Greve de zelo?

greve-professores-1.jpgDepois de uma greve “chocha” como a que tivemos anteontem, Alexandre Henriques propõe um modelo diferente para a luta dos professores: a greve de zelo. E explica a razão de ser da sua proposta:

Pelo simples motivo que os professores dão muito mais do que aquilo que recebem. Esqueçam fins de semana de trabalho, atendimento a pais fora das horas de expediente, trabalho de direção de turma além das horas previstas, preparação de aulas até às tantas, correção de testes enquanto a família relaxa, fichas, relatórios, atendimento a alunos, etc, etc…

Tudo isto e muito mais sai do “corpinho” do docente, acabar com o trabalho de bastidores irá afetar de forma direta todo o processo de ensino.

Julgo que percebi a ideia: as greves tradicionais, sobretudo se forem prolongadas, causam fortes rombos no ordenado mensal, e a maioria dos professores, que proporcionalmente ganham hoje  menos e têm mais despesas do que há dez anos atrás, estarão pouco ou nada disponíveis para esse tipo de lutas laborais. Por outro lado, também já se percebeu que o modelo clássico da greve ocasional de um ou dois dias, para “marcar posição” ou “mostrar o descontentamento”, há muito que deixou de ser eficaz.

Manifestações, marchas, concentrações são também formas de luta que tiveram o seu tempo áureo nas grandes lutas de 2008 e, embora estas não nos reduzam o salário, saem-nos do corpo. Os professores estão hoje muito mais descrentes e desgastados por anos de luta com escassos ou nulos resultados, pelo que, para lá dos habituais activistas sindicais, poucos se mostrariam receptivos se os sindicatos tentassem reeditar agora a dinâmica das mega-manifestações que fizeram tremer, na altura, a ministra favorita do socratismo.

Mas voltemos à greve de zelo. A definição que dela dá o Alexandre não me parece muito precisa, e gostaria de clarificar o seguinte: uma acção deste tipo é sempre uma greve de excesso de zelo. Ao contrário de uma greve normal, que suspende a relação de trabalho, durante a greve de zelo o trabalhador encontra-se sujeito a todos os seus deveres profissionais. Não pode simplesmente dizer que não faz isto ou aquilo porque o tempo não lhe chega. Tem de demonstrar que, cumprindo zelosamente todos os procedimentos e obrigações a que está obrigado, não tem tempo para fazer tudo o que lhe está determinado. Isto é mais difícil de cumprir do que as tarefas de um dia de trabalho habitual. Mas se não for feito desta forma, o trabalhador estará apenas a ser negligente ou incompetente e arrisca-se a ser alvo de um processo disciplinar.

Tenho dúvidas de que isto, enquanto forma de luta, seja eficaz. Mas não duvido de que há muito tempo que todos os professores, sobretudo aqueles que se queixam de cansaço, burnout e outras mazelas provocadas pela overdose laboral, deveriam ter adoptado esta regra simples que é adequar o seu trabalho ao tempo que lhe dão para o fazer.

Correndo o risco de ser politicamente incorrecto, e sem querer desculpar o excesso de burocracia escolar exigido por muitos senhores directores, direi que todos os anos vejo colegas deprimidos e extenuados pelo excesso de trabalho que impõem a si próprios.

Porque ainda têm de ver mais isto e aquilo para aquela aula. Porque insistem em levar para casa, todas as semanas, montanhas de trabalhos de alunos para avaliar. Porque fazem testes demasiado extensos e de correcção difícil e demorada. A verdade é que, regra geral, nem o ministério, nem a direcção da escola nem tão-pouco os alunos e as suas famílias agradecem este tipo de esforço.

Greve de zelo, ou simples estratégia de sobrevivência numa profissão cada vez mais ingrata e desgastante: em qualquer dos casos, apoio a ideia de que os professores recusem, sem pôr em causa o seu profissionalismo, tudo aquilo para que não lhes é dado tempo, nem condições, para fazerem. Que o façam saber publicamente, com toda a clareza, e que – talvez a parte mais difícil – o assumam depois diariamente, sem vacilações, perante as numerosas solicitações da sua profissão.

Anúncios

4 thoughts on “Greve de zelo?

  1. Concordo com o termo Greve por Excesso de Zelo. A ideia é mesmo fazer diferente, por exemplo se os assistentes operacionais se juntassem a nós até podiam fazer greve às matriculas. É preciso mudar as formas de luta, estou cansado do mesmo…

    Gostar

    • Não peguei na segunda parte do teu post, a questão das alianças e da convergência das lutas.

      É necessária, claro, mas ainda mais difícil de conseguir do que a união dos professores, que é, infelizmente, o que sabemos.

      Temos de ter consciência de que, se uma escola de qualidade é do interesse de todos, na prática há muitos outros interesses, por vezes divergentes, em jogo. E nunca, mas nunca mesmo, deveremos ter a tentação de pensar que outros irão travar por nós a luta que tem de ser nossa.

      Finalmente, tanto nos meios associativos como nos sindicais há demasiados especialistas em roer a corda…

      Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s