O pacto educativo já existe, e eu estou contra

pactoSempre que médicos e juízes, normalmente depois de uns avisos categóricos na comunicação social ou a ameaça, real ou velada, de greves e perturbações no sector, conseguem um entendimento com o governo, há logo entre os professores quem reclame idêntico tratamento.

Não é a Educação tão importante, para o futuro de um país, como a Saúde ou a Justiça? Não devem os professores ser respeitados e valorizados, tanto como o são outros profissionais com idênticas habilitações e funções sociais igualmente relevantes? Não devem as grandes linhas da política educativa, tal como o sistema judicial ou o Serviço Nacional da Saúde, estar acima da guerrilha político-partidária e sujeitas a mudar de alto a baixo cada vez que se altera a maioria que suporta o governo?

Filinto Lima, que por certo responderia afirmativamente a todas estas questões, vai ainda mais longe: o que propõe é um acordo político de largo espectro em torno da educação, um verdadeiro pacto de regime congregando esquerda e direita e válido, no mínimo, pelo período de duas legislaturas.

Percebo as dificuldades de consenso político e, por isso, usando o bom exemplo da Justiça, também será possível chegar-se a um acordo na Educação, através da celebração de um entendimento, há muitos anos reclamado pelos diferentes intervenientes da área, constituindo, para o efeito, um grupo de trabalho (GT) e discutindo abertamente o que separa as forças da esquerda das forças da direita. Proponho o alto patrocínio do Presidente da República para este desiderato vantajoso, sinónimo de interesse superior num dos principais setores de qualquer sociedade moderna: a Educação.

O Alexandre Henriques, no ComRegras, apoia a ideia, e já por lá escrevi um pouco do que penso do assunto, e que se pode resumir ao seguinte: já existe, há muitos anos, um pacto de regime entre PS, PSD e CDS sobre a educação, que se tornou especialmente eficaz e consistente a partir do consulado ministerial de Maria de Lurdes Rodrigues.

Perceber que esse pacto existe e em que consiste torna-se relativamente fácil, bastando olhar para o que não muda na Educação cada vez que o PS e o PSD, com ou sem perninha do CDS, alternam no governo: os mega-agrupamentos, o modelo de gestão unipessoal dos directores, a desvalorização social e profissional dos professores, a redução de gastos com as escolas, vistos cada vez mais como despesa em vez de investimento.

Filinto Lima estará preocupado com a desorientação que é vir um governo e exigir exames em todos os ciclos, chegar outro e apostar em provas de aferição, um querer programas extensos e metas de aprendizagem, outro currículos flexíveis e aprendizagens essenciais e amanhã, quem sabe, chegarem novos governantes que querem uma mistura disto tudo ou mesmo algo, na aparência, inteiramente novo.

Pela minha parte, não é este tipo de coisas que me preocupa, mas o que isto revela acerca da forma como sucessivos governos desprezam os professores como interlocutores válidos na definição das políticas educativas. Os decisores políticos não concebem a classe docente como dotada de um pensamento crítico e reflexivo sobre a sua profissão. Não lhes ocorre virem perguntar-nos, tirando partido da nossa experiência na sala de aula, que problemas existem e o que é necessário fazer.

No seu entendimento, fazemos o que nos mandam, ou o que sempre fizemos, da única maneira que sabemos, e teremos de estar sempre à espera do governante, do palestrante universitário, do director-geral ou do avençado da unidade de missão para nos ensinarem o nosso ofício. Somos retrógrados, resistentes à mudança, parecemos inamovíveis nos nossos lugares do quadro e, sobretudo, ganhamos demasiado para aquilo que fazemos: é assim que somos vistos por quem nos governa.

Dobrar os professores como esparguete, reduzir o orçamento da educação, desorçamentando despesa com a ajuda dos fundos comunitários e da municipalização das escolas, melhorar nos rankings internacionais do sucesso e das competências sem gastar mais dinheiro, nivelar por baixo o sistema educativo público até que todos os alunos alcancem, sem esforço, e sem necessidade de dispendiosos apoios educativos, o seu direito ao sucesso. Este é o verdadeiro pacto de regime na educação, não escrito, mas bem interiorizado pelos partidos do poder.

Claro que os defensores dos consensos querem outra coisa, um acordo que envolvesse também os professores e outros intervenientes e interessados na Educação. Mas isso obviamente desinteressa, sobretudo se envolver compromissos concretos, tanto a quem está agora no poder, como a quem espera lá regressar mais cedo do que tarde. Teremos por isso que nos contentar com a redondez do “perfil do aluno”, ou com a inutilidade dos pareceres e manifestos do Conselho Nacional da Educação, tão consensuais e inócuos que em regra são aprovados por unanimidade.

Anúncios

5 thoughts on “O pacto educativo já existe, e eu estou contra

  1. Muito bem sintetizado!
    E quando há assim uns casos de indisciplina mais mediáticos, vêm com frases tipo” Reforço da autoridade dos professores”, que traduzindo, dá : Fica tudo na mesma .

    Gostar

  2. Essas são as matérias consensuais no PS e PSD. Mas quando falo em pacto na educação sou mais abrangente, falo da disciplina, falo no choque ideológico entre o romantismo da esquerda e o chicote da direita, falo nas sucessivas mudanças legislativas, onde os vocacionais e as tutorias são apenas um mero exemplo.
    A escola está em constante rebuliço e constante mudança, todos nós nos queixamos disso, existem pontos comuns é verdade, mas existem muitos que os separam.
    Abraço

    Gostar

    • Há nisto tudo um equívoco de base: para construir consensos é preciso primeiro discutir abertamente os problemas e assumir as divergências.

      Mas entre nós finge-se que estamos todos de acordo, foge-se da discussão e do conflito e, no caso dos políticos, prefere-se a mentira e a demagogia politicamente correctas em vez de se falar verdade e se assumirem as divergências.

      Não é possível construir pactos de regime quando andam todos a tentar enganar os outros.

      Abraço

      Gostar

      • Por isso é que a blogosfera é tão importante. Mas infelizmente a opinião que não segue o rebanho é fortemente atacada…

        Gostar

  3. […] Discutir a Educação portuguesa, em vez de impor, a partir de cima, os consensos de regime que irão determinar as formas de ensinar e aprender, a organização dos espaços escolares, a carreira dos docentes ou o papel das famílias: eis o que me leva a rejeitar os pactos de regime que alguns insistem em defender, uma posição que já expliquei anteriormente. […]

    Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s