Discussão em vez de falsos consensos

discussao.jpgDiscutir a Educação portuguesa, em vez de impor, a partir de cima, os consensos de regime que irão determinar as formas de ensinar e aprender, a organização dos espaços escolares, a carreira dos docentes ou o papel das famílias: eis o que me leva a rejeitar os pactos de regime que alguns insistem em defender, uma posição que já expliquei anteriormente.

Em vez disso, creio que ganharíamos muito mais em confrontar visões e opiniões divergentes sobre a Educação que temos e a que queremos, discutindo sem medos, preconceitos ou autoritarismos, as vantagens e os inconvenientes das múltiplas opções que podemos ter em cima da mesa. Combater o pensamento único e ter a coragem de falar verdade,  em vez de escolher caminhos tortuosos e jogos dissimulados para alcançarmos os nossos objectivos. E alargar o debate, que não deve circunscrever-se aos académicos e aos comissários políticos do costume, mas abranger todos os intervenientes e interessados nas políticas educativas.

Numa lista não exaustiva de questões que mereceriam debate, está por exemplo a da avaliação externa: faz sentido haver provas nacionais em algumas disciplinas, em momentos-chave do percurso escolar ou, pelo contrário, cada escola deve ter autonomia para ensinar, formar e avaliar à sua maneira, sem sujeitar os seus alunos à comparação com os restantes? Havendo aferição, esta deve ser universal, ou feita por amostragem? E a partir de que altura as provas devem ter reflexo na classificação dos alunos, na forma do que habitualmente se chama um exame?

Quanto aos mega-agrupamentos e ao modelo burocrático e centralista de gestão que lhes veio associado: alguma vez se discutiram seriamente as vantagens pedagógicas de um modelo que não encontra paralelo em nenhum sistema educativo daqueles com que gostamos de nos comparar?

Numa discussão franca e aberta sobre os temas educativos não poderia faltar a grande questão do financiamento do sector. Uma prioridade, nos tempos do primeiro-ministro Guterres, a Educação tem vindo a descer abruptamente na escala das prioridades governativas, desprezada como uma área despesista, propensa a queimar políticos imprevidentes e incapaz de se ajustar, nos seus resultados, aos ciclos eleitorais.

Mas a verdade é que uma educação de qualidade custa dinheiro. Não se motivam professores para a mudança mantendo-os indefinidamente congelados na sua carreira. Não se renovam as escolas conservando um corpo docente sobrecarregado de trabalho e envelhecido, ao mesmo tempo que se mantém a docência fechada à entrada de novos profissionais.

E sobre as salas de aula, ditas do futuro, indispensáveis às novas e significativas aprendizagens “do século XXI”: quanto custará instalar salas dessas por todo  o país, para que os alunos nelas aprendam, e não apenas como montras tecnológicas onde algumas empresas vão exibir os seus gadgets educacionais de última geração?

Quer o país realmente investir numa educação de qualidade para todos, ou apenas o fará se, e quando, houver financiamentos comunitários disponíveis para o efeito? E na primeira hipótese, quanto está disposto a gastar, e que sacrifícios aceitará fazer, se necessário, para garantir os níveis de financiamento adequados aos fins pretendidos? Eis-nos chegados, possivelmente, ao último e ao mais difícil dos consensos a alcançar.

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2 thoughts on “Discussão em vez de falsos consensos

  1. “Quanto aos mega-agrupamentos e ao modelo burocrático e centralista de gestão que lhes veio associado…”

    Ora aqui está mais uma questão que devia ser debatida: a dos mega-agrupamentos.

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    • Interessa sobretudo manter a discussão em torno dos exames versus provas de aferição, da maior ou menor extensão dos contratos de associação, dos programas mais ou menos flexíveis, da avaliação mais ou menos exigente.

      Enquanto se discutem essas coisas mantêm-se intocadas as vacas sagradas do centrão educativo: os directores, os mega-agrupamentos, a entrega das escolas ao poder local…

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