Para onde vai a Educação portuguesa?

escola-sec-xxiEntre a pedagogia de Nuno Crato e a de João Costa passou-se de um extremo ao outro, e cada vez me vou convencendo mais de que nenhuma delas é aquilo de que realmente precisa a Educação portuguesa. É também, no essencial, o que defende Santana Castilho:

A questão é termos passado de uma pedagogia ferozmente utilitarista, que encarava a Educação como mercadoria ao serviço da economia de mercado, sem sensibilidade humanista nem consideração pelas diferenças individuais das crianças em formação, para uma pedagogia do paraíso, assente na retórica provinciana do “aluno do século XXI”, do “trabalho de projecto”, da “flexibilidade pedagógica”, do “trabalho em rede” e dos “nados digitais”, sem considerar o estádio intermédio que resulta da arbitragem prudente entre o valor intrínseco do conhecimento e a especulação pedagógica.

[…] Crato mandava os que chumbavam aprender uma profissão aos dez anos; Costa nivela por baixo e reserva “as aprendizagens essenciais”, que ninguém sabe o que são nem como se definem, para os que já chegam à Escola oprimidos pela sorte madrasta de terem nascido em meios desfavorecidos. Definitivamente, só há um caminho, que não importou a Crato e menos importa a João Costa: encontrar um currículo e programas correspondentes equilibrados e adequados à maturidade e desenvolvimento dos alunos e acompanhá-los, sem diminuições de exigência e rigor, com reforço de meios e recursos logo que evidenciem as primeiras dificuldades. A inovação pedagógica do aprender menos não remove o insucesso. Mascara-o. Os experimentalismos que partem do abaixamento da fasquia não puxam pelos que ficam para trás. Afundam-nos. O escrutínio sério das políticas educativas das últimas décadas, que só um pensamento crítico livre de contaminações ideológicas permite, demonstra-o.

Com todos os defeitos e limitações que lhes são apontadas, as pedagogias tradicionais, temperadas com moderada e gradual inovação pedagógica, parecem ter trazido consistentes melhorias, nas últimas décadas, ao sistema educativo português. Temos praticamente todas as crianças e jovens a frequentar a escola, durante mais tempo, e com melhores resultados do que apenas há duas ou três décadas atrás.

Com o sucesso alcançado, que os últimos testes internacionais colocam ao nível da média dos países da OCDE, e mesmo acima de alguns países com muito melhores indicadores económicos e sociais, interessaria tornar a escola portuguesa ainda mais inclusiva, reduzir o insucesso sem ceder aos facilitismos, detectar e intervir mais precocemente perante as dificuldades dos alunos e melhorar o currículo e as pedagogias privilegiando as aprendizagens mais estruturantes e significativas.

Melhorar a escola que temos, portanto, em vez de embarcarmos acriticamente na busca da mirífica escola do século XXI, cuja teorização continua demasiado envolta em palavreado oco, e cuja concretização parece fazer depender a eficácia pedagógica da posse da mais recente tecnologia educativa.

Uma escola para pobres, na parte do autoconhecimento e da aprendizagem colaborativa. Mas só ao alcance dos ricos, pelo custo dos diversos zingarelhos de que necessita para funcionar. Não faz sentido, e não vai resultar.

Anúncios

2 thoughts on “Para onde vai a Educação portuguesa?

  1. Eu diria que a questão é mais saber para onde vai o Santana Castilho.
    Um péssimo professor de uma péssima ESE que forma professores péssimos.
    Os alunos estão mais tempo nas escolas e com melhores resultados, mas dizer que isso se deve à escola como o Crato a vê é engolir a versão do PISA graças ao PSD.
    Eu gostava que o Santana Castilho mostrasse, com um milímetro de seriedade, onde é que alguém do actual governo defende a escola para pobres e que os alunos passem sem saber.

    Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s