Defender o património no século XXI

Muito se fala, nos tempos que correm, da necessidade urgente de construir uma escola para o século XXI.

Pois a mim preocupa-me muito mais que outras coisas, como a defesa do património natural, histórico e cultural, permaneçam, nalgumas partes país, ao nível de um século XIX ainda nos seus primórdios.

É que nas escolas em qualquer altura podemos trocar a disposição da mobília, colocar rodinhas nas cadeiras ou tirar as rodinhas, substituir os computadores por tablets ou projectores por ecrãs de LCD, desmembrar as turmas, refazê-las, baralhar e dar de novo e no fim, se nos apetecer, fazer voltar tudo ao princípio.

Agora quando enfiamos um bulldozer por uma jazida arqueológica e arrasamos tudo o que lá está, os danos são irremediáveis. E se eu julgava que isso, no Portugal do século XXI, já não sucedia, fiquei a saber que, nalgumas zonas do Algarve, a ganância de promotores e empreiteiros, aliada à negligência dos (ir)responsáveis, continua com a rédea solta e a cometer, na maior da impunidades, os mais bárbaros atentados ao património.

Vem isto a propósito de uma das mais importantes cidades romanas no território hoje português. Onde hoje se situam Tavira e alguns empreendimentos turísticos junto à ria Formosa, existiu a cidade de Balsa, que no século II tinha o dobro do tamanho de Lisboa e cujos vestígios arqueológicos estão documentados, desde o século XIX, numa vasta área.

Balsa.jpg

Pois todo este património tem tido o tratamento que a extensa reportagem do Público documenta. Apenas alguns excertos, e o convite à leitura integral:

Uma parte dos testemunhos do passado já desapareceu por causa das intervenções agrícolas na Quinta Torre d’Aires e pela ocupação urbanística do solo. “Os cacos de cerâmica encontravam-se espalhados, à mão cheia pelo terreno”, conta a arqueóloga Cristina Garcia, que fez prospecções no terreno, produzindo em 1989 um relatório de 40 páginas com a proposta de classificação [do] sítio.

A cidadã francesa Bénédicte Travaux, residente em Tavira e membro da associação “Salvem Balsa”, duvida que haja uma verdadeira vontade por parte da autarquia de defender este património. “Vou às reuniões das assembleias municipais, questiono os atentados ao património, respondem sempre com um ar de quem não sabe de nada do que se passa à sua volta”, critica.

O investigador [Luís Fraga Garcia], especialista em urbanismo romano, denuncia: “Nas feiras de velharias encontrei à venda baldes de moedas retiradas de Balsa”. O saque ao património, ao longo dos tempos, está ligado à história local e algumas peças chegaram a ser vendidas em antiquários de Portugal e de Espanha.

Durante a construção do empreendimento turístico Pedras d´El Rei, recorda Manuel Maia, viu “cortar uma piscina romana ao meio para abrir uma vala”. Ao ser testemunha do atentado, recorda o apelo que fez ao engenheiro da obra: “Ao menos preservem a piscina, é importante até para o empreendimento”. A resposta foi negativa: “Está previsto construir aqui um T0”. Os vestígios arqueológicos, presume-se, foram descartados juntamente com o entulho.

Mesmo não dando o devido valor ao património histórico e cultural, seria de esperar dos promotores dos empreendimentos turísticos que compreendessem o potencial, para o próprio turismo, da preservação dos vestígios arqueológicos do passado.

O Algarve, famoso pelo sol e pela praia, está ainda longe de explorar todas as potencialidades do seu património. E o turismo cultural seria um bom complemento das férias na praia, bem como um atractivo suplementar que poderia ajudar a combater a sazonalidade e a atrair outros tipos de turistas ao Algarve.

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