Houve batota no exame de Português?

batota-exame.jpgSejamos sérios: ao contrário do que diz o Expresso, não é a primeira vez, “em 21 anos”, que há fundadas suspeitas de fraude nos exames nacionais do ensino secundário. Há um longo historial de denúncias, tanto na comunicação social, blogues e redes sociais, como junto das instâncias competentes, que acabaram em águas de bacalhau.

Talvez seja, isso sim, a primeira vez em que o rasto deixado pelas redes sociais evidencia de forma tão clara que algo se passou. E por isso vai ser mais difícil do que habitualmente mandar arquivar por falta de provas, que é, não tenhamos dúvidas, o destino final do inquérito que agora foi aberto.

As suspeitas de fuga de informação no exame de Português do 12.º ano estão a deixar numa pilha de nervos os 74067 alunos que realizaram a prova na passada segunda-feira e que temem ter agora de repeti-la, caso a mesma venha a ser anulada, como estipula o regulamento dos exames nacionais em caso de fraude. O problema é que a eventual repetição do exame — uma decisão que seria totalmente inédita — pode atrasar o processo de candidaturas ao ensino superior e obrigar as famílias a adiar as férias.

Dias antes do exame, realizado esta segunda-feira, circulou via WhatsApp uma gravação que revelava o conteúdo do que ia sair na prova. O ficheiro áudio foi gravado por uma aluna que não se identifica e que refere que a fuga de informação partia da “presidente de um sindicato de professores”, que tinha tido acesso ao enunciado. A informação revelou-se tão certeira que o Instituto de Avaliação Educativa abriu um inquérito e remeteu todas as informações para o Ministério Público “para efeitos de averiguação disciplinar e criminal”.

Há três fortes razões que se conjugam para recomendar a quem for chamado a decidir este imbróglio que não se remexa na examocracia do secundário.

O sistema tem uma reputação de seriedade que, como é habitual entre nós, se tenta proteger encobrindo os casos mais ou menos isolados de fraude, em vez de os castigar exemplarmente.

Assumir a existência de fraude obrigaria, em coerência, a anular as provas já realizadas, o que teria óbvios prejuízos para os alunos que teriam de repetir o exame. E aqui o sistema fica prisioneiro da sua lógica ao quase sacralizar os exames e os procedimentos à sua volta: se restringe até o direito constitucional à greve dos professores para garantir que todos os alunos fazem o exame na data prevista, que moral terá agora para obrigar mais de 70 mil alunos a repeti-lo, por causa da suspeita de que algumas dezenas ou centenas terão tido acesso prévio aos conteúdos da prova?

Finalmente, o anonimato que desde sempre tem sido garantido aos professores que elaboram as provas, alegadamente para as proteger de pressões. Se a identidade destas pessoas é um segredo de Estado, isso significa que, na falta de valores éticos suficientemente robustos, elas podem, informalmente, fazer uso da informação privilegiada de que dispõem para beneficiar terceiros ou alcançar benefícios pessoais para si próprias.

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One thought on “Houve batota no exame de Português?

  1. Repetir exames não é inédito. Repetiram-se em 1970, creio, depois do roubo dos pontos do antigo quinto ano.

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