De que é feito o sucesso escolar?

sec-am2.jpgO que é, como funciona, uma escola secundária de sucesso? Em busca da resposta, o DN resolveu visitar uma das escolas públicas do interior do país mais eficazes a colocar alunos nos cursos mais procurados do ensino superior: a Secundária Alves Martins, de Viseu.

Passemos adiante as referências genéricas às óptimas instalações, ao corpo docente “maravilhoso” e aos alunos empenhados, e atentemos neste parágrafo significativo:

A filosofia da escola é apostar “desde o 10.º ano” numa “preparação enorme” para os exames nacionais. “O que eles aprendem em termos de valores e de conhecimento é muito bonito, mas o mais importante é que usem o secundário para chegar ao curso superior que querem. E nós orgulhamo–nos de os ajudar a chegar lá.” Mais de 80% dos alunos seguem para o ensino superior.

É importante perceber-se, quando se anunciam flexibilidades e autonomias na gestão curricular, que nem todas as escolas irão brincar aos projectos interdisciplinares. Aquelas que, como a Alves Martins, atraem os melhores alunos, ou os mais ambiciosos, irão aproveitar para reforçar a aposta na preparação para os exames, criando um currículo ainda mais desequilibrado em favor das disciplinas sujeitas a avaliação externa.

Claro que os bons resultados tendem a gerar um ciclo virtuoso: com bons alunos conseguem-se melhores classificações, que por sua vez atraem as novas fornadas de estudantes aplicados que anualmente chegam das escolas básicas da cidade. Havendo procura superior à oferta de turmas, torna-se necessário seleccionar alunos, e uma escola de sucesso só poderá pretender alunos que ambicionem também ser bem sucedidos…

O que não quer dizer, contudo, que estejamos a falar de uma escola para meninos ricos. Mas quase.  Repare-se como a entrada de um estudante carenciado no curso de Medicina é elevada à categoria de grande feito:

“Já tive casos de pais que vêm cá inscrever os filhos para entrarem em Medicina e tivemos uma alegria enorme quando um aluno de escalão A conseguiu. Trabalhamos para o sucesso de todos”, garante o diretor.

A verdade é que por detrás da maioria das histórias de sucesso está uma boa retaguarda familiar e, aspecto menos falado mas não menos importante, a indústria das explicações e dos centros de estudo, que todos os anos ajuda a transformar alunos fracos em medianos e estes em alunos bons o suficiente para conseguirem chegar ao curso superior dos seus sonhos. Ora aqui é determinante o poder económico e, independentemente da qualidade das escolas, Portugal ainda é dos países onde a situação sócio-económica das famílias mais influencia o percurso e as realizações escolares dos alunos.

Os projectos da Parque Escolar, que deram prioridade às escolas que já eram boas, tornando-as ainda melhores em termos de instalações e equipamentos, contribuíram também para que se acentuasse, no secundário, esta percepção evidente de um sistema a várias velocidades: na base, um conjunto de escolas, muitas delas degradadas, que fazem do combate ao insucesso e ao abandono a sua batalha quotidiana; no topo, as escolas ditas de excelência que competem pelas posições cimeiras dos rankings e pelo número de estudantes que colocam anualmente em Medicina.

sec-am1.jpgQuanto às boas instalações, estimadas pelos alunos, de que nos fala o director da escola: nem de propósito, a foto que ilustra a reportagem dá-nos um exemplo eloquente…

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