplinares, a articulação entre a escola e o meio e a formação pessoal e social do aluno.
    Com efeito, a Área-Escola, sendo de natureza curricular, organizando-se nesta fase de acordo com a redução correspondente de horas semanais das áreas disciplinares ou disciplinas, e visando o desenvolvimento de projectos aglutinadores dos saberes, surge como um espaço e um tempo propícios à realização plena da interdisciplinaridade. Deste modo, contribui para a concretização de um saber que se quer integrado e para o desenvolvimento do espírito de iniciativa e de hábitos de organização e autonomia dos alunos.
    A concretização da interdisciplinaridade implica a abordagem e o tratamento de um tema, de um problema, de uma situação, numa perspectiva que se pode designar de transversal, enquanto aprofunda os objectivos comuns às diversas áreas disciplinares ou disciplinas, recorre aos seus métodos, e se harmoniza com os seus conteúdos programáticos.
    Neste contexto, o desenvolvimento da Área-Escola implica necessariamente um trabalho conjunto, no qual participam não só todos os docentes que se proponham realizar o mesmo projecto, como, também, outros agentes educativos, designadamente pais e encarregados de educação, autarcas e representantes dos interesses sociais, culturais e económicos da região, valorizando-se, assim, a autonomia cultural e o papel da escola enquanto pólo de desenvolvimento da comunidade local.
    A concretização da Área-Escola constituirá pois um estímulo permanente à iniciativa do estabelecimento de ensino, permitindo-lhe assumir progressivamente novas competências, nomeadamente nos domínios da gestão de currículos, programas e actividades educativas, da orientação, acompanhamento e avaliação de alunos, como expressões concretas da autonomia pedagógica que a reforma educativa pretende alcançar.

    Assim, ao abrigo do n.° 5 do art. 6.° do Dec.-Lei 286/89, de 29-8, determino:

    1) É aprovado o plano de concretização da Área-Escola, que constitui o anexo I ao presente despacho;

    2) O modelo organizativo da Área-Escola consta do anexo II ao presente despacho, que dele faz parte integrante;

    3) As sugestões de estrutura da Área-Escola constam do anexo III ao presente despacho, que dele faz parte integrante.

    http://www.netprof.pt/netprof/servlet/getDocumento?TemaID=NPL030103&id_versao=8691

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    • Alexandre, eu não digo que as matrizes são fixas, o que digo é que se mantém a confusão, com os tempos de umas disciplinas definidos em múltiplos de 45 e outras em múltiplos de 50. E com a maioria delas incluída em “áreas disciplinares” onde cada escola distribui à sua vontade a “minutagem” disponível.

      Vou dar-te um exemplo concreto: sentir-me-ia mais confortável se olhasse para a matriz do 3º ciclo, por exemplo, e visse lá, para a minha disciplina, o mesmo que tens na tua: 150 ou 200 minutos semanais, só para ti.

      No meu caso, a História divide um bolo com a Geografia e agora também com a Cidadania – que não faz sentido ser uma disciplina, mas adiante – e cada escola faz a divisão à sua maneira. Actualmente, a minha disciplina pode ter, de escola para escola, 90, 100, 135 ou 150 minutos semanais no mesmo ano de escolaridade. Mas todos têm de cumprir o mesmo programa. Ora a flexibilização não muda nada disto, apenas aumenta a confusão.

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  2. Inicialmente não estava previsto que com a flexibilização curricular fosse possível fazer uma semana dedicada a um tópico transversal a todas as disciplinas? Relembro-me que o exemplo que foi dado pelo secretário de estado foi o tema de refugiados.

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    • E se ficasse por aí, ficava muito bem.

      Que dito assim até parece uma coisa fácil. Mas fazer um bom projecto, onde os alunos aprendam realmente e que consiga envolver mais do que duas ou três disciplinas é das coisas mais difíceis de realizar.

      O problema é quererem coisas que eles próprios nunca fizeram nem saberiam fazer.

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