Para acabar de vez com ESTES exames

why-we-learn[1]No ensino básico, os exames nacionais já só existem no 9º ano, a Português e Matemática. Contudo, no secundário eles continuam a ter um papel determinante, não só na conclusão dos cursos científico-humanísticos, mas também no processo de candidatura ao ensino superior.

Este peso porventura excessivo dos exames do secundário foi objecto de discussão a que dei as minhas achegas, um dia destes, entre os comentários a um post de Paulo Guinote no seu Quintal. E as respostas que obtive, a algumas observações que fiz, reforçaram a minha convicção de que a cultura dos exames está tão enraizada entre boa parte da classe docente, que não se concebe sequer que se devam valorizar mais outras formas de avaliação no secundário. E ainda mais difícil se torna perceber os vícios e as limitações que a examocracia induz no nosso sistema educativo.

Parece que existe uma espécie de atavismo insuperável entre nós, que não encontramos noutros lugares: só trabalhamos a sério se submetidos à canga dos exames que irão avaliar o nosso trabalho. E nem pensar em entregar às universidades a responsabilidade na selecção dos seus próprios alunos, tal como há muitos anos recrutam os seus professores, porque “ia ser só cunhas”…

Não sou fundamentalista contra ou a favor dos exames. Penso que eles são úteis, com conta, peso e medida, pelas razões e vantagens que normalmente lhes são apontadas: permitem “normalizar” as aprendizagens, assegurando que um núcleo duro do currículo nacional é efectivamente leccionado em todas as escolas; mobilizam as comunidades escolares em torno de objectivos curriculares perfeitamente definidos, validam o trabalho realizado por professores e alunos e certificam as aprendizagens realizadas.

Agora, para concretizar isto, bastaria seleccionar alguns conhecimentos e competências estruturantes do currículo, de algumas disciplinas – não era preciso avaliar a quase totalidade das matérias dadas em dois ou três anos de escolaridade. Uma só fase de exames seria suficiente, eventualmente com uma segunda chamada apenas para alunos que faltassem por doença ou motivo de força maior devidamente comprovado. E os exames no final do secundário deveriam servir apenas para isso mesmo: concluir o secundário. A candidatura à universidade seria um processo separado.

Com o figurino actual dos exames do secundário, acho impossível não dar razão ao Alexandre Henriques: entre a submissão aos rankings e a pressão dos estudantes e das famílias, preocupados com as médias de candidatura, as escolas e os seus professores acabam a fazer o que não querem nem deveriam fazer.

A escola, a sua política educativa, é submissa aos exames, gira tudo à sua volta e são vários os professores que “galgam” matéria para cumprir programas e que até apresentam testes similares. Os professores que não o fazem são normalmente “convidados” a fazer, seja por alunos, pais ou direção. Mas depois, chegamos ao cúmulo de ter disciplinas que não têm exames, disciplinas que felizmente têm a possibilidade de fazer um trabalho mais dirigido às necessidades e ritmos dos alunos, sem as pressões dos ditos. Até podemos questionar se faz sentido, dentro mesmo ciclo, dentro do mesmo ano, existir uma diferenciação tão evidente de disciplinas que contam para a mesma média.

Basta olhar para uma pauta para perceber de imediato quais as disciplinas onde há ou não exame no final. O inflacionar das classificações, mais evidente nas disciplinas sem exame, e ainda mais nos colégios privados que se especializaram a colocar alunos nos cursos superiores mais procurados, é a prova evidente de que a suposta normalização de resultados induzida pelos exames está em muitos lados a ser subvertida pela subida das notas internas. E como estas valem 70% do total, percebe-se que há aqui margem para muito enviesamento dos resultados. É precisa muita ingenuidade, ou dose equivalente de cinismo, para continuar a afirmar que este sistema promove a equidade e a igualdade de oportunidades.

Finalmente, além do peso excessivo que os exames assumem nalgumas disciplinas, também se fala demasiado deles, e muitas vezes pelas piores razões. O caso da fuga de informação do exame de Português que, começa a perceber-se, vai provavelmente passar sem consequências “por falta de provas”, é apenas mais um a juntar a uma longa lista de indícios de irregularidades que mancham a reputação de rigor, seriedade e equidade dos exames nacionais. A diferença é que desta vez alguém se descuidou e deixou sair para o espaço público das redes sociais o que era para circular apenas no ambiente restrito de um selecto grupo de explicadores com “conhecimentos” e dos respectivos explicandos.

A fuga de informação agora denunciada e o evidente desconforto com a perspectiva de levar a investigação até às últimas consequências, são sinais de que mesmo o secretismo, o formalismo e o aparato securitário em torno das provas nunca foram garantias absolutas de que os exames são iguais para todos. Pelo contrário, vai-se aos poucos percebendo que fazem parte de uma estratégia para restringir o alcance das possíveis fraudes e o universo dos seus beneficiários.

 

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